“A felicidade está no caminho e não na chegada.” ®
Eles estavam exaustos, a salvo, mas exaustos. Rita ainda estava impressionada pela sua facilidade de comunicação após tantos anos de isolamento voluntário. Cedera ao apelo dos jovens e agora era seguida por eles no emaranhado de corredores, túneis e passagens daquele verdadeiro labirinto.
Ela parou de frente para uma escada antiga de madeira.
- Aqui sobe apenas um de cada vez. A escada pode não suportar tanto peso.
Luís foi o primeiro a subir e se deparou com a plena escuridão ao seu redor. Subiu e parou na borda iluminada. Logo Afonso juntou-se a ele e também parou na borda. Rita riu ao encontrar a subida quase obstruída. Assim que seu capacete passou pelo buraco no teto os rapazes perceberam que estavam em um grande e plano salão cheio de pilastras de pedras.
Nenhum deles sabia que ali, no passado, havia grande concentração de ouro e pedras preciosas e semipreciosas. Da pedra bruta restaram apenas as pilastras a curta distância uma da outra. O teto irregular ia de dois a três metros de altura. O piso era quase regular.
Se não fosse noite eles poderiam perceber que havia três cavidades no teto que levavam luz solar e ar puro para aquela área e deveriam estar a mais de dez metros de altura.
Rita contornou a parede próxima ao buraco por onde subiram e os rapazes se espantaram, estavam “na casa” de Rita e ali tinha de tudo.
Quando ela acedeu dois lampiões eles puderam reparar uma poltrona sem braços que ficava a uns 60 cm do chão, feita totalmente de papelão, com o encosto e assento de espuma. Uma mesa de pedra com o tampo quase liso com muita madeira e capim seco ao seu lado. Logo eles descobririam que ali era a cozinha. A mesa, na realidade, era um misto de lareira e fogão.
Nas cavidades das paredes de pedra Rita guardava algumas panelas. Noutro lado alguns panos dobrados. Numa curva da parede estava um antigo barril de madeira cheio de líquido até a borda que transbordava.
Querem água? Eles queriam, mas não imaginaram que ali houvesse água. Agora que se aproximavam do barril viam um fluxo constante abastecendo o barril e a poça formada sob ele escoava por um caminho de pedra até um buraco. Eles podiam ouvir o barulho da água caindo muito abaixo de onde estavam.
Rita estava, talvez pela adrenalina que minutos atrás se espalhara por seu corpo, muito receptiva e explicava que ela encontrara ali um verdadeiro abrigo. Tinha água pura inesgotável. Uma fonte que ela acreditava ser de água filtrada das chuvas. Este, como outros pequenos cursos de água abasteciam as lagoas das grutas de Spar.
Ela estendeu, para cada um, um copo de vidro cheio daquela água. Ela estava bem gelada e deliciosa. Eles beberam e repetiram acompanhados por ela. Só então começam a conversar.
- Desculpe moça, mas nem sabemos seu nome. Não queríamos dar tanto trabalho assim, mas estamos perdidos. - Falou Luís e, ainda agitado com os acontecimentos, prosseguiu: - Eu fui subindo numa pedra na entrada da gruta e me vi num corredor que de repente acabou sob meus pés.
- Eu sei, disse Rita, o escorregador. Quando não tem ninguém nas grutas eu brinco ali.
- Brinca! Mas é tão escuro.
- Eu sempre uso o capacete, tenho lanternas e lampiões nos lugares que freqüento.
- Mas se cada vez que se for lá tiver que descer aquela escada e pular aquele precipício...
Rita, pela primeira vez em muitos anos deixou o riso lhe contagiar. Ainda rindo explicou:
- Se você virar a esquerda na descida tem outro escorregador, virando à direita você sai quase no lago e então é só dar a volta e ir novamente para a entrada. E não esqueça que aqui eu tenho todo tempo do mundo.
- Mas... Você mora aqui mesmo?
- Vou confiar em vocês, afinal vocês já me viram mesmo. Só peço que não contem a ninguém sobre a minha existência, eles iam achar que sou louca e iriam querer me tirar de minha casa.
- Eu sabia; você mora aqui.
- Vim morar aqui depois que fiquei órfã. Eu já perdi um pouco a noção de tempo, mas deve ter uns três anos no mínimo.
- Você é órfã. – perguntou Luís – E veio morar nesta escuridão sozinha? Eu acho que você é louca mesmo. – disse rindo.
- Não é bem assim. Eu praticamente já morava aqui. Minha mãe namorou um gringo e vinham aqui quase todo dia. Logo estávamos conhecendo bem as grutas. Era comum ficarmos nas grutas e dormir nelas.
- Do outro lado o cheiro é muito ruim e não dá para ficar. Não sei por que, mas deste lado a gruta tem muito pouco morcego e praticamente não fede. Acho que é porque do outro lado tem muita árvore frutífera.
- O único acesso para este salão é aquela escada e ela nunca está ali. Só estava hoje porque ouvi os gritos de desespero vocês e fui resolvi acudir. Como essa parede envolve quase toda a entrada eu posso deixar a luz acesa e os morcegos não gostam de claridade. Isso sem falar do próprio sol que entra aqui por três túneis naturais no teto.
- Quando o namorado dela foi preso minha mãe ficou com medo de voltar para nossa casa e ser presa também. Passamos a morar aqui. Um dia ela saiu para fazer compras e não voltou. Senti muito medo. Pela primeira vez dormi aqui sozinha.
- No dia seguinte fui à cidade e soube que uma mulher tinha sido assassinada num assalto. Aos poucos, apurando mais e mais detalhes da notícia, tive certeza que era minha mãe.
- Como você soube que era ela? – agora foi Afonso que pela primeira vez falou.
- Os homens que a mataram eram estrangeiros e queriam roubar dela um mapa, só podia ser os capangas do namorado dela. Eles estiveram hoje aqui, eu os vi e me escondi. Eles são muito perigosos.
- Mas por que eles acharam que ela teria um mapa e que valor um mapa pode ter?
- É uma longa história. O namorado da minha mãe chegou ao Brasil com muito, muito dinheiro. Diziam que ele era ladrão, mas minha mãe nunca acreditou até que ele mesmo contou pouco antes de ser preso.
- Ele guardou o dinheiro aqui nas grutas. Aos poucos ele foi vendendo esse dinheiro pela metade do seu valor para um tal de Errobert, ele falava muito mal o português. Logo o Errobert queria pagar só um terço do valor e o Hans começou a procurar outra pessoa para trocar seu dinheiro. No dia que ele ia vender o restante todo pela metade do valor é que ele foi preso, em casa, pela polícia federal, mas ninguém encontrou o dinheiro, eu não sei onde ele escondeu.
- Minha mãe foi escondida muitas vezes até a casa, vasculhou tudo e não encontrou nada. Ela pediu a um primo para tomar conta do imóvel e alugá-lo. Com a morte dela ele herdou o imóvel, eu preferi não o deixar saber onde eu estou.
- Dona...
- Rita, meu nome é Rita, Afonso.
- Ué! Como você sabe meu nome?
- Você é Afonso e ele é Luís. Pelo menos é com esses nomes que um vem chamando o outro.
Os três riram da inocência deles.
Rita pegou a folhagem seca e pôs sob a “mesa”, em seguida arrumou algumas madeiras. Os garotos perceberam as cinzas sob a “mesa”, e ela acendeu o fogo que logo aqueceu e iluminou o ambiente.
Eles ficaram ali conversando e agora eram eles que falavam de si e num dado momento Afonso se deu conta que não estavam mais perdidos. Rita conhecia as grutas e seus caminhos. Todo pessoal devia estar muito preocupado e eles ali conversando como velhos amigos.
- Rita, você pode nos levar até onde está nosso grupo?
- Claro que posso. Pensei que vocês estavam aqui curtindo a aventura.
- Estamos, mas eles não. Eles devem estar desesperados com o nosso sumiço.
- Vocês querem ir ao encontro deles?
- Queremos. – respondeu Luís.
- Só não comentem a minha presença. Por favor. De qualquer forma eu hoje à noite tenho mesmo que sair. Vamos até eles.
No carro Ferreirinha, depois de passar pela polícia viu-se mais aliviado. Logo chegaram à estrada. Lúcio o mandou parar. Ferreira chegou a se preocupar, mas Lúcio soltou do carro, deu a volta, sentou na frente ao seu lado, colocou o cinto de segurança, soltou as algemas e disse:
- Vamos para Ponta Negra pela Avenida Central e nada de gracinhas.
Ferreirinha logo entendeu. Apesar de o caminho ser bem mais longo e lento pelo estado da pista é também mais discreto e com menos risco de esbarrar com a polícia.
No caminho, sem alternativas, Ferreirinha foi detalhando tudo que já contara. Só uma coisa não fez, dar a localização da casa e nem detalhou muito bem sobre o mapa falando apenas que o mapa parecia um desenho infantil.
Chegaram à casa de Rosa, irmã de Lúcio, e Ferreirinha foi apresentado como um amigo que devia a ele uma grana e que ia ficar aquela noite na casa dela de castigo para aprender a não enganar os amigos. Rosa fingiu acreditar, ela amava, mas também temia o irmão por sua violência gratuita.
Ferreira viu-se sentado um sofá e com a mão algemada na grade interna da janela não teria qualquer conforto, mas era muito melhor do que aquela gruta, isso era.
Lúcio, com a delicadeza que lhe era peculiar, praticamente mandou a irmã cuidar dos ferimentos de Ferreirinha. Disse que voltaria na madrugada e que ela não se preocupasse.
Ele já estava no carro quando Rosa o alcançou. Ela pediu as chaves da algema. Irritado ele quis saber por que e ela disse que não queria ter seu sofá mijado nem manchado de medicamentos e sangue. Ele concordou, mas preveniu que se ela deixasse o homem escapar sofreria as conseqüências.
Lúcio partiu e nunca mais voltou. Mataram-no em pleno centro da cidade, bem em frente à igreja. O assassino fora um motoqueiro e estava sozinho.
Rosa estava no banho quando a polícia chegou. Sirene ligada. Apavorada com a sirene e as batidas na porta ela enrolou-se na toalha, soltou Ferreirinha da janela, escondeu as algemas e atendeu a porta.
- A senhora é a irmã de Lúcio dos Santos, vulgo Feroz? – perguntou o policial entrando na casa e olhando tudo ao redor.
- Sou a irmã dele sim. Por que, ele fez outra besteira? – perguntou Rosa preocupada.
- Não senhora. Desta vez fizeram uma besteira com ele.
Rosa não entendeu no primeiro momento e perguntou diretamente:
- O que aconteceu com ele?
- Foi morto no centro da cidade e a senhora e seu marido vão ter que ir lá para reconhecer o corpo.
Ela ia dizer que Ferreirinha não era seu marido, mas olhou para ele e percebeu ele balançar discreta e negativamente a cabeça. Entendeu. Acatou.
- Vou me arrumar rapidamente.
- O que aconteceu na sua cabeça? – perguntou diretamente a Ferreirinha o policial já mudando de atitude e empostando a voz.
- Bebi demais na noite passada e cai na porta do bar. Para meu azar a cabeça foi direto no meio fio. O médico lá da emergência disse que eu dei sorte. Veja só! Sorte.
- Ainda quando cheguei em casa quase que apanhei da Rosinha. Ela é ciumenta que dói e como gosta de bater em mim. Não agüenta uma tapa. Mas eu não bato em mulher e fico só me defendendo. O senhor é casado e sabe como é.
- Mas, chefe, passado o primeiro instante, - continuou como uma matraca Ferreirinha - quando ela me viu machucado e sujo de sangue, ai sim eu acreditei que dei sorte. Foi só carinho. – e falando baixinho para Rosa não ouvir: - Por isso que ela já fez de tudo e eu não troquei a roupa. Cada vez que ela olha para mim vem pro meu lado, cheia de dengo. Tá me mimando e muito.
- Parece que o senhor nem ligou para a morte de seu cunhado.
Ferreirinha cortou de pronto e, ainda baixinho: - Não liguei mesmo! Ele era o cão em pessoa. Sabe, ele batia na irmã. Eu me sentia impotente. Ele nunca bateu na minha frente, mas quando eu chegava em casa e via ela machucada era uma briga para eu não ir tomar satisfação.
- Rosa sempre me lembrava que ele vivia armado. Ele estava armado, não estava?
- Isso não lhe interessa. O senhor e sua esposa vão ter que prestar depoimento na delegacia. – aumentando a voz - Vamos logo dona. Eu não tenho a noite toda.
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