terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 12 - A intriga ®


“Quem ama sofre. Quem não sofre não vive.” ®

Andréia foi convocada por Bia a arrumar as compras e ajudar no almoço. Marisa acompanhou e as três foram para a cozinha.
Paulo vendo Bia tão bem assessorada deixou as compras em um canto, beijou a esposa e avisou que ia dar um pulo no escritório local. Puro hábito, todos sabiam para onde estava indo.
Tinha, mesmo de férias, que ir ao “escritório”, como ele chamava a delegacia.
Assim que o carro de Paulo virou a curva seguindo para a estrada um carro se pôs em movimento. Era um carro novo, prata, sem placas, sem nenhum adesivo ou cromado lhe indicando a marca. Parou diante do portão da garagem, mas ninguém desceu.
Enquanto arrumava as compras Marisa tentava descobrir o segredo de Bia para estar tão jovem e tão em forma. Estavam no meio desta conversa e Bia estava confessando estar acima de seu peso simplesmente para agradar a Paulo que, como ele mesmo dizia, “gostava dela com bastante carne nos lugares certos”. E parecia não ser só ele quem gostava disso...
Um carro prata, todo filmado, parou na porta da garagem e lá ficou, como quem aguarda que se abra o portão. Bia tentou fazer as meninas buscarem um abrigo, mas de nada adiantou. Logo, Andréia estava com um facão na porta externa da cozinha; Marisa com sua pistola no corredor e Bia, com prudência e desarmada, foi até a varanda.
Assim que chegou à varanda percebeu a janela do motorista se abrindo e tremeu. O susto se transformou em raiva contida. Dentro do carro Roberto sorria para ela e perguntava se podia entrar. Marisa se antecipa, deixa a arma na estante da sala e, avisando a Bia que ia abrir o portão, corre ao encontro de Roberto.
Roberto estaciona na grama deixando o espaço cimentado entre seu carro e a parede para se o carro da família chegasse, desce do carro sorrindo, isopor na mão, e já pergunta pelo Paulo.
Vai entrando casa à dentro, cumprimenta Andréia, beija o rosto de Marisa, se aproxima de Bia e a convida para ficar na varanda tomando cerveja e conversando até Paulo chegar. Ela ia dar a desculpa do almoço, mas Marisa antecipou-se e disse para ela deixar a comida por conta delas, indo para a cozinha acompanhada de Andréia.
Na varanda Bia aceita a cerveja e se desenvolve uma conversa que começa muito estranha para Bia.
- Me perdoe estar aqui tão cedo – introduziu Roberto uma conversa que parecia ser difícil para ele – é que estou preocupado com Paulo nesta casa. Ainda mais agora com a presença da Marisa. Você sabe que nunca houve nada entre eles, só muito boato.
Bia não estava entendendo, nem gostando do rumo daquela prosa, ainda estava com raiva do susto que Roberto dera em todas e resolveu ser pragmática:
- Diz logo o que você tem a dizer. Não enrola.
- Calma Bia, nós sempre te apreciamos, gostamos do casal, até por isso muita gente ficou contra o Paulo. Era tudo boato, mas eles não sabiam. Eu, em especial, sempre tive em você o modelo de mulher, de esposa e de amante. Você parece ser uma mulher completa, companheira. Não é o tipo de esposa que mereça ser traída.
- Se você está querendo dizer que o Paulo me trai não perca seu tempo. Confio muito no Paulo. Somos felizes e sei que ele jamais faria isso comigo, nem eu com ele. – ela frisou o “nem eu com ele”, aquilo tudo cheirava a cantada barata.
- Como eu disse, Paulo é fiel. O que aconteceu foi muita inveja deles, Paulo e Marisa, estarem trabalhando juntos, fingindo ser amantes. Afinal quantos homens resistiriam fingir namorar o dia inteiro, trocando carícias e beijos e dormindo na mesma cama com uma mulher tão assim... Mais jovem? Só mesmo o Paulo.
Bia tinha confiança plena em Paulo, mas aquela conversa começava a despertar certa desconfiança. Afinal, Paulo nunca dissera que trabalhou com Marisa, nem que fingira ser seu namorado, nem que dormira com ela numa mesma cama.
