terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 16 - Quem é Marisa? ®


“Palavras são ferramentas ou armas. Prefira sempre construir.” ®

Que havia algo errado todos sabiam. Evitavam comentar em especial quando André ou Andréia estavam por perto. Mas o grupo estava tentando entender tudo que estava acontecendo, sem que ninguém conseguisse chegar à conclusão alguma.
Afonso, aproveitando a ausência dos irmãos e como estava em ambiente bastante amigável, comentou com Marcelo e Lúcia sobre a repentina presença de Marisa.
- O André já tinha contado a vocês que estava namorando? Porque a mim ele não tinha contado nada.
- Não, Afonso. Fiquei tão surpreso quanto você. Até porque nós comentamos tudo com ele. - respondeu Marcelo, para em seguida perguntar num tom que parecia mais estar falando consigo mesmo - Por que será que ele estava guardando segredo?
- O que é isso meninos? Acho que ele apenas quis surpreendê-los mesmo, por isso deixou para contar só quando ela chegasse. Afinal todos nós andávamos de gozação com ele por ser BV (boca virgem) e nunca ter namorado, não é?
- Eu não resistiria tanto tempo sem contar. Já estávamos juntos há dias quando você chegou a Maricá e todo esse tempo sem qualquer comentário. Pelo menos alguma insinuação ele deveria ter feito – insistiu Afonso.
- Então o que aconteceu. A namorada caiu do céu? Vocês estão procurando chifres em... – Lúcia não chegou a completar sua frase sendo cortada por Marcelo.
- Tudo bem! Tudo bem! Ele estava namorando e quis fazer surpresa. Mas não foi muito estranho a Marisa ir encontrar com o grupo lá nas Grutas do Spar, já no fim do dia? Estou falando isso por que se o Afonso e o Luís não tivessem dado uma de aventureiros provavelmente já estaríamos em casa.
- Ora... – retalhou Lúcia – Ela deve ter vindo aqui e como não tinha ninguém, perguntou por ai. O sumiço do Afonso com o Luís é que está mal explicado.
- É verdade Lucinha. – desdenhou Afonso – Mal explicado está o meu sumiço e não a tal Marisa chegar até aqui, encontrar a casa toda aberta, tudo espalhado. - e prosseguiu evitando que o assunto mudasse para seu sumiço - Ela chegou aqui, o vizinho disse onde estávamos "mesmo sem ter sido comunicado". Nenhum dos dois percebeu nada de errado?
- Você tem razão Afonso. – agora era Luís, chegando ao grupo, abraçado com Telma e já entrando na conversa – Digo mais, essa Marisa é muita areia para o caminhãozinho dele. – e completou num pulo exagerado e por conta do beliscão que Telma fingiu dar, com um “Ai!” que fez todos rirem.
Lúcia aproveitou o bem colocado “beliscão” e atacou deixando claro que havia uma ponta de ciúmes naquela conversa.
- Agora sim. Está claro que vocês estão é de olho na namorada do André, principalmente seu Marcelo que vive esticando os olhos para os decotes e mini-saias escandalosas que ela usa.
Marcelo ia contra-argumentar se colocando na defensiva quando Luís foi mais além.
- Qual a idade dessa menina? Ela é tão atirada, tão carinhosa, tão exibida! Vocês já notaram que ela trata os dois irmãos como se ambos fossem seus namorados?
- Você viu? Ela beija toda hora a Andréia? – cortou Lúcia mostrando grande preocupação.
- Calma Lúcia, não é tanto assim. Mas quando ela não está acariciando ou deitada no colo do André pode procurar que ela vai estar acariciando e deitada no colo da Andréia. – comentou Afonso que todos sabiam que gostava de Andréia, era mais um ciumento. E ele continuou empolgado.
- Já fez escova no cabelo de Andréia, já maquiou, já passou hidratante e só troca de roupa com assessoria da cunhadinha. Parece que quer conquistar a família toda!
- Toda? – era Lúcia que já não sabia se defendia ou atacava a Marisa que vinha sendo massacrada sem direito de defesa.
- É! Todos. Ou você ainda não percebeu ela se jogando para o seu Paulo. Ela até pula no colo dele, se pendura em seu pescoço. Dona Bia não está gostando disso não. Acho até que eles estão brigados.
- Brigados? – era André que chegava e interrompia aquela conversa que prometia se prolongar muito – Como assim brigados? – ele perguntou olhando atentamente para Afonso.
- Hoje seu pai saiu para passear na praia e foi logo seguido pela sua namorada – Afonso frisou bem as palavras.
- Seu pai deve estar querendo conhecer melhor a namorada do filho - diz Lucia tentando salvar uma situação que estava ficando desagradável.
- E quando eles voltavam tive a impressão que sua mãe correu para o quarto chorando. - Afonso falou em tom acanhado e logo completou - Desculpe amigo. Eu ia comentar isso só com você.
- Eu notei. – completou seco André.
O silêncio se impôs longo e incomodativo e Telma, curiosa, não se conteve.
- André, você já está namorando a Marisa há muito tempo?
- Não. Esbarramos pela primeira vez somente há algumas semanas e ficamos. Até pensei que não era nada sério, por isso até não comentei. Ai ela chegou de surpresa... – André respondeu ainda seco – Vou entrar que Marisa está me esperando. – cortou e se afastou do grupo.
André estava preocupado. Sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Mesmo preocupado ele ia aproveitar para mostrar a todo mundo que Marisa era mesmo sua namorada. Essa era a parte que ele mais estava gostando. Marisa fingia tão bem que ele vivia extasiado.
No grupo agora se comentava que essa tal de Marisa era é muito oferecida. Queria o pai e os dois irmãos sem saber com quem ficar. Lúcia ainda alfinetou que ela já dera umas olhadas para o Marcelo e ele que se cuidasse, ia sobrar para ele.
Enquanto isso, na casa de Rosa, Ferreirinha ajuda a preparar o ambiente para o velório do Lúcio. Rosa fora ao centro da cidade para providenciar o sepultamento de seu irmão já que o IML liberara o corpo. Enquanto o velório acontecia com uns poucos vizinhos Ferreirinha saiu de cena com a desculpa de ir até sua casa pegar algumas roupas. Evitava assim qualquer encontro indesejável com alguém do grupo de Lúcio ou mesmo com policiais que certamente surgiriam disfarçados.
Em menos de uma hora chegou ao seu bairro, atento e ressabiado. Ele foi pelo outro quarteirão e não viu nenhum dos estrangeiros por perto. Tranqüilizou-se e entrou em casa normalmente.
A equipe contratada por Lothar e seus amigos permanecia atenta e como era da região não chegou a chamar a atenção de Ferreirinha. Assim que ele entrou em casa, ligaram pelo celular e avisaram a quem atendeu que o Ferreira estava em casa e pediram instruções.
- Quantos vocês são? – perguntou o interlocutor.
- Ora, neste horário somos só dois. Na troca de turno é que ficamos os quatro por algum tempo conversando. 
– O que você quer que agente façamos? – perguntou já chateado o olheiro.
- Fiquem próximo ao portão e peguem o homem assim que ele sair; e mantenham-no na casa. – respondeu a voz do outro lado acrescentando num português perfeito – Estamos a caminho, sejam discretos e nos aguardem.
Minutos depois três viaturas da polícia militar paravam em frente à casa de Ferreirinha rendendo os olheiros. É claro que eles não foram discretos. Chegaram pelos dois lados com a sirene ligada e com estardalhaço medonho algemaram e recolheram os dois homens.
Ferreirinha, alertado pelas sirenes, mesmo antes de toda movimentação tentou sair pelos fundos da casa que dava pra outra residência, já na outra rua. Mas percebeu a tempo que outras duas viaturas estavam cercando o local.
Pensou rápido, jogou algumas de suas roupas na casa sem pular para ela, apenas para despistar e correu para o vizinho da direita, pulou o muro e subiu numa mangueira antiga e nesta época com muita folhagem. Lá permaneceu o mais quieto possível assistindo a grande busca que os policiais militares deram na casa e nas imediações. Logo estavam com apoio de uma viatura da polícia civil e para seu espanto uma da polícia federal.
Ele lembrou que quando descia das ruínas da mina havia cruzado com duas viaturas, uma da polícia civil e outra da polícia federal. O que a polícia federal podia estar querendo com ele?
Rosa deu ao irmão o sepultamento possível. Não era o mais barato, mas não tinha qualquer luxo, era apenas digno. Ela seguiu sozinha com o corpo para o cemitério, surpreendeu-se com os inúmeros amigos presentes. Eram poucos, além de alguns repórteres que foram logo embora. Nem aos noticiários o irmão interessava.
As pessoas lhe cumprimentavam e ela não conseguia reconhecer nenhuma. Apenas dois policiais ela reconheceu por ter tido contato nos últimos dias. O que estariam fazendo ali? Certamente estavam de olho nos amigos de Lúcio. Afinal: “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és!”
A única pessoa que Rosa acreditava já ter tido contato nem se aproximou dela para cumprimentá-la. Usava uma camiseta de malha preta que quase deixava de fora os seios que esmagavam. A saia jeans azul era tão curta que mal cabia o zíper. Certamente era uma das “negas” de Lúcio, e bem “vagaba”.
Marisa não se aproximara para não despertar qualquer suspeita em Rosa. Mantivera-se sozinha e também distante de Roberto que fora buscar os companheiros, mas se mantinha, como se parceiro fosse, ao lado de Paulo. Eles verificavam apenas se mais alguém ligado ao Lúcio deveria ser incluído no dossiê da Interpol completado pela própria polícia federal. Sem qualquer sucesso retiraram-se assim que o corpo seguiu para sepultamento.
Rosa estava ansiosa. Ferreirinha não aparecia e logo aconteceria o enterro. Mas não teve jeito: Lúcio foi enterrado sem que Ferreirinha chegasse a tempo.
Roberto, ao sair do cemitério, levou Paulo e Marisa até a porta de casa, mas não entrou. Entregou a Marisa um jornal pedindo que ela entregasse a Bia.
- Ela queria a notícia da morte do Lúcio. Mórbido, não? Só pede a ela para riscar o meu telefone antes de jogar fora. – ele apontou no alto da primeira folha um número de celular escrito à caneta.
Enquanto Marisa entrava Roberto aproveitou para falar a sós com Paulo: - Bia está com muitos ciúmes da Marisa. É melhor você consertar logo isso. Conte a ela toda história.
- Que história, Roberto? Lá vem você novamente...
- Conta da investigação. Já acabou e não existe mais necessidade de qualquer segredo.
- Tá. Tá. Vou pensar no assunto. Um abraço. – Paulo virou de costas dispensando o chato do Roberto.
Ferreirinha se deixou ficar na árvore, mesmo depois que todas as viaturas se foram, até anoitecer. Com o corpo dolorido de ficar tanto tempo num mesmo galho para não chamar qualquer atenção ele desce com dificuldade da árvore. Num grande esforço pula o muro dos fundos para não sair em sua rua e segue com calma e todo o cuidado para que a vizinhança não percebesse nada.
Agora estava a pé, com pouco dinheiro no bolso, apenas algumas roupas e seu talão de cheques.
- Pelo menos isso eu salvei dos policiais - pensou ele.
Decidiu então ir direto para Ponta Negra sem passar pelo Centro para pegar Rosa. Era noite e ela já devia ter desistido dele. Andou muito para pegar um único ônibus e em meia hora estava saltando em Ponta Negra, distante da casa de Rosa. Tinha que ser cuidadoso. Ali poderiam estar a polícia, os estrangeiros e, pelo que tudo indicava, outro grupo também interessado no maldito dinheiro. Só depois de muito perambular e estar certo de que não fora seguido e de que não tem ninguém suspeito por perto da casa, ele se atreve a entrar pelo portão da frente. Chegou a cogitar em pular o muro, mas poderia ser notado deixando vizinhos curiosos e atentos a sua presença.
Na polícia federal, o interrogatório dos homens presos, graças ao celular do falecido Becker, não levou a lugar nenhum. Não havia qualquer novidade a não ser a confirmação de que Ferreirinha estava, de alguma forma, envolvido com os estrangeiros, só que agora já não eram comparsas e sim inimigos.
Restavam sem maiores esclarecimentos ou pistas o dinheiro do roubo internacional, as mortes de Lúcio e de Becker. Ferreirinha estava se tornando figurinha importante.

 

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