terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 06 - Buscas e Perseguições ®


“Para felicidade contam apenas a valorização dos instantes e dos detalhes da vida.” ®

Assim que o alarme foi dado saíram todos à procura do gêmeo que desaparecera como por encanto. Marcelo não se perdoava. Ficara entretido em seu namoro e não dera a devida atenção ao irmão. Lúcia também se sentia culpada. De alguma forma ela afastara dois irmãos sempre tão unidos. Ela estava aos prantos quando Andréia se aproximou abraçando a amiga e, sem nem tentar consolá-la, incitou-a a chorar depois e começar a procurar seu cunhado imediatamente. Era esse sentido de urgência que ocupava todo o grupo. Logo ia escurecer. Se em plena luz do dia era uma busca dificílima, a noite tornaria impraticável qualquer iniciativa.
Paulo já mobilizara a polícia, a defesa civil da cidade e o corpo de bombeiros. Cada vez chegava mais gente e mais recursos. A ordem era buscar em grupo de pessoas, todas bem próximas e marcando com adesivos fosforescentes os caminhos trilhados.
Luís, sem dar atenção às recomendações, como era da sua rebelde natureza, foi seguindo uma subida natural de pedra e se viu entre duas pedras. Aquela abertura no alto era imperceptível ao mais atento observador. A inclinação da abertura entre as pedras a tornava realmente invisível. A subida continuava e repentinamente o solo falta abaixo de seus pés e ele se desequilibra caído sentado sobre uma pedra lisa e úmida de onde vai escorregando sempre mais para baixo e em alta velocidade. Ele gritou o mais alto que pode. Na gruta todos ouviram seu grito e os ecos dele. A acústica da gruta não permitiu a identificação de onde partira o grito.
Apitos foram ouvidos em toda parte e as pessoas se reagruparam num ponto combinado. Só então perceberam que Luís também sumira. Já eram dois os jovens desaparecidos sem que ninguém soubesse onde, como ou por que.
Em outro ponto da cidade, livre da companhia dos alemães, Lúcio decide voltar ao cativeiro de Ferreira. Decidiu tentar inicialmente a persuasão para só depois arrancar as informações de qualquer forma. Assim procedeu. Passou num restaurante e comprou um galeto com batatas fritas e seguiu para as ruínas das minas.
No início da colonização desta região fora a existência de ouro e pedras preciosas que atraíra muita gente para aquele lindo pedaço de terra com grandes lagos, praia deliciosa e ouro, muito ouro.
As grutas foram exploradas e seus caminhos ampliados na busca do veio, do filão. Poucos conseguiram fazer fortuna naquelas minas e aos poucos os mineiros foram mais para o interior em busca do verdadeiro eldorado abandonando aquelas paragens.
Era nas ruínas de um destes acessos externos às grutas que Ferreirinha tinha sido abandonado à própria sorte com a cabeça quebrada por uma coronhada.
Ele tinha recobrado os sentidos, mas não conseguia atinar com onde estava. Era tudo muito escuro e pouquíssima luz chegava até ale. Ainda assim ela clareava, mas não iluminava. Ele sabia que provavelmente estava nas Grutas de Spar. Afinal tudo que ele podia sentir ou tocar era só pedra e aqueles homens certamente estavam em busca do mesmo que ele. O dinheiro de um assalto ocorrido fora do Brasil há muitos anos atrás.
Seu sentido de perigo alertou-se e ele percebeu um foco de luz diferente naquela claridade. Logo ouviu o barulho do que parecia uma porta ou portão... Algo feito com ferro e madeira. Ele mesmo se impressionou com a capacidade de distinguir sons e identificá-los, mas agora era melhor parecer, no mínimo, atordoado.
Na curva da parede de pedra surgiu uma lanterna no formato de lampião. A luz chegou a doer cegando-lhe momentaneamente. A pessoa estava por trás da luz e estava difícil distinguir-lhe as feições. Quando ele depositou a lanterna no chão o sentido de alerta de Ferreira recebeu um choque de adrenalina. Ele não saberia dizer se sentia medo, pavor, insegurança por saber que estava a sós e imobilizado, preso numa caverna, com um assassino frio e calculista.
Quem cruzasse com Lúcio normalmente não seria atraído por aquela figura miúda, frágil, de fala mansa e lenta. Seria certamente um operário medíocre, um serviçal desqualificado. Nordestino, pele curtida de sol, sotaque ainda forte. Responde a tudo por monossílabos: sim senhor, não senhor, por aqui senhora, sempre respeitoso e usando pronomes de tratamento.
Habilidoso com uma faca, até mesmo na cadeia, com uma faca artesanal, feita de gelo, fez sangrar até a morte seu companheiro de cela por um simples desafeto sem que ninguém descobrisse nada sobre o crime. O gelo derreteu em meio ao sangue quente e ele, detido e revistado minuciosamente, não possuía qualquer arma nem com ele, nem na cela.
Cara a cara, frente a frente com o perigo é claro que o espanto de Ferreira foi medonho ao ser desamarrado e lhe ser oferecido um galeto ainda embalado pelo restaurante. Comeu, sem medos ou remoço, afinal se a vontade e Lúcio fosse matá-lo, com ou sem veneno, ele estaria morto.
Conversaram durante a refeição uma conversa cuidadosa. Cada ato e palavra eram muito bem colocados por cada um deles como se num jogo de xadrez.
- Ferreira o seu nome, não é isso? – perguntou Lúcio com sua fala mansa e lenta.
- Isso mesmo, Ferreira. Nós nos conhecemos? – Ferreira precisava ganhar tempo para entender o que ali se desenrolava.
- Estivemos na penitenciária juntos homem, não finja que já se esqueceu dos amigos de presídio. – os olhos de Lúcio investigavam cada reação.
- Sim, é isso! – terminou a exclamação com um grande sorriso.
- Minha cabeça ainda dói, levei uma forte pancada nela. Reconheci você, sabia que lhe conhecia. Mas estou tão atordoado que não conseguia localizá-lo. Lúcio Feroz! É esse seu nome, não é?
- Não, apenas Lúcio. O feroz era um apelido da cadeia. Nunca gostei dele, mas lá era útil.
- O que você está fazendo aqui? – ele perguntou com um sorriso sarcástico iluminando seu rosto.
- Pensei, sinceramente, que você pudesse me dizer algo sobre isso. Eu estava em casa, uns caras estrangeiros foram me roubar e me atraquei com um deles, mesmo eles estando armados. Devo ter levado uma forte coronhada. Só sei que acordei aqui, cabeça quebrada e doendo muito e todo amarrado e amordaçado.
- Desta vez eu consegui te salvar. Nem sei como. Mas vou ficar muito enrolado com isso. Os caras são da barra pesada. São estrangeiros. Dirigi para eles. Vieram do aeroporto do Rio direto para cá e já conseguiram armamento e estão bem equipados e parecem ter muitos contatos. Pegaram você, enfiaram no carro e me procuraram para te guardar em algum lugar até você dizer para eles onde está o dinheiro. – ele falava sério e olhava fixamente para Ferreira.
Ferreira tentou ganhar tempo e fingir não saber do que ele estava falando. No instante seguinte abriu uma sonora gargalhada e num quase resmungo:
- Dinheiro. Como um ex-presidiário vai conseguir dinheiro? Esses caras são é maluco! – fez o seu melhor, tentou liberar ao máximo seus atos representando como se fora um ator.
Lúcio deu-lhe, imediatamente, uma forte bofetada.
- Tá pensando o quê. Quer me fazer de trouxa. Você sabe o quanto estou me arriscando vindo aqui trazer comidinha pra você? Estou aqui para fazer um acordo e te livrar destes caras. Mas quero ganhar uma bolada com isso, é claro. E se você insistir que não tem “bolada” largo você à sua própria sorte e só garanto que se os estrangeiros não te matarem eu mesmo mato. – Lúcio era outro homem quando se revelava.
- Não existe bolada nenhuma. O que existe é um boato de que um estrangeiro que morreu no presídio tinha se dado bem num grande assalto e tinha trazido todo dinheiro para o Brasil. – ele tomou fôlego e continuou antes de levar outra bofetada que já se desenhava no rosto de Lúcio. Afinal ele estava totalmente em desvantagem.
- Acontece que ninguém sabia mais nada. Eu consegui descobrir a casa que o cara morava antes de ser preso. Hoje invadi a casa e estava vasculhando tudo quando estes loucos entraram ostensivamente na casa, me encontraram e o resto... O resto você sabe melhor do que eu. – respirou fundo. Escapara da bofetada.
- Você acha mesmo que só isso vale a sua vida e o meu risco? Você ainda está brincando comigo. Se for só isso você pode começar a rezar que logo logo vai estar morto.
O filho de Ferreira não estava em uma situação muito melhor que ele. Pelo contrário. A única fonte de luz vinha da lanterna. Só que na queda ele parou numa barreira natural e no impacto a lanterna saiu de sua mão se projetando para frente e caindo bem mais abaixo de onde ele estava e iluminava apenas uma parede de pedra mais abaixo ainda deixando apenas uma penumbra para cima.
Luís gritou o mais alto que pôde um palavrão como desabafo. O palavrão ecoou por toda caverna e chegou ao grande salão superior como se viesse, ao mesmo tempo, de todos os lados. Pelo menos se sabia que ele estava vivo e dentro da caverna, enquanto de Afonso nada se sabia até aquele momento.
Um sussurro chegou aos ouvidos de Luís.
- Luís, é você? Por favor, não grita! Pode ter algum animal morando aqui.
- Afonso? Que bom ter te encontrado, você está bem? Cadê você?
Luís sente algo tocando suas costas e solta um grito.
- Calma, sou eu, estou bem atrás de você. Como você chegou aqui?
- Encontrei uma subida que passava por trás da pedra.
- Foi por aí mesmo que eu acabei caindo aqui. Já tentei subir, mas é íngreme, muito liso e escorregadio. Eu perdi minha lanterna, ela rolou para o lado esquerdo, mas na escuridão total preferi ficar parado até a vista acostumar. Só que é tão escuro que não adiantou. Agora, pelo menos, tem a claridade de sua lanterna e já consigo ver minha mão e o seu vulto.
Enquanto falava ele foi se aproximando de Luís e agora estavam os dois juntos. Eles foram tateando lentamente tentando descobrir, sem sucesso, onde estava a lanterna e parecia que tudo levava mais para baixo, eles estavam em um patamar que descia em frente pela direita e lateralmente pela esquerda. Mas eles não tinham como saber até onde era a descida. Não dava para perceber nenhum ponto onde pudessem se segurar até que tateando o teto Afonso descobriu um buraco onde eles poderiam subir. Pelo menos ali o piso não parecia ser nem tão liso, nem tão úmido.
Com a ajuda de Luís ele conseguiu subir. Percebeu que podia ficar de pé e com muito cuidado foi indo um pouco mais para frente. O chão acabava um passo depois, mas tinha espaço suficiente para os dois. Agora foi ele quem ajudou ao Luís. Uma vez juntos Luís tentou descobrir o quanto fundo era o buraco abaixo de seus pés e se não era apenas um buraco com o piso continuando à frente. Sentou-se e foi, cuidadosa e lentamente, se aproximando da beira e abaixando o pé. O pé tocou numa pedra e logo abaixo em outra. Parecia ser uma escada de altos degraus.
Era uma escada, sem dúvida. Era estreita, ia dando a volta na pedra, só cabia um em cada degrau e eles foram juntos, encostados na pedra, descendo os degraus, uma a um, até chegarem a um patamar.
Viram então uma luz. Mas ela não era fixa. Parecia flutuar distante e ia se aproximando lentamente deles, mas era um foco e iluminava o que parecia ser uma grande ponte de pedra. Eles ficaram assustados. Como explicar uma luz voando reta sobre uma ponte de pedra? Seria o espírito de algum mineiro? Alguma espécie de vaga-lume gigante? Ficaram em silêncio, agarrados, juntos, mas a respiração ofegante era impossível de controlar. Se fosse algum animal iria sentir o cheiro deles, ouvir o respirar e os acharia com facilidade.

 

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