- Me explica isso direito, Roberto. – os olhos dela já denunciavam uma mistura da raiva que ele sentira antes com um algo mais, um tempero de desconfiança que quebrava a personalidade sempre confiante e distante de Bia.
Roberto ganhava terreno e investia nisso.
- Não, não deixe a tristeza se alojar nesse lindo olhar. Eu garanto que foi só trabalho. Eles tinham, por força do disfarce, que passar muito tempo juntos. Foi pouco mais de quinze dias. Daí tantos boatos.
- Do que você está falando, seja mais claro Roberto.
- Eu vim conversar com você porque senti que a presença da Marisa não lhe agradou. Eu sei que isso tem origem nos boatos de que o Paulo estava perdidamente apaixonado pela garotinha, que esquecendo ser disfarce dançavam horas a fio, mesmo sem a presença de nenhum dos investigados e ainda assim continuavam a trocar beijos escandalosos e apaixonados. Até mesmo carícias íntimas eles faziam em público, disfarçadamente, é claro.
Bia acusou o golpe. Aquele era bem o perfil de Paulo quando namorado apaixonado. Ele a envolvia, dançava horas com ela, beijava-lhe todo o tempo, fazia-lhe carícias íntimas muito discretas, mas que incendiavam seu corpo. Ainda hoje ele age assim quando saem para “namorar”. Ele sempre diz que nestes dias ela fica ainda mais gotosa. Safado!
- Mas, se é só boato, porque você agora teve esta preocupação de vir aqui me contar.
- Eu sei que você já sabia. Eu só vim aqui garantir que eles acabaram tudo.
- Acabaram o quê, Roberto?
- Desculpe, terminaram as investigações e nunca mais se cruzaram até ontem. Que nenhum dos encontros furtivos, que dizem que tiveram, foi constatado, apenas intriga da oposição.
Bia sentiu no ar que teve muito mais coisa e muito mais significativa do que Roberto estava ousando contar. Mas ele não perdia por esperar. Ela ia tirar essa conversa à limpo e a vingança era certa.
Roberto lhe estendia a terceira cerveja daquela conversa junto com um lenço. Só então ela percebeu que, a sua revelia, lágrimas de ódio, de indignação, lhe corria pelo rosto. Ela pegou a cerveja.
Estavam próximos e Roberto, olhando em volta e percebendo a privacidade do momento, enxugou-lhe o rosto e beijou-lhe a testa puxando-a para si. Fragilizada, Bia deixou o pranto vencer, mas conteve seus soluços para não assustar sua filha que estava com aquela infeliz na cozinha.
Na verdade Bia percebera, desde o princípio, que algo acontecera entre os dois. Paulo deve ter pedido a Roberto para “limpar sua barra”, e o idiota acabou, sem perceber, entregando todo o jogo.
Aos poucos ela recuperou sua tranqüilidade, ainda estava trêmula quando se afastou do carinhoso e solidário abraço. Pensou em Roberto como homem. Ele lhe agradava, era forte, pele bronzeada, corpo um pouco mais malhado que o de Paulo, um pouco mais alto. Sua voz era máscula e suave. Mas devia ser um "galinha"... Resolveu testar.
Olhando Roberto nos olhos foi se aproximando como quem se entrega para um beijo e ele a afastou arrematando:
- Te adoro. Você é a mulher dos meus sonhos. Vivo buscando você em outras mulheres. Mas você é a esposa de um amigo. Como eu queria beijar carinhosamente sua boca e lhe confortar, mas, antes, devo respeitar meu amigo e a sua casa. Se você quer uma vingança escolha outro. Eu me apaixonaria por você e sofreria depois, quando você voltasse para ele.
Roberto, que até aquele momento era apenas um amigo de seu marido, passou a ser um homem desejável, respeitoso, mas desejável. Sincero, honesto, fiel aos seus amigos, um verdadeiro homem. Bia estranhou o desejo que nascia dentro dela. Não de amá-lo, mas de tê-lo, de se vingar justamente com ele. Afinal fora traída por uma amiga de trabalho. Nada mais justo do que traí-lo com um.
Mas tinha que ser cautelosa. Será que era só boato? Roberto garantia que sim. Ela já não acreditava. Ia observar.
