“O tempo não existe para ser contado, ele deve ser vivido.” ®
O casal, mesmo sem querer, chamava a atenção de toda a praia. Por onde passavam eram seguidos pelos olhares dos que estavam na areia. Não era para menos.
Paulo, aos 40 anos, do alto de seus 1,85m, mantinha seu corpo muito bem cuidado. A camiseta branca de malha com mangas cobria parte de sua sunga azul. Os braços, presos nas mangas, realçavam seus músculos bem delineados. Se a barriga não era um “tanquinho” também não tinha qualquer excesso. Ele se mantinha em forma não apenas por vaidade. A sua vida dependia disso. Era policial federal apesar de sempre se apresentar como bancário, mas isso é outra história.
A pele bem morena de Paulo dava, durante todo o ano, a impressão de que se bronzeara recentemente e contrastava com seus olhos verdes. O cavanhaque com bigodes chamava atenção para o “tridente”, era assim que ele chamava sua cicatriz.
A cicatriz, provocada por uma queda de bicicleta na infância, lhe emprestava um ar másculo, cafajeste e certo ar de coragem. Parecia uma letra “E” maiúscula onde o traço do meio foi puxado para trás formando assim o tridente bem na maçã do rosto. Isso em conjunto com uma pronunciada sobrancelha serrada e bem aparada que quase se juntavam.
As misturas destas características, de forma harmoniosa, ofereciam ao mesmo tempo um ar sério e compenetrado a Paulo e, principalmente quando sorria de leve, um charme de cafajeste que atraia as mulheres. Todavia, desde o casamento Paulo sempre foi fiel a Bia. Talvez por isso o casal desfilasse transmitindo no semblante uma felicidade incomum.
Bia, loiríssima, com 1,65m e um bronzeado recente, estava um pouco acima do peso e isso lhe emprestava mais coxas, mais bunda e mais seios. Passeava com naturalidade naquele biquíni verde que mais realçava suas curvas do que tapava sua pele. Os homens ficavam impressionados com seu corpo de violão, de raras estrias e celulites quase invisíveis. Mas o que mais chamava a atenção era o brilho natural de seus olhos verdes claros, pareciam ter luz própria.
Os olhos brilhantes ajudavam a iluminar seu rosto ao mais leve sorriso, mas, diferente de seu marido que raramente ria, Bia estava sempre rindo e se divertindo em qualquer situação. Era professora, de matemática, e sempre que podia aproveitava para ensinar a seus filhos a colocar em prática os conhecimentos já acumulados.
Apesar de tantos atributos para causar inveja o que as amigas mais invejavam nela era a felicidade conjugal, ainda mais com um marido sensual como aquele. Eles discutiam exatamente isso, os amigos em comum e se convidariam alguns para vir à Maricá.
Na casa, enquanto o casal passeava, se desenrolava uma cena digna de registro. Marcelo, com o violão na mão e com apoio vocal de André e Afonso, se esforçava em dar uma interpretação apaixonada a uma antiga música de Roberto Carlos (embora ele não soubesse) regravada por diversos artistas.
A canção escolhida foi “Esqueça” e a intenção de Marcelo era confessar seu amor por Lúcia. A notícia do rompimento do namoro de Lúcia a precedera, mas ela não sabia disso. A insistência naquela música, que eles cantavam cada vez mais entusiasmados deixando a parte falada ao Marcelo, que a repetia sempre olhando diretamente os olhos de Lúcia, já estava incomodando e elas, para não reclamar (e poderem rir) saíram do quintal da casa para a areia da praia indo para grande sombra da amendoeira.
Marcelo ficou doido, não sabia o que fazer, mas tinha que fazer alguma coisa. Levantou, violão na mão, seguiu os passos de Lúcia enquanto atacava as cordas e apelava para “Conquista”, de Claudinho & Bochecha.
Ele chegou até a fazer sucesso e as meninas acabaram contando junto e até ensaiaram uns passinhos. Mas cadê que Lúcia entendia que ele estava tentando declarar o seu amor.
Ele tinha treinado noites a fio e não podia falhar agora. Tinha que fazer algo para ela entender o quanto ele estava apaixonado. Mudou mais uma vez de música. Agora foi a vez de “Eu te quero só pra mim”, do Grupo Revelação. Ele então atacou com tudo e quando chegou a hora parou de tocar seu violão, ajoelhou-se de frente para ela, abriu os braços... Foram tão inusitados seus gestos e atitudes que todos se calaram e só a voz dele se fez ouvir quase gritando num desabafo: “O que fazer pra te conquistar?”
Foi só gargalhada. Ele ainda tentou retomar a música, mas não adiantou. Agora o grupo ria e tirava sarro tanto dele como de Lúcia que de tão acanhada estava com o rosto vermelho. Era um rubor tão forte que ela sentia a face queimar.
Tudo isso teve suas conseqüências. O coração de Lúcia disparara e ela nem estava entendendo o porquê até que Marcelo se afastou do grupo voltando apressado para casa.
No meio do caminho seu corpo inteiro se arrepiou ao ouvir entre todos os risos uma única e deliciosa voz chamando seu nome quase que em súplica. Era Lúcia que o chamava, mas ele não estava preparado para tanto, agora era o seu coração que explodia e perdido, sem saber o que fazer, correu para a casa.
Ele fechou a porta da sala e ficou ali, parado, olhando para porta pensando na besteira que fizera. Lúcia o chamara e ele ao invés de buscar seus braços fugira dela, dela e de todo mundo. Agora, até ela devia estar rindo dele.
As lágrimas se anunciavam, mas ele era homem e não podia se permitir chorar. Enquanto tentava conter-se a porta abriu, Lúcia entrou, fechou a porta sem desviar seu olhar do dele. Ele não ouvia mais nada, ele não respirava, o tempo parou. Ela deu mais um passo. Ele ali, parado, inerte, em desespero e querendo, sem conseguir, reagir. Ela deu outro passo. Como em câmera lenta ele percebeu os braços dela se erguendo, as mãos se aproximando e tocando seu rosto, os lábios dela crescendo em direção a ele e, finalmente, vencendo o torpor, ele abraça aquele corpo, beija aquela boca pela primeira vez e nem liga quando as lágrimas vencem e descem por seu rosto. Chorava agora de alegria, de satisfação, pela vitória, pela conquista, por sua paixão.
Sem palavras, após o beijo e ainda ouvindo as gargalhadas, deram-se as mãos como se tudo tivesse sido combinado, saem para a varanda e, para espanto geral e provocando grande silêncio, se beijam mais uma vez!
Ele jamais conseguiria traduzir em palavras, mesmo que poeta fosse, as sensações que experimentava nem as trocas de energia que acontecia entre todo o corpo do casal.
Lúcia, por sua vez, não estava entendo nem sua coragem, nem sua reação. Era só seu corpo que estava no comando e a sensação que ela agora sentia no fundo de seu ventre fazia suas pernas estremecerem e seu coração saltitar por puro prazer de estar ali com aquele garoto bobo que conseguira conquistá-la de um instante para outro com sua demonstração de coragem e paixão por ela.
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