terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 17 - A chantagem ®


“Se a crítica é inevitável, critique elogiando, nada é totalmente ruim.” ®

Algo estava diferente. Não apenas por não encontrarem a sua espera a equipe anterior. Existia no ar um burburinho, uma agitação. Eles tinham ido render a equipe que fora presa naquela tarde, mas só tomaram ciência dos fatos, na íntegra, pelo caixa da padaria onde normalmente lanchavam. Sentindo o perigo por perto saíram dali imediatamente e no caminho comunicaram os fatos ao chefe da quadrilha.
Logo depois chegava à delegacia um advogado e libertava os olheiros, afinal, como nem armas portavam, não haviam cometido nenhum crime. Mas a contratação do advogado onerou um pouco mais a operação e Lothar estava cada vez mais preocupado. Haviam, ele e Becker, decidido ficar quietos no hotel até a poeira baixar. Esta nova ocorrência, além dos honorários e outras pequenas despesas, também fizeram com que eles procurassem uma casa para alugar por temporada. Assim estariam mais seguros e os gastos seriam menores.
Na casa de Paulo o clima estava bastante tenso. Bia, trancada em seu quarto, passava aos jovens certo desconforto apesar deles, vendo Paulo agir com toda naturalidade, apenas desconfiarem que o casal estava brigado.
André, por sua vez, depois dos comentários que ouvira e mesmo sabendo que seu namoro com Marisa era apenas uma simulação não conseguia superar um ciúme da relação dela com sua irmã. Ele estava percebendo que Marisa cercava sua irmã cada vez com mais atenção e carinho, esquecendo-se dele freqüentemente para ficar ao lado de Andréia.
Marisa estava insatisfeita por não conseguir atingir a Paulo com os carinhos que dedicava a seus filhos. Para piorar ele fingia não entender quaisquer de suas insinuações, parecendo não saber a forte atração que exercia sobre ela e sua antiga paixão por ele.
Ainda assim era preciso manter todos felizes e Marisa voltou a envolver André em suas carícias. Começou por beijar-lhe a boca sem permitir que ele retribuísse. Aos poucos ela foi estendendo a área de seus beijos sem deixar que ele tocasse nela. André estava ofegante e ansioso sem poder corresponder às carícias que atiçavam toda a sua libido.
Ajoelhando-se, de frente para ele, ela deu o golpe de misericórdia e o jovem menino explodiu de prazer. Aproveitando o relaxamento após intenso prazer, o convenceu que era importante tirar do foco dos amigos a relação com ele e por isso era necessária a presença de Andréia entre eles. Mandou-o tomar um banho, trocar a bermuda para não ficar manchada, comer qualquer coisa e ir para sala para assistir, comportado, um filme com ela.
Telma? Esta estava feliz e satisfeita. Luís era atencioso, carinhoso e lhe cercava de mimos. Desde quando ele se perdera nas grutas não mais a abandonara. Ele deixou claro que não queria tocar naquele assunto mas, em contrapartida, parecia mais apaixonado depois daquele fato.
Luís realmente estava feliz ao lado de Telma. Embora não conseguisse esquecer de Rita. Aquela mulher, cercada de sua aura de mistério, havia exercido sobre ele tal fascínio que ele estava sempre cogitando uma forma de revê-la. Mas estava com um sério problema: Ferreirinha recomendara que Luís evitasse voltar a casa por alguns dias, quando lhe contara sua última aventura. Paulo não vinha mostrando-se hospitaleiro exclusivamente em relação a ele sem que Luís atinasse o porquê. Ele estava agora contando com uma das outras casas, a de Telma, onde por seu namoro seria mais difícil, a de Lúcia, que por ser menina também não seria tão fácil e a mais promissora era a casa dos gêmeos. Ele tinha que aproveitar a afinidade criada com Alfredo nas grutas.
Para aumentar esta afinidade Luís trouxe Alfredo para perto de si e, com a participação de Telma, passou a conversar com ele sobre o assunto preferido de Alