terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 14 - O confronto ®


“Choramos por muita coisa, mas nada muda o sabor das lágrimas.” ®
Olhando em volta tudo parecia normal. Digo mais, tudo ia muito bem. No centro de Maricá eram muitos grupos de jovens espalhados nos barzinhos que homenageavam a cantora Maysa com muitos shows ao vivo de cantores locais. Na casa de Rosa nem Ferreirinha cogitava em ir embora, nem Rosa pensava em expulsá-lo, há muito ela não tinha um domingo tão divertido e interessante e nem o assassinato do irmão seria forte o suficiente para dissuadi-la desta quase felicidade.
Na rua onde Ferreirinha mora um par de marginais vem render os que estavam de “serviço” vigiando a casa que, é claro, não tinha qualquer movimento. Só que para o serviço noturno vieram em dois carros, cada um com um, trouxeram lanche e iam fazer um piquenique automobilístico com as respectivas namoradas, por isso se atrasaram tanto. Mas bandido tem suas responsabilidades e quando estão de serviço só abandonam o posto após a chegada da rendição. 
Na verdade trabalho de bandido é pior do que o de qualquer profissional. “Patrão de Marginal” é tão rígido que cobra os deslizes com surras homéricas ou com a vida de quem falha. Tem que cumprir com os rituais do grupo senão é expurgado a tiros. E mesmo o pior matador ou o líder do grupo não tem amigos, qualquer deles pode matá-lo por poder ou grana.
Alguns pensam que têm poder sobre as pessoas que se subjugam a força das armas, mas diante do “chefe” ou da polícia tremem e choram como crianças. A grande maioria é tão covarde que precisa da arma para se sentir respeitável.
Bem, a noite parecia maravilhosa, mas na casa branca, na curva da praia, a viatura policial está se retirando. São quase 22hs e os policiais iam completar 12hs de serviço ininterrupto. O grupo ainda esperou por mais de uma hora até estarem certos de que não viria outra viatura para render a que se fora e para que a praia se aquietasse totalmente.
Lothar voltara com mais dois homens e estes traziam, no total, 4 revolveres 38 e um rifle ou carabina, Lothar não sabia classificar direito, calibre .22 com capacidade para 15 tiros. Mas a potência desta arma é muito pequena e se esquecer o dedo no gatilho a munição desaparece e municiá-lo é um processo lento durante um confronto. Para o plano do grupo o rifle estava ótimo, o modelo da Imbel imita um fal e intimida bastante. Como não haveria confronto este rifle já estava além da conta.
O grupo combinou tudo certinho. Como num filme, sincronizaram os relógios, fazendo Zezinho, um dos marginais contratados, perder o controle e acabar numa gargalhada. Era cinco e cada um cobriria uma lateral da casa e pela frente um tomaria conta das janelas enquanto um invadiria a casa pela porta da frente exatamente às 23h45 quando simultaneamente os outros se anunciariam nas janelas e o da lateral direita entraria pela porta da cozinha.
Por uma questão de confiança a janela da frente, a porta principal e a porta da cozinha seriam cobertas pelos estrangeiros restando aos outros dois o apoio pelas janelas. O grupo se espalhou, dois entraram na casa que ficava à direita, Zezinho iria para os fundos e Jürgen Bayer para a porta da cozinha. Pela casa da esquerda foi o Jorjão, também contratado. Franz Becker e Lothar da Silva Walter esperariam até as 23h44 minutos invadindo a casa pela frente.
Estão todos se posicionando e então, quando menos se esperava, Jorjão, aos gritos, pula o muro da casa vizinha acompanhado por 2 dobermanns que também pulam o muro e se põem no encalço dos três marginais.
O grande alarido faz com que Bayer e Zezinho saiam rapidamente da casa da direita. Zezinho vendo a cena não resiste e corre para a praia para poder cair deitado às gargalhadas. Nem Bayer, sempre tão sério, resiste e também senta na areia para rir da grotesca cena.
Quando o grupo mais uma vez se reúne já são quase uma hora da manhã. Decidem abandonar qualquer plano mais elaborado. Zezinho, o mais franzina do grupo, foi dar uma volta de reconhecimento e voltou anunciando tudo como calmo e silencioso. Agora os cinco entrarão pela frente da casa e tomarão de assalto os moradores.
Lothar comunica aos contratados que devem ser dois casais e que eles vão tomar conta dos quatro depois de estarem amarrados e amordaçados. Zezinho já estava abrindo o sorriso quando Bayer o interrompeu:
- Vai rir do que agora?
- Amarrar com que corda? Isso está virando palhaçada. Afinal o que vocês querem? Talvez se vocês dividirem os objetivos eu possa ajudar de fato. Cada vez que recebo uma ordem sempre acho mais absurda do que a anterior.
- Dividir como? O que? – pergunta Bayer que ainda não entende bem o português.
- Queremos simplesmente entrar e dominar os moradores para vasculhar a casa em busca de uma informação. Não sabemos como é nem onde está, por isso vamos precisar de tempo, no mínimo meia hora. – explicou Lothar.
- Vocês são loucos! – disse já exaltado Zezinho – Quanto menos tempo se fica no flagrante menor o risco de sermos pegos, o máximo aceitável de duração de uma ação dessas é de 10 minutos. Para mais que isso tinha que ter um plano bom, bem pensado e executado bem discretamente, talvez rendendo um dos moradores longe daqui e já chegar com ele dominado.
- Não vamos mais perder tempo. Vamos ao ataque. Esse cara tá é com medo. – Jorjão já estava preocupado de perder o serviço e a grana estava curta.
Zezinho, sem apoio do amigo, calou-se, preparou o rifle e o revolver inclusive retirando as travas, e, praticamente ao final da fala de Jorjão, se ouviu:
- Estou pronto e entrando na casa.
O bando correu acompanhando Zezinho. Ele e Franz entraram pelo portão, que rangeu, e os outros três pularam com facilidade o muro baixo. Foram cautelosa e silenciosamente se aproximando da casa e, como se tivessem ensaiado, foram se aproximando um do outro, indo todos, a um só tempo, em direção à porta.
Na casa cada um estava em seu posto. Mas percebendo que o grupo não tinha qualquer estratégia Paulo chamou a todos para a sala deixando Bia no quarto do meio, onde ele sabia que a ação não chegaria, e Marisa com Alfredo permaneceram na cozinha.
Na sala concentraram-se Paulo, Roberto, Jorge e o detetive. Seriam quatro pistolas e duas espingardas calibre 12 no ataque. Quando o grupo de assalto passou do meio do terreno Paulo já estava de volta na sala e acendeu todas as luzes externas.
Do grupo externo, pelo susto ou para intimidar, partiu um e em seguida outro tiro que foi respondido pelos dois primeiros cartuchos da 12. Foi o suficiente para o grupo, tão unido, dispersar-se, cada um para seu lado, atirando a esmo.
Zezinho nem pensou, correu para o muro e pulou de qualquer jeito para se abrigar atrás dele. Não teve sorte. Ouviu-se um grito agudo que até parecia mais uma gaiatice do bandido:
- Aiiii!!!! Minha bunda! Minha bunda não! Aiiiii!!!!!! – Um tiro da espingarda calibre 12 lhe atingira em cheio. Como a munição espalha centenas de esferas de chumbo a bunda de Zezinho ficou furada como se fosse uma peneira.
Jorjão, como o nome sugere, um negão enorme, de quase 2 metros, largo como uma porta, abrigou-se deitado no chão atrás do fino caule da amendoeira. Atirava sem parar e logo as balas dos dois revólveres 38 acabaram e, enquanto ele municiava a arma foi ferido no ombro direito e urrou de dor. Este também estava fora de combate.
Franz correra para a direita e ficou fora do ângulo de visão dos policiais. Cauteloso, sem dar qualquer tiro para não entregar sua posição, foi-se arrastando até o muro. Foi localizado quando, como um gato, abaixado próximo ao portão de garagem, pulou sobre o portão sem qualquer dificuldade. Mas ficou sem área de escape tendo que se esconder atrás do muro, deitado rente ao chão já que alguns projéteis conseguiam atravessar o velho muro.
