“Quando pensar no futuro não esqueça as lições do passado.” ®
Com a chegada da noite veio um frio inesperado. Paulo aproveitou e seguiu para a praia com uma pá na mão. A curiosidade juvenil é uma armadilha. Logo eles se aproximaram e quietos ficaram vendo Paulo abrir um buraco raso e redondo na areia sob a amendoeira.
- Seu Paulo; podemos ajudar? – Marcelo vencendo o silêncio geral aventurou. Paulo sorriu, era a deixa que ele estava esperando.
- Estou pensando em fazer uma fogueira e assar umas batatas doces para mim e para Bia. Se vocês quiserem se juntar a nós o ingresso é de apenas mato e galhos secos. Se vocês me derem a fogueira eu dou a batata doce.
Foi uma correria. Todo o grupo se espalhou pela praia procurando combustível para a fogueira. Em menos de meia hora tinha fogueira acesa e lenha de reserva para longas horas.
Paulo e Bia, com bolsas, esteiras e toalhas, se encaminharam para a amendoeira. O grupo foi se organizando e logo tinha um violão, uma lata e uma frigideira enferrujada na percussão e a cantoria voava longe com o vento.
Alguns colegas que passavam foram se juntando ao grupo. Logo um carro estacionou e o pagode profissional venceu o improviso. Aos poucos foi virando uma festa. Já tinha cerveja, refrigerante, milho cozido, batata doce assada na fogueira, gente dançando.
Paulo e Bia se levantaram – era preciso dar mais liberdade aos jovens – e Paulo anunciou que tinha programado uma ida às Grutas do Spar na manhã seguinte e que o horário de encontro era às 06h30minh e a saída pontualmente às 07h00minh da manhã.
Foi um alvoroço, os planos, os encontros, os sonhos, as fantasias, as expectativas tomaram conta do grupo e, rindo e abraçadinhos, o casal se retirou.
Mais uma vez o olhar de Paulo cruzou com o de Luís e mais uma vez a sensação de lembrar alguém. Quem? Paulo não atinava, não lembrava e novamente deixou passar.
No grupo de jovens as trocas de informações aconteciam.
Maricá começou a ser povoada quando das sesmarias no século XVI. O padre José de Anchieta passeou por aquelas terras. As grutas de Spar já fora uma mina, era enorme, tinha um lago.
Havia no ar uma expectativa de aventura para o dia seguinte. O que ninguém sabia era do risco que todos corriam e as conseqüências daquele passeio. Nem mesmo Luís, nem seu pai, poderiam imaginar o que estava para acontecer.
Aos poucos o bando foi se reduzindo e logo a fogueira foi abandonada. Luís chegou em casa entusiasmado. Conseguira se aproximar de Telma, e depois de serem formalmente apresentados e conversarem rapidamente, chegaram a trocarem olhares e sorrisos numa discreta paquera.
Ainda assim, informava ele a Ferreira. Não iriam precisar dela para informar detalhes do comportamento da casa e da família de Paulo. A casa estaria vazia durante todo o dia seguinte. Ferreira poderia entrar e ficar à vontade enquanto procurava o mapa.
Luís, ao mesmo tempo em que achava que devia ajudar ao pai estava, como os outros jovens, entusiasmado com a idéia de explorar as grutas. Ainda assim se ofereceu.
- Pai, eu vou pela manhã, me despeço do grupo que vai para as grutas e aguardo você chegar para ajudá-lo.
- Não quero você envolvido diretamente nisso. Apesar de eu estar indo na casa pegar algo totalmente sem valor para ninguém se eu for pego lá dentro vou ser preso como ladrão. Como já tenho antecedente não terei como me livrar e se você estiver comigo será preso como meu filho e comparsa. Não quero você nessa vida.
- Melhor mesmo, continuou Ferreira, é você ir com o grupo e se houver algum problema, se alguém resolver voltar mais cedo, você me avisa pelo celular.
- Ótimo! – Luís não conseguiu disfarçar a alegria. O pai sorriu.
Ferreira era uma figura exótica, tipo antigo malandro, gostava de roupas bem coloridas, fumava com o cigarro preso todo o tempo no canto da boca. Quando não estava fumando tinha um palito de dentes ou de fósforo, ou mesmo um cigarro apagado preso naquele canto da boca.
Andava como quem dança, balançava exageradamente os braços, vivia de piadas e era muito conhecido nas rodinhas de cerveja. Onde ele passava lhe ofereciam um copo para rir de suas piadas.
Tinha sido preso, passou quase cinco anos na prisão por conta de um assalto a mão armada. Aprendera a lição, estava quieto, mas não esquecia o boato que escutara na penitenciaria.
“Um grande roubo internacional fora levado para uma casinha em Maricá. Era uma bonita casa branca bem na curva de frente para a praia. Tinha uma amendoeira nova no jardim bem em frente a uma velha amendoeira na praia. Ali "o cabeça" do grupo foi descoberto e preso, dizem que foi até deportado. Mas nunca mais se ouviu falar do dinheiro.”
Um amigo de cela de Ferreirinha, quando soube que ele era de Maricá contara toda história. Disse ter convivido alguns poucos meses com o estrangeiro e havia ajudado a ele na dificuldade de comunicação. Antes de ir embora o estrangeiro disse a ele alguma coisa sobre a casa, um mapa desenhado como um desenho infantil. Pelo menos foi isso que ele entendeu.
Ferreirinha identificara a casa. Nela ficava um vigia com dois cachorrões enormes. O vigia até saia, mas os cachorrões lá ficavam e não deixavam ninguém chegar perto. A casa fora alugada, mas só na véspera o vigia tirou os cachorros e uma mulher foi para lá, limparam tudo e dormiram juntos aquela noite. Não houve qualquer chance. E, pelo que tudo indicava, sua melhor oportunidade estava por acontecer.
Ele entraria na casa, abriria ela toda demonstrando normalidade e procuraria um mapa feito por criança, se achasse ele estaria a um passo de uma grande fortuna em dinheiro estrangeiro. Trocar por real era um problema para depois de a bolada estar em suas mãos. Não conseguiu dormir.
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