terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 09 - O alarme foi dado ®


“A coragem nada mais é do que enxergar o medo sem as suas fantasias e enfrentá-lo.” ®

Enquanto Lúcio levava Ferreirinha para a casa de sua irmã as viaturas policiais chegavam à grande entrada das Grutas de Spar.
As sirenes alertaram Paulo que acompanhado por Bia saíram da gruta abandonando momentaneamente as buscas para verificar quem chegava e que notícias traziam.
Na trilha, estacionados, estavam um carro da polícia civil seguido por outro da polícia federal. Dois homens estavam próximos as viaturas e outros três acompanhados de uma menina já estavam praticamente na entrada e foram de encontro ao casal. Paulo reconheceu de imediato Roberto que se dirigiu diretamente para ele.
- Como vai parceiro. Estes são João e Alfredo. A menina, acho que você até já conhece, é a Marisa.
- Tudo bem João? E ai Alfredo? Paulo as suas ordens. E você Marisa, já faz tempo, não?
Marisa, talvez por ser mais baixa, pendurou-se no pescoço de Paulo ensaiando um abraço que viria depois dos dois beijinhos, um em cada face e não correspondido. Paulo afastou o corpo da menina de seu corpo e para desconforto e embaraço dela foi logo apresentando aos seus colegas de profissão a esposa Bia.
- Já soubemos do desaparecimento dos rapazes – disse Roberto rindo da situação constrangedora que se desenhava - mas o que nos traz aqui é fato mais ainda mais grave.
- Não sabia que você estava no interior. Como vão as coisas por aqui? – retrucou Paulo mantendo o foco de sua atenção exclusivamente em Roberto e ainda assim percebendo o rubor nas faces de Marisa.
- Soubemos da presença de um grupo de três homens estrangeiros sem acompanhantes femininas em Maricá, fato raríssimo, e procedemos. Conclusão: são do bando do Hans, aquele alemão que praticou um grande roubo e, todos acreditam, trouxe o resultado da operação para o Brasil. Ele foi preso aqui em Maricá e depois de alguns anos foi deportado. Mas o dinheiro do assalto nunca foi encontrado.
- Roberto, você tem algum documento ou foto deles. Acho que estiveram aqui hoje. – retrucou Paulo.
Alfredo pegou na sua bolsa uma pasta e passou a folhear seu conteúdo acompanhado pelo olhar atento de Paulo. Quando começaram as fotos Paulo estendeu a mão para o policial que lhe entregou todo o volume.
Cada folha trazia uma foto no canto superior esquerdo, à direita os dados de cadastro da pessoa e abaixo todo um histórico pessoal e policial de cada um. O formulário era da Interpol e tinha muitos detalhes. Assim Paulo foi reconhecendo e passando a conhecer um pouco de cada um deles: Franz Becker, Jügem Bayer e Lotar Walter, o brasileiro do grupo que possuía dupla nacionalidade, apenas isso já o preocupou.
Em seguida tinha um grupo de páginas amarelas que ele sabia ser de dados confidenciais da polícia federal. Ali tinham dados de detentos brasileiros que tiveram contato direto ou indireto com Hans. Entre eles estava o Lúcio que estivera pela manhã com o grupo naquela mesma gruta.
A página seguinte fez Paulo ficar piscando seguidas vezes, um hábito que denunciava grande preocupação. Ali estava uma foto do Luís, que estava desaparecido no interior das grutas. Ao ler as informações se deu conta que não era a foto de Luís e sim de seu pai, conhecido como Ferreirinha. Agora se lembrava de tudo. Ele prendera há alguns anos o Ferreirinha, pela semelhança ele provavelmente era um parente bem próximo de Luís, talvez até mesmo o pai dele.
Ele guardou esta informação e sua grande preocupação apenas para si. Bia percebera a momentânea reação do marido, mas ali não era hora nem lugar para falar do assunto. Voltou a reparar em Marisa daquela forma que só mulher desconfiada sabe fazer.
Marisa aparentava ter dezoitos anos apesar de Bia poder jurar que ela tinha bem mais que isso, sua saia rodada e quadriculada era tão curta que realçava escandalosamente suas grossas coxas até a altura dos joelhos. Logo abaixo um par de meias três quartos brancas desciam-lhe pelas pernas acabando num tênis de grife.