Bayer e Lothar não recuaram, correram para a direita e para o interior do terreno. Dali, com a visão ofuscada pelo refletor na lateral da casa, tentaram se aproximar da porta da cozinha, dando continuidade ao plano de invadir o imóvel. A imediata resposta com tiros da pistola e com o estrondoso tiro do fuzil os fez correr como leopardos e pular o muro alto dos fundos. Lothar escapara ileso, mas Bayer foi ferido de raspão pelas costas e o tiro do fuzil chegou a alcançar sua costela, quebrando-a.
Nenhum dos dois teve tempo de se recompor, os cachorros do vizinho dos fundos estavam alucinados com os tiros e atacaram imediatamente os dois homens que mordidos fugiram como puderam.
Em meio a esse tiroteio a chegada da polícia foi instantânea. As viaturas estavam de sobreaviso e haviam cercado a área. Zezinho, com a bunda ferida; Jorjão, com o ombro esfacelado e Franz, sem qualquer ferimento, foram presos.
Ninguém sabe dizer como os outros dois conseguiram escapar. Agora a vigilância se concentrava nas clínicas e hospitais da região. Eles estavam, pelo que a polícia sabia, pelo menos mordidos.
Os jovens estavam chegando quando Paulo já seguia, com seus companheiros, para a 82ª Delegacia Policial para registrar, junto à delegada, as ocorrências.
No paraíso estava Ferreirinha. Rosa preparou o sofá para que ele dormisse confortavelmente, vendo televisão.
Enquanto ele se acomodava ela tomou seu banho e passou por ele, com a toalha enrolada pelo corpo, a caminho de seu quarto. Quando já estava chegando ao quarto Ferreirinha gritou de dor, sentando-se no sofá e pondo as mãos na cabeça.
Rosa se assustou, inicialmente, com o grito. Depois a expressão de dor no rosto de Ferreirinha que segurava com as duas mãos a cabeça emprestou a ela um sentido de urgência que ela veio acudi-lo imediatamente, já quase chorando.
Ela se aproximou e ficou atônita. Não sabia o que fazer, como proceder. Abaixou-se para falar com ele. Sentiu seu corpo inteiro se desequilibrar e cair lentamente. Durante a queda seu corpo foi guiado e ela caiu sentada no colo de Ferreirinha que já lhe beijava a boca.
Irritada, Rosa começa a dar tapas em Ferreirinha e a toalha se solta. Buscando cobrir o corpo foi abraçada e mais uma vez beijada. Ela não resiste, corresponde ao beijo que logo se interrompe pelo riso dos dois que assumem a brincadeira e a entrega mútua.
Rosa viu alguns de seus sonhos realizarem-se naquela madrugada: foi conduzida, de colo, por Ferreirinha, até sua cama e, a partir dali, tratada como princesa, foi recebendo e retribuindo aos inúmeros carinhos abraçando-lhe com os braços, com as pernas, com o corpo, com a alma.
Pela primeira vez na vida Rosa vê uma de suas relações terminarem como nas descrições literárias. Uma luz explode em seu cérebro cegando-a para a realidade. A luz se espalha e com ela um choque percorre todo seu corpo concentrando-se no centro dele que se contraí intensamente e sempre mais até que nova explosão parte do seu âmago, de seu ventre e se espalha tranqüilizando todo seu corpo, relaxando seus músculos, liberando sua mente.
Ela não consegue respirar, não consegue pensar, não consegue mover-se, mas sente-se em paz, leve, feliz, realizada.
Aos poucos percebe que está deitada em sua cama, no seu quarto, onde as paredes voltam a ter uma única cor e que ao seu lado está um homem. Sim um homem. Seu primeiro homem que merece ser assim chamado.
Ela sorri para Ferreirinha, deita em seu braço, se aconchega, se acomoda e enquanto ela ainda sonha, ele vai se entregando a um sono merecido e reparador. A claridade celeste anuncia que logo vai amanhecer um novo dia.

 

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