“No amor: fere mais quem cala do que quem consente.” ®
Paulo e Bia acordaram bem cedo, por volta das 05h30, e logo estavam engajados no preparo de sanduíches, refrescos e o cheiro de café já dominava a casa.
Antes das 6h tocam a campainha os irmãos Afonso e Marcelo já acompanhados de Lúcia. Bia organiza imediatamente tudo: Lúcia acorde Andréia, Marcelo acorde o André, Afonso compra 20 pães. – disse já estendendo o dinheiro ao rapaz que saiu à contra gosto.
Uma algazarra ia tomando conta da casa com a chegada dos “aventureiros”. Além de Telma e Luís eram mais duas moças e três rapazes. Todos prontos para sair e Bia ficou na porta contando cada um que passava. Era um grupo de 14 pessoas contando com ela mesma. Oito homens e seis mulheres, ela anotou mentalmente.
Paulo olhou para o relógio uma última vez, consultou o entorno e deu voz de partida. Era exatamente 07h00 como o combinado. A caminhada era longa até a trilha, depois uma subida leve até as minas abandonadas.
Estavam quase chegando. A paisagem começa a mudar e logo nenhum vestígio de cidade será contemplado a não ser a grande distância. Mas eles chegam ao acesso só por volta das 10h.
Neste mesmo horário, no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, proveniente de Berlim, desembarcam dois alemães acompanhados de um latino alto, louro e de olhos azuis. Eles parecem perdidos e muito estressados. A viagem fora longa. Já em Berlim o atraso fora de mais de 30 minutos e o vôo previsto para 14h55 só saíra depois das 15h30. Chegando à primeira escala, em Monique, ainda eram 16h30, mas seu vôo para São Paulo só saia às 21h45. Esse vôo atrasou 1h15 e eles só saíram de lá às 23h chegando a São Paulo às 07h00. Alguém informou que o vôo para o Rio de Janeiro estava em sua última chamada e lá foram eles correndo entre corredores, sem noção exata do rumo, até onde ocorria o embarque para o Rio, mas aquele não era o avião deles. O deles só saiu de São Paulo meia hora depois e sem perceber eles estavam no Rio no horário correto.
Só quem mantinha a calma era o carioca Lothar. Filho de Maria Silva, nascida na Baixada Fluminense e Portelense. Sua mãe casara com um alemão de quem ele herdara o nome, que se apaixonou pela mulata à primeira vista. Ela, passista, deixou o mundo do samba e foi para as terras frias da Alemanha. De lá voltou para ter seu filho, aqui no Brasil e Lothar José depois disso viera ao Brasil apenas três vezes, essa era a quarta vez e ele acreditava que já conhecia tudo. Típico carioca.
Perambulando pelos corredores foram orientados por um funcionário para sair da área de desembarque indo para os corredores externos. Só então é que puderam vislumbram uma placa com seus nomes: Franz Becker, Jürgen Bayer, Lothar José da Silva Walter.
Seguiram o rapaz e quem melhor “arranhava” o português era Lothar José, ainda assim misturando, sem qualquer lógica, femininos e masculinos. Entraram numa grande van e quase 2 horas depois estavam hospedados no Real Park Hotel em Itaipuaçu. No caminho o motorista ia lhes falando dos detalhes do plano.
Hans estivera na prisão com ele e dissera que para encontrar a grana roubada teriam que ir às Grutas do Spar. O dinheiro continuava intacto no mesmo malote utilizado na viagem. Ele só não disse onde estavam as chaves do malote. Franz e Bayer se olharam. Falavam mal o português, mas entendiam bastante. Cada um puxou seu cordão e mostraram praticamente juntos a chave ao motorista.
Lothar José, rindo muito, perguntou se eles se preocupavam mesmo com ter ou não ter a chave e puxou do canivete expondo a lâmina numa insinuação clara que elas eram desnecessárias.
Onze horas em ponto o telefone tocou. Lúcio, o motorista, atendeu e depois de alguns monossílabos desligou o celular.
- Trouxeram a grama? – seus olhos brilhavam e Lothar José já prevenido preparou o esquema.
- Tem a grana. Já em real. Eu vou com você. Frank e Bayer vão alugar e passear de carro. Eu ligo dando ok. Fico lá e você traz encomenda enquanto Frank leva pagamento.
- Você tá louco cara? Assim eles não entregam o bagulho.
- Sem problema, já tem grupo querendo vender. – mentiu Lothar José.
- Eles estão vigiando querendo o errado. – voltou a mentir e Lúcio acreditou.
- “Vamu” lá. “Vamu” ver.
Os estrangeiros se entreolharam. Nenhum deles entendeu o significado de “vamuvê” “vamulá”, na certa era alguma gíria.
Tudo correu bem. Eles receberam armas, munição, dois passaportes e um jogo de documentos (para Lothar José), mapas detalhados da área, fotos de uma casa branca na beira da praia e das Grutas do Spar.
Com o mapa na mão o trio rumou para a casa branca, na beira da praia, em pleno sol de meio dia, e nem com o ar-condicionado do gol alugado ligado no máximo eles se sentiam confortáveis.
Ferreira, por sua vez, já fizera reconhecimento da área, verificara que só tinha gente na casa da direita e que com o muro e planta eles não tinham muita visão da casa em si.
Por volta das 11h00 entrou na casa e abriu tudo que foi janela passando a passear livremente pela casa enquanto procurava o mapa desenhado por criança. Não tinha muito onde procurar, mas pela segunda vez ele passara tudo sem encontrar nada que fosse infantil.
A van para em frente à casa e Ferreira se assusta. Olhou de uma janela, foi até a outra que dava uma visão melhor e viu os homens armados soltando da van. Bem nesta hora é que ele notou um quadro infantil na parede. Não um mapa, um desenho que havia sido emoldurado.
Pegou o quadro e correu para buscar um esconderijo qualquer naquela minúscula casa. Os homens entraram sem qualquer dificuldade. A casa estava toda aberta. E começaram a vasculhar toda sala. Ouviram um barulho vindo da cozinha e de armas em punho se dirigiram para lá.
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