Roberto, dizendo que voltaria mais tarde quando Paulo estivesse, porque não era certo visitar um amigo sem ele estar em casa, levantou-se e resoluto abriu o portão da garagem e saiu com o carro. Marisa, vendo-o ir embora correu até ele. Ele disse a ela a mesma coisa. Não devia estar ali sem Paulo. Saiu. Marisa fechou o portão.
Nunca tão pouco tempo doera tanto. Roberto, em menos de meia hora, destruíra toda a confiança que Bia, como uma tola, depositava em Paulo.
Ferreirinha se revelava na casa de Rosa. Fora até a praia e conseguira um peixe grande, limpara sozinho todo o peixe deixando a cozinha limpinha ao final. Temperara e agora depositava a forma no forno com um peixe decorado dentro dela.
Logo o cheirinho delicioso do peixe tomava conta da casa e Rosa sentia-se feliz como nunca enquanto preparava a salada. O almoço estava praticamente pronto, dependendo apenas do forno.
O telefone de Ferreira toca. Ele verifica que é Luís chamando e atende prontamente.
- Como você se virou ontem?
- Dormi na casa branca e o quadro está lá.
- Eu sei. Quando achei o quadro os homens chegaram e eu usei ele para derrubar o primeiro que entrou na cozinha onde eu estava escondido.
- E você, pai, como se virou?
- Acabei dormindo na calçada da praia em Ponta Negra. Mas ainda não é seguro ir para casa. Você tem como se virar por ai?
- Aqui não. Seu Paulo está desconfiado de alguma coisa. Vou tentar dormir na casa de um dos meus colegas. Liga-me se houver novidades.
- Por mim pode ficar tranqüilo, eu estou em boas mãos. – Ferreirinha falou sorrindo para Rosa que... Também sorriu, é claro!
Os meninos famintos voltam da praia e, mais uma vez, acampam na casa de Paulo. 
André é recebido por Marisa como um deus. Ela corre até o portão, pula em seu colo e se abraça a ele com braços e pernas e enchendo seu rosto de beijos é levada até a varanda. 
Ela corre até a cozinha e trás, exclusivamente para ele, três rodelas da lingüiça do macarrão que está recebendo molho para ser servido.
Estão todos, menos Andréia e Bia, na varanda brincando e conversando. Paulo chega, deixa o carro na rua e entra sendo recebido por Marisa que corre até ele e, abraçada nele, vem contando da breve visita de Roberto. Na porta da sala Marisa, como uma menininha, dá um pulinho e beija a face de Paulo, voltando aos braços de André.
- O que o Roberto queria, Bia?
- Ué! Você já adivinha ou tem espião aqui em casa?
- Marisa me contou que ele esteve aqui.
- Esteve. Uns dez minutos, como você não chegava ele se foi para voltar “apenas” quando você “estiver presente”. Saiba que ele “respeita" seus amigos? Ele é “FIEL”! – ela falava frisando palavras chaves e passando na voz toda sua indignação.
Paulo suspeitou que algo não estivesse indo bem. Avaliou que não era o melhor momento para discutir o assunto. Para mudar totalmente de assunto perguntou:
- E o almoço, está pronto?
- Embora você não tenha empregada, graças a sua filha e a sua amadinha está tudo pronto. Eu estou com dor de cabeça e vou me deitar. Deixe-me só por enquanto.
Paulo sentava e ela estava se levantando já seguindo para o quarto quando Marisa, ainda “menininha”, pula no colo de Paulo dizendo que está muito feliz com o novo namorado.
Bia bate a porta do quarto, tranca por dentro, deixando de ver que Paulo jogou a “menininha” no chão se levantando sem lhe dar a mínima atenção. Marisa sorriu, levantou e correu para ajudar Andréia na cozinha.
Chegando à cozinha Marisa encheu Andréia de beijos agradecendo a ela a bela macarronada, agarrou-se em suas costas e empurrou-a até a sala pedindo atenção a todos que a Andréia queria dar uma notícia.
Enquanto Andréia avisava que a bóia estava pronta Paulo entrava no carro e saia cantando pneus. Logo um carro prata, discretamente, perseguia seu rumo.

 

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