“É mais fácil andar no meio-fio do que no largo beiral de um alto prédio.” ®
O grupo estava saindo da gruta, alvoroçado com o sucesso das buscas e o reencontro com os amigos. A emoção tomara conta do grupo com tal intensidade que ninguém, na escuridão iluminada por lanternas, notara a presença de Marisa, que com André ficara no final da turma.
Esta, por sua vez, pediu a lanterna de André emprestada e iluminando sua bermuda entre as pernas sugeriu a ele que desse um mergulho no lago antes de saírem. Ao ver-se exposto, com a mancha denunciando o prazer que Marisa lhe proporcionara ficou mais do que acanhado na presença da menina, mas teve que concordar com ela e correu para a água mergulhando para disfarçar a maldita mancha.
Cabisbaixo foi seguindo para fora da gruta sem se juntar a Marisa. Ela queria conquistá-lo e com esse objetivo em mente fez questão de alcançá-lo e se abraçar a ele. Percebendo seu acanhamento dissimulou abaixando a cabeça e levantando os olhos para fitar os olhos dele e confessou:
- Você foi o único homem que conseguiu me desconcertar só me beijando. Não queria, mas vou confessar que eu também cheguei ao orgasmo com suas carícias. Você é maravilhoso, por favor, não me evite, não me abandone, deixe-me seguir ao seu lado.
Na inocência de seus quase quinze anos, André sentiu seu ego massageado, sentiu-se homem, na verdade estava experimentando uma instantânea, maravilhosa e deliciosa excitação. Quando ela se abraçou a ele, mesmo com seu corpo molhado, foi ele, que cheio de coragem, buscou seus lábios, ainda desajeitado, mas transbordando emoção. E, claro, foi correspondido e ela “apaixonou-se”. Como são tolos os homens...
Quando o grupo chegou à “boca” das grutas viram aproximando-se uma grande van. Paulo imediatamente busca a bolsa de Bia imaginando que provavelmente os marginais estrangeiros voltaram. Bia também se mostrou assustada. Quando o farol passou por eles permitindo que recuperassem a visão perceberam que o carro era totalmente diferente e nele só tinha o motorista, mais ninguém.
O motorista saltou da van e chamou por Paulo. Notava-se que ele não sabia quem era. Paulo se anunciou e se aproximou dele com a mão dentro da bolsa de Bia que ia pendurada em seu ombro. Logo tudo se esclareceu. Roberto havia pedido a um amigo para dar apoio ao grupo e ele trouxera sanduíches, café quente, refrigerantes, copos descartáveis, tudo já pago por Roberto.
Aquilo foi dádiva divina. Paulo anotou que tinha que retribuir logo que possível o imenso favor de Roberto e como todos do grupo atacou um dos muitos sanduíches. Enquanto comia ele estimou que devessem ter uns 100 sanduíches, metade de queijo minas e metade com queijo prato e presunto. Iam sobrar muitos.
Os dez minutos que se seguiram fez com que ele descobrisse que a fome do grupo era maior do que ele podia avaliar. Os sanduíches acabaram e alguns ainda buscavam com o canto dos olhos para ver se não tinha algum perdido.
Estava na hora de ir embora e Paulo pediu uma carona ao motorista da van, pelo menos até a estrada. Mas também isso já estava acertado, ele levaria todo o grupo até a casa da praia.
O grupo se despedia alegre dos bombeiros, que foram próximos e incansáveis durante toda busca, e logo estavam todos acomodados na van a caminho de casa.
Ferreirinha, cansado de tanto andar, estava já próximo de casa quando percebeu um movimento suspeito. Parou na esquina encostado ao muro e abaixado passou a observar sua rua. Tinha um grande carro estranho ao local com uma pessoa ao volante. Dali não dava para saber mais que isso.
Decidiu dar a volta no quarteirão e quando chegava à última curva percebeu um homem escondido atrás do muro da casa de esquina espreitando a rua. Atravessou a rua e pode ver, no outro lado da calçada, outro homem. Eram os estrangeiros que o tinham atacado na casa de Hans. Ele não podia ir para casa e tinha que se afastar dali o mais rápido possível.
Voltando por aonde veio viu numa varanda uma bicicleta. Pulou o muro, pegou-a com cuidado e logo estava se afastando em largas pedaladas, a que ponto chegara, agora roubava até bicicleta de vizinhos. Só lhe restava ir para a casa de Rosa, era o local onde provavelmente não seria procurado, a não ser pela polícia. Mas com “os homens” ele já estava acostumado e não tinha risco de morte.
Ele, de repente, se assusta. Um som agudo e alto junto com uma vibração tocou em seu bolso. Era o escandaloso celular, tinha que aprender a mexer naquilo. Olhou o painel iluminado e viu o nome de seu filho. Atendeu preocupado, será que os estrangeiros tinham pegado seu filho.
O grupo chegara a casa e logo Paulo percebeu que ela estava aberta: portas e janelas escancaradas. Mais uma vez mão dentro da bolsa de Bia que colocou no ombro e antes de entrar pediu silêncio a todos. Se ouvissem algum barulho se abaixassem e abaixados seguissem para a praia.
Enquanto ele falava com o grupo percebeu, afastado de todos, Luís fazendo uma ligação do celular. Paulo anotou e com muita cautela se aproximou e entrou na casa, agora já com a arma em punho.
Só depois de ter absoluta certeza de que não havia ninguém na casa nem escondido no quintal ele chamou o grupo e todos se assustaram. A casa tinha sido roubada e estava tudo remexido e espalhado pelo chão. Tinha gotas de sangue na sala e uma pequena poça, já marrom, na cozinha.
Luís, ao perceber, como Paulo, a casa aberta, preocupou-se imediatamente com o pai. Agora uma sensação de culpa, por estar até aquele momento se divertindo, lhe assaltou. Enquanto o grupo se aproximava da casa ele se afastava do grupo, discretamente, em direção à praia.
Assim que atingiu uma distância segura ligou apressado para Ferreirinha torcendo para que estivesse tudo bem. Enquanto o telefone chamava, ele se perguntava se durante o período que esteve afastado do grupo alguém não havia voltado a casa. Sentindo um imenso alívio ao ouvir a voz do pai ele também descartou a hipótese de terem vindo até ali. A surpresa estava estampada em todos.
Ferreirinha fez um breve resumo do que tinha ocorrido com ele até aquele momento, omitindo muitos detalhes para não preocupar o filho desnecessariamente e logo recebeu de volta um resumo semelhante. Tal pai, tal filho. Orientou Luís a não voltar para casa informando a ele da vigilância que o grupo “concorrente” mantinha por lá.
Luís, enquanto falava com seu pai, sentiu o peso do olhar de Paulo sobre ele, assim que desligou o telefone buscou Paulo e vendo todos do lado de fora e, agora, todas as luzes da casa acessas, rapidamente se aproximou do grupo permanecendo próximo ao muro até todos serem chamados.
Nenhum dos grandes aparelhos (televisão, geladeira, aparelho de som, ar-condicionado) fora roubado. Logo os pequenos aparelhos de valor iam surgindo em meio ao caos que estava a casa. Ou não eram ladrões ou saíram apressados deduzia Paulo pela manchas de sangue no chão.
Na cabeça do policial formavam-se as mais diversas hipóteses, algumas imediatamente descartadas por conta de algum detalhe, nem mesmo ele sabia como seu raciocínio nestas horas era tão seletivo. Conclusão: uma ou mais pessoas entrou na casa. Não, era apenas uma, a desarrumação fora metódica em todos os aposentos. Para não levantar suspeita abriu tudo. Foi surpreendida e atacou quem lhe surpreendeu ou foi atacado por ele ou eles.
Algumas gotas de sangue foram pisadas e eram sapatos diferentes... Então alguém entrou, abriu tudo e passou a vasculhar a casa. Foi surpreendido por duas ou mais pessoas, teve luta na cozinha, alguém ficou ferido, ou o invasor ou um dos que lhe surpreendeu e todos foram embora ao mesmo tempo.
Até ai tudo bem. Paulo acreditava que, se os fatos diferentes fossem, o seria muito pouco e não alteraria muito seu raciocínio investigativo. O que agora lhe perturbava era o motivo. O que um e outros poderiam querer na casa. Só mesmo um amador ia achar que o Hans escondera o dinheiro aqui. O que poderiam estar querendo?
Paulo saiu, foi até a varanda e voltou a entrar na casa observando todos os detalhes. Bia e Andréia já começavam a arrumar as coisas espalhadas e ele pediu que parassem e desse um tempinho a ele, ele precisava entender o ocorrido. André veio da cozinha com um quadro quebrado na mão. Na mente de Paulo um alerta surgiu. Pegou o quadro da mão do filho, pediu que ele fizesse companhia a mãe e irmã lá fora e ficou examinando o quadro sem entender o que aquilo podia significar.
Olhou ao redor, percebeu o lugar daquele quadro na sala. Pela diferença na cor da tinta ele estava naquele local há muito tempo. A moldura era artesanal e infantil, feita de palitos de sorvete. O quadro em si era uma folha de papel com desenho nos dois lados riscados e pintados com lápis de cor, parecia ter sido feito por uma criança nos primeiros anos de escola. Aquilo não ia levá-lo a lugar nenhum, jogou o quadro pela janela irritado.
Meia hora depois, diante do olhar raivoso da esposa, desistiu, liberou totalmente “a cena do crime” e disse que ia andar um pouco.
- É sempre assim! – Disse brincando Bia. - Na hora que aparece trabalho você dá sempre um jeitinho para fugir. Vai, vai passear bancário de merda metido a detetive de bosta! – Bia falou e riu da cara que Paulo fez. Mas ela estava certa, não era hora de perder seu disfarce que já estava bastante ameaçado.
Durante este intervalo alguns jovens permaneceram por ali num burburinho agonizante para Paulo que insistia em raciocinar, agora eles estavam se despedindo e Luís parecia um peixe fora d’água. Paulo percebeu, mas ficou calado e foi dar sua caminhada na praia. Voltou logo, deitou na rede e ficou apenas observando Luís fingindo que ajudava sem ter como ajudar. Ele não conhecia a casa e não sabia onde guardar nada.
De repente o jovem foi ao jardim, pegou o quadro e ficou olhando perdido para ele. Quebrando o silêncio ele se aproximou de Paulo:
- Seu Paulo, posso levar esse quadro?
Para que um jovem surfista iria querer um quadro com desenho infantil emoldurado com palitos de sorvetes colados?
- Lamento Luís, mas a casa não é minha nem este quadro quebrado. Estou vendo a hora de ter que recuperar essa moldura de merda para pendurar o quadro novamente na parede, no mesmo preguinho.
- Eu levo pra casa e conserto para o senhor.
- Besteira, isso vai ser uma das minhas distrações, não estou acostumado a ficar sem atividade e, de férias, é bom ter onde se ocupar. Não se preocupe, vai ser a minha diversão. – falou e estendeu a mão para o rapaz que, relutante e indeciso, devolveu o quadro mantendo o olhar preso nele ainda por longo intervalo.
Telma já tinha ido, certamente todos em sua casa estavam preocupados e mais uma vez restavam os gêmeos, que já tinham ido até em casa, Lúcia que já ligara para os pais e Marisa. Os pais de Lúcia foram até a casa ver se estava tudo bem com a desculpa de que estavam passeando ao luar. E restava também Luís.
Paulo agora deduzia que Luís era provavelmente filho de Ferreirinha e aquela ligação que o jovem fez do celular, antes mesmo de saber o que acontecia, deixara Paulo de sobreaviso, mas mesmo sem ambiente Luís insistia em ir ficando e finalmente pediu para dormir, pois estava tarde e ele não tinha condução para sua casa.
As coisas estavam arrumadas com Marisa indo dormir com Andréia, o que não agradara a Paulo e Luís iria dormir com André e Paulo ressabiado impôs nova arrumação. Mulheres em um quarto e homens no outro.
Marisa riu da nova arrumação e forçou para falar a sós com Paulo e imediatamente perguntou:
- Quem é esse carinha intrometido. Você também não achou que ele parecido demais com uma das fotos do arquivo.
- Achei e é bom ficarmos atentos sem deixar que percebam o que somos na realidade.
Ferreirinha, cansado, chegou à casa de Rosa, mas ela não estava lá, ainda não havia chegado e ele ficou afastado o suficiente para não ser visto e próximo o bastante para ver quando Rosa chegasse e se aproximar antes que ela entrasse. Sentou no meio fio. Logo dormiu. Tinha sido um longo dia.
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