Da cintura para cima Marisa também esbanjava sensualidade. A fina malha branca sobre o corpo sem sutiã desenhava todo o contorno de seus seios fartos e rijos forçando o tecido a tal ponto que permitia perceber a auréola escura dos seios contrastando com a brancura de uma pele quase transparente e cabelos ruivos quase aloirados. O frio do inicio da noite intumescia os bicos das mamas e eles se pronunciavam apontando para cima.
As atitudes irrequietas da menina davam aos fartos seios um balouçar que atraia a atenção dos policiais ao seu redor apesar da presença de Bia. O único que se manteve distante, quieto e quando olhava para a menina mantinha seu olhar exclusivamente em seu rosto, foi Paulo, para a sorte dele.
A menina, depois de enrubescer e se mostrar desconcertada manteve-se calada e exposta ao atento exame de Bia que, é claro, não passava despercebido. Só depois de Paulo examinar todo o conteúdo da pasta ela se pronunciou:
- Como você pode ver Paulo, o grupo é perigoso. Nossas investigações indicam que eles já possuem alguns contatos aqui em Maricá. Vou ter que me misturar a um grupo insuspeito para vigiar a casa que o Hans morava quando foi preso. Você reconhece a casa da fotografia?
- Casa? Que casa? – retrucou Paulo ainda com a pasta na mão e voltando a folheá-la.
Logo encontrou a foto que estava logo no início da pasta, nas folhas que Alfredo passara buscando as fotos dos estrangeiros. Rompendo com tudo que os colegas podiam esperar dele ele estende para Bia a pasta aberta na folha que mostrava a casa branca, numa curva da praia, em Maricá, com uma amendoeira nova no quintal bem em frente a uma antiga amendoeira já na areia da praia.
Logo os colegas assustados compreenderam seu gesto.
- Eu aluguei esta casa e estou passando as férias ali com a família.
Antes de qualquer outro pronunciamento Marisa se antecipou: - Ótimo, vou ser sua hospede. – depois de breve instante de um silêncio sepulcral completou – se a sua esposa concordar, é claro.
Agora Bia já sabia que Marisa era uma agente federal, colega de trabalho de seu marido. Ela confiava plenamente em Paulo e, para alívio de todos, aquiesceu com um simpático sorriso.
Paulo, todavia, fez questão de registrar. Só que você, nesta investigação, não vai ser nada minha. Será apenas uma amiguinha de minha filha, compreendeu?
Todos riram e a situação desanuviou-se de vez.
João, que até o momento ficara calado, pronunciou-se já se despedindo em nome do grupo:
- Lamentamos não poder ajudar nas buscas aos rapazes, mas ainda hoje estaremos recebendo um agente da Interpol e temos que passar todo o caso para ele. Só a Marisa foi dispensada para, desde já, ir se juntando ao grupo jovem e iniciar suas investigações.
Paulo, Bia e Marisa cumprimentaram aos agentes e enquanto eles desciam até a viatura o grupo já sumia na escuridão da “boca” da gruta.
Paulo, já no interior da gruta, interrompeu seus passos fazendo com que as duas também parassem.
- Como vamos introduzir a Marisa, Bia?
Depois de um breve silencia Bia responde:
- Converse com André, que é muito mais reservado do que a Andréia e peça a ajuda dele. Ela pode ser uma colega de escola, uma vizinha...
- Excelente idéia! Esperem-me aqui mesmo. – Paulo falou e saiu descendo em direção ao local onde sabia estariam todos procedendo às buscas.
Pouco depois André estava retornando ao grupo com Paulo. A aventura de participar de uma investigação oficial mexera com ele e Bia podia perceber sua indisfarçável alegria.
Marisa se manteve calada enquanto a família decidia como introduzi-la. A conversa se alongava e parecia não ter fim. Subitamente ela se aproxima de André, pega o braço dele e põe sobre seus ombros e sua mão passa em redor da cintura do rapaz. Ela então decreta:
- Já sei. Eu sou a namorada dele e vim de surpresa conhecer a família. Você tem namorada André?
André, BV como seus colegas da escola o chamavam durante as encarnações, louco para deixar de ser “Boca Virgem”, se abraçou àquela oportunidade com unhas e dentes.
- Excelente! Não podia ser melhor! Isso mesmo, somos namorados! Claro que eu nunca tive namorada...
Falou demais e calou-se diante da confissão indesejável e sua atitude deu tal relevo à sua última assertiva que todos sorriram e concordaram que isso podia dar certo. Na verdade Paulo não gostou nem um pouco da idéia. Bia, embora dando força, também não gostara. Mas André estava regozijando e eles assentiram para não decepcionar o rapaz. Paulo resolveu que mais tarde imporia algumas regras.
- Bem, vocês ficam combinando algumas coisas: onde se conheceram, onde ela estuda, há quanto tempo namoram, como ela veio parar aqui nas grutas... E depois se juntem ao grupo de buscas.
Os pais se afastaram ainda rindo das reações de André. Certamente aquele dia seria inesquecível para ele. Estava inserido numa investigação, ganhara uma “namorada” linda e tantas outras coisas deviam estar passando por aquela cabecinha que ele parecia não caber dentro de seu corpo.
Marisa, por sua vez, pensava consigo mesmo: “Desta vez vou me vingar do Paulo. Sempre me esnobou, me evitou e agora me entrega o filhinho dele. Esse pirralho vai é ficar apaixonado por mim!”
Enquanto conversavam Marisa se manteve abraçada ao menino, aos poucos foi rodando seu corpo e conversava bem pertinho dele, quase colada. Em sua perna a presença do jovem se anunciava. Ele já não conseguia articular perfeitamente suas frases perdendo-se em meio a elas. Os olhares iam dos olhos para os lábios. Marisa já acariciava a mexa de cabelo que caia sobre o rosto do embevecido André.
Ela foi aos poucos mudando de assunto:
- Você sabe beijar gostoso. Espero que saiba por que vamos ter que nos beijar quando os outros estiverem junto de nós. – André não podia responder a esta pergunta sem contar a ela que nunca beijara, ficou calado.
- Deve beijar muito bem. Você é muito bonito e atraente. As meninas não devem lhe resistir. – Ele sorriu querendo muito que isso fosse verdade.
- Você deve ser um homem delicioso, pelo menos pelo que posso sentir. – Ela falou e colando-se ainda mais ao corpo de André que ficou palpitando ainda mais e mais forte.
- Sabe, estou louquinha para ser beijada. – Ela falou, afastou apenas o colo colando ainda mais o resto do corpo nele que desajeitado já acariciava suas costas. Ato contínuo puxou sua cabeça para baixo aproximando-a de seus lábios.
Ela, como golpe de misericórdia, falou sussurrando e soprando no ouvido dele: - Me abraça forte, quero sentir seus carinhos... – ela buscou a palavra mais propícia para aquele momento – você está deliciosamente me enlouquecendo.
Ela continuava sussurrando e soprando no ouvido dele, que já estava totalmente arrepiado, enquanto ela seguia insinuando-se.
Enquanto ele, desajeitado, tentava corresponder aos estímulos recebidos ela veio descendo com beijinhos desde a orelha, pela face, até ao redor dos lábios dele que ela beijava e lambia o contorno.
Quando finalmente ele lhe aperta e puxa para si a cabeça dela dando seu primeiro passo por iniciativa própria ela toma seu lábio inferior, mordisca e logo em seguida beija-lhe a boca com maestria até chegar à sofreguidão.
André não resiste. Ela percebe seu embaraço e beija-lhe realizada. Enquanto ele recebe carícias inusitadas e tem sua boca beijada das mais diversas formas, sente a língua daquela deliciosa mulher brigando com a sua e novamente é tomado por intenso desejo. Ela toma a mão que ele usa para acariciar seu rosto e passa a beijá-la. Logo cada um de seus dedos está sendo sugado e ele experimenta novas sensações. Eles voltam a beijar-se e ela passa a digladiar com a língua dele num furioso e ardente beijo.
Enquanto estes fatos se desenrolavam Rita seguia à frente dos rapazes pelos labirintos de corredores, subidas e descidas. Afonso agora percebia que Rita deveria ter pouco mais idade que eles. Era forte. Estava vestida com malhas largas e novas. Apesar da malha e ela própria estarem sujas ele percebia que ela era asseada, cabelos lisos e negros, tipo de índia, bem tratados, pele hidratada, mas muito bronzeada. Deu-se conta que ela possuía um bom vocabulário e se expressava muito bem. Lembrou que entre outras coisas viu revistas e livros na “casa” de Rita. Para mulher ela era bem alta, beirando 1,70m, pouco menos. Dentes brancos e perfeitos. Apesar das largas malhas ele podia adivinhar-lhe um corpo bem feito e ela tinha uma beleza exótica, talvez pelos grandes e expressivos olhos negros.
Rita podia morar nas grutas, mas não vivia exclusivamente nelas. Seus cabelos eram cortados, sua roupa era nova como seu tênis. Era uma figura bastante interessante e muito atraente e inteligente. Além de tudo isso ela era especial. Salvara-lhe a vida!
Foi neste instante que Rita interrompeu seus pensamentos informando aos dois que eles iam descer por um buraco no teto o máximo que pudessem e depois deixar o corpo cair nas águas do grande lago mantendo as mãos erguidas para não molhar a lanterna. Eles estariam bem próximos das margens do grande lago e não precisavam temer nenhum monstro, pois ali só havia peixes deliciosos.
Recomendou que tão logo caíssem na água chamassem o grupo informando que estavam no lago para terem a exata noção de para onde deviam ir.
- E você – perguntou Afonso que já estava envolvido com aquela mulher sentindo por ela um grande carinho e muita gratidão – não vem conosco?
- Lembre-se – retrucou sério Rita – eu não existo. Não contem a ninguém da minha presença aqui. Quando um de vocês quiser me ver, volte e na grande entrada grite bem alto seu próprio nome e esperem o canto de um pássaro assim (assoviou imitando com perfeição um canário). Sem deixar ninguém perceber e com a lanterna amarrada desçam pelo escorregador que eu estarei lá para recebê-lo.
Um sentido de urgência tomou conta dos dois jovens. Temerosos, primeiro Luís e depois Afonso que abraçou e beijou carinhosamente as faces de Rita em inesperada despedida, lançaram-se pela fenda no piso e deixaram, confiando totalmente nela, o corpo cair para o lago que ficava poucos centímetros abaixo deles.
Passaram a chamar pelo grupo informando que estavam no lago e logo uma claridade crescente foi surgindo e eles passaram a nadar naquela direção.
Foi uma grande euforia que envolveu até os bombeiros encarregados de promover e orientar as buscas.
Eles tinham muito a contar. Todos estavam curiosos. Mas a noite ia longe e eles estavam a pé e ainda tinham uma longa caminhada até suas casas.
Enquanto eles, entre abraços e alegres, discutiam como ir embora dali, Rosa saia trêmula de sua casa, acompanhada de seu “marido” Ferreirinha que ela duvidava poder realmente confiar, e entrava no banco de trás da viatura policial que viera lhe buscar para identificar o corpo do irmão assassinado.
Aos poucos Rosa foi se dando conta de dois fatos distintos:
Um que lhe deixava deprimida demais. Perdera seu irmão, seu arrimo, seu apoio e de certa forma seu sustento;
Outro que lhe trazia a tranqüilidade de nunca mais ser assustada no meio da noite com a chegada do irmão embriagado, ou de seus amigos abusados e violentos, ou de seus desafetos. Nunca mais apanharia calada e submissa. Nunca mais assistiria as orgias promovidas pelo irmão em sua casa. Nunca mais receberia a notícia que Lúcio fora preso.
Durante todo trajeto seu choro foi manso e contido, quase imperceptível, mas ao se deparar com o corpo do irmão estendido no chão frio da praça, sobre uma poça de sangue, ajoelhou-se, olhou para a cruz na torre da igreja já sem fôlego, respiração suspensa e num suspiro que engolia seu grito de agonia desabou num dolorido pranto. As lembranças da infância alegre ao lado do irmão se sucediam e rasgavam em chagas seu peito machucando-a com uma dor que parecia física.
O silêncio foi contagiante. Todos se calaram em respeito àquela sofrida dor.
Ferreirinha? Este sumiu entre os muitos curiosos, desaparecendo totalmente. Quem quisesse encontrá-lo teria que ir para sua casa e esperar por longo tempo. Ele seguiu lentamente, a pé, e mantendo-se bem longe das principais ruas e estradas.

 

0 comentários: