“Ser feliz passa por compreender, aceitar e lutar sem desistir.” ®
Ferreira tinha o corpo dolorido. A cabeça latejava. Um assassino frio estava à sua frente e o mataria sem qualquer remorso. Ele ganhava tempo comendo o frango que Lúcio lhe trouxera. Tinha que pensar rápido, mas aquilo tudo desestabilizara Ferreira a tal ponto que ele sentia-se claustrofóbico como se a montanha inteira fosse desmoronar sobre ele. Por tudo isso desistiu. Restava-lhe apenas abrir o jogo e ele sabia que não poderia usar de meias verdades sob pena de ser abandonado ali.
Imaginar-se ali, mais uma vez abandonado, novamente amordaçado e amarrado, cercado de trevas, ainda mais sentindo agora todo o peso da montanha sobre si, ouvir os ruídos que vinham do interior da gruta de onde dois gritos de pavor já ecoaram. Não, ele não ia resistir, mas não podia se entregar assim, de graça. Tinha que conseguir negociar com Lúcio, pensou enquanto comia.
- A bolada é bem grande, embora eu não saiba de quanto estamos falando. Mas, antes de te contar qualquer coisa, quero ter certeza de que tenho chances de ficar vivo. – Ferreirinha renascera das cinzas, voltava a ser o malandro, o marginal e estava novamente no jogo. Ele sentiu isso na hesitação de Lúcio.
- Estou, até agora, sozinho nisso. – continuou Ferreira – Sei que sem apoio e sem equipe não vou ter sucesso. Podemos formar uma dupla e contratar pessoal. Assim a bolada fica dividida apenas entre nós dois e os outros vão ganhar o valor combinado. – calou-se torcendo para que Lúcio cedesse à curiosidade e aceitasse uma parceria.
O silêncio foi sepulcral. Ferreirinha já estava desanimando e se vendo morto ali e agora quando, sem palavras, Lúcio levantou-se e estendeu a mão para o lampião. Será que ele cometera algum erro sem perceber?
Uma trovoada se fez ouvir e Ferreira sentiu que o teto ia desmoronar. Em outra parte das minas o grupo de busca chegou a estancar por momentos. O ruído amplificado e ecoando no interior da gruta fora fenomenal. Mas assustados mesmo ficaram Afonso e Luís que instintivamente se agarraram ainda mais, um no outro, e quase caíram do patamar.
A luz misteriosa agora dançava iluminando as pedras. Ia da esquerda para direita, subia e descia, voltava à direita num bailado assustador. Aos poucos a claridade se aproximava deles e eles não tinham, naquele patamar, como se esconder. Luís sugeriu ao amigo:
- Vamos subir os degraus e nos esconder no corredor de onde viemos. – ao sussurrar com o amigo descobriu que a voz humana sussurrada é bastante audível e logo a claridade iluminava os dois.
A luz assustadora passou a ser o anjo da guarda dos dois jovens. Afastando-se deles ela foi mostrando o caminho para uma descida segura movendo-se e parando em cada ponto de apoio. Eles perceberam que a escada continuava só que muito irregular onde só um de cada vez poderia seguir e teriam que descer literalmente sentado.
Eles estavam com medo, suavam, estavam realmente assustados. A iluminação focal não permitia descobrir o iluminador que a guiava. Certamente não era ninguém do grupo, pois já teria se identificado. Todavia a luz iluminava um caminho seguro de descida. Logo, sem palavras, estavam se posicionando e desta vez foi Luís que assumiu a dianteira.
Ao tocar o primeiro degrau uma voz ecoou no enorme salão onde se encontravam. Ao notarem uma voz feminina por traz da iluminação sentiram um enorme alívio e grande parte da tensão se desfez como que por encanto.
- Desçam devagar, sem qualquer pressa, passo a passo. Os degraus são firmes, mas tão pequenos e afastados que não permitem o menor erro.
Aliviado também ficou Ferreira ao ver Lúcio estendendo-lhe a mão e num resmungo que lhe era peculiar informar:
- Vamos sair daqui. Afinal posso lhe matar em qualquer lugar! – Lúcio divertiu-se com a própria observação e rindo repetiu – Passo dar cabo de você em qualquer lugar mesmo! – desta vez riu franca e divertidamente como se tivesse contado a mais hilária das piadas.
Ferreira aceitou o apoio de Lúcio e ao ficar de pé foi acometido de grande tonteira. A coronhada havia feito um grande estrago. Recompôs-se a tempo de seguir Lúcio rumo à saída. Respirou fundo e aliviado ao se sentir ao ar livre. O peso da montanha já não estava em suas costas. Logo, porém, ficou sem entender nada.
Lúcio pegou no bolso um par de algemas e entregou a Ferreira.
- Usa isso que eu não confio nem um pouco em você. Vamos para Ponta Negra e você vai dirigindo no banco da frente e saiba sempre que minha arma e eu estaremos no banco de traz. – mais uma vez soltou um riso franco sem que Ferreira entendesse a graça da situação.
- No caminho trate de ir abrindo o jogo. Você tem o trajeto inteiro para salvar sua vida... Ou não – riu mais uma vez sem qualquer outro motivo.
Dirigir algemado, com dor de cabeça, uma leve tonteira e cheio de dores não ia ser fácil, mas era bem melhor do que qualquer outra perspectiva que o momento anunciasse. Ferreirinha tomou acento como motorista e Lúcio sentou-se atrás dele, encostou o frio cano de sua arma em sua cabeça e ordenou que partisse sem correrias e respeitando todas as leis de trânsito para não chamar a atenção de ninguém.
Assim que o carro foi posto em movimento, ainda durante a manobra, veio a ordem:
- Vai cantando logo. Quero saber de tudo.
Estavam descendo para estrada quando ouviram sirenes e logo cruzavam com carros da polícia civil e da federal. Lúcio, que se assustara sem saber por que tanto carro, estava agora agachado no piso traseiro do veículo com o cano da arma encostado ao peito de Ferreirinha que se viu morto. Felizmente os carros seguiram e em grande velocidade.
Nas grutas os rapazes chegaram ao mesmo patamar de sua guia, mas tinham pela frente um grande buraco que ia de parede a parede de pedra e era esse o único caminho. Ou pulavam ou subiam aquela escada louca. O melhor lugar para pular tinha um vão de mais de dois metros e aumentava quanto mais próximo das paredes que tinham fendas como se o buraco subisse por elas.
O pior de tudo é que eles não tinham espaço atrás de si para dar impulso. A mulher recomendou que corressem lateralmente e pulassem. Afonso quis demonstrar toda sua coragem, que andava bastante abalada, e se propôs a ser o primeiro.
Luís encostou-se na parede de pedra abrindo espaço para o companheiro. Ele só tinha três ou quatro passos de distância para o pulo. Correu, pulou e...
Errou o pulo e a ponta de seu pé chegou a tocar na ponta da pedra do outro lado. O desequilíbrio foi total e seu corpo pendia para trás. Vendo que ele ia cair de costas pelo vão, lançando-se no abismo, a mulher tenta, desesperadamente, pegar-lhe as mãos.
Ele, num reflexo também estende a mão para ela e chegam a se tocar, mas o corpo dele já está caindo pelo vão. Ele não vai conseguir escapar do abismo nem com a ajuda da mulher.
Lançando-se da pedra, sem espaço para qualquer impulso, Luís lança-se no ar como um goleiro que tenta agarrar um pênalti. Ele não tentou vencer o vão, ele pulou em arco e no caminho pegou a camisa de Afonso.
Luís só conseguiu colocar parte de seu corpo caído no chão do outro lado do vão ficando com as pernas no ar, sem local de apoio. Afonso, que já estava caindo ficou em situação pior do que Luís. Seus braços alcançaram o outro lado, mas ele escorregava para a morte sem conseguir qualquer ponto de apoio.
Como se fosse um gato a mulher abaixa seu corpo pegando a camisa de Afonso e a calça jeans de Luís e jogando-se para trás. Mas todo esse esforço só retarda a queda iminente, o corpo de Afonso continua escorregando sem ter onde se apoiar.
Só que Luís consegue ficar de pé e pega um dos braços de Afonso. Nesse meio tempo, mesmo caída no chão, a mulher gira e pega o outro braço. A luta agora é intensa. Resgatar Afonso da queda se mostra como tarefa mais árdua do que eles pudessem imaginar. Afonso está desesperado, tenta se erguer, mas seu corpo continua lentamente escorregando para o abismo.
- Fique calmo, Afonso. Não lute. Procure um apoio para seus pés e deixe que nós puxemos você. – estimulou Luís
- Isso mesmo, garoto. Procura com calma um apoio para seus pés. Mas mantenha a calma. O desespero não vai salvá-lo. – veio em seu apoio a mulher.
Afonso não consegue se livrar do desespero, mas, mesmo desesperado, busca um apoio para seus pés.
Como que por milagre o corpo estanca em sua queda. Afonso consegue por um pé numa rachadura da parede de pedra e logo o outro na mesma rachadura. Se isso não traz tranqüilidade ao grupo ameniza o desespero exacerbado.
Agora, mais calmos, eles procuram uma forma de salvar Afonso definitivamente. Rita, a mulher que os encontrou, segura ambos os braços mantendo-os esticado e apoiando-se num minúsculo ressalto do piso com um dos pés. Deitado no chão Luís se aproxima da borda e consegue pegar o cinto de Afonso.
Afonso sente-se agora mais seguro. Suas mãos prendem os braços de Rita e as mãos de Rita prendem seus braços, seus pés estão apoiados numa rachadura. Com o apoio de Luís que lhe segura pelo cinto ele se atreve a buscar um apoio mais acima com seu pé direito, mas era querer muito. Desanimado ele busca no outro lado apoio para o pé esquerdo e só encontra uma pequena fresta afastada demais.
Eles combinam entre si. Afonso irá ao máximo para a esquerda de forma a manter o pé direito na rachadura. Assim vai se aproximar da fenda e conseguir apoiar melhor o pé esquerdo. Assim que ele apóia o pé Rita conta até três e todos fazem um último esforço conseguindo trazer o corpo de Afonso para o patamar ficando agora só as pernas no espaço vazio. Logo, fazendo seu corpo escorregar para o patamar, Afonso está a salvo.
Quando Luís aliviado olha em volta percebe Rita se afastando.
- Moça, moça, não nos deixe, não nos abandone, estou com medo, muito medo.
A sinceridade daquele jovem faz com que ela volte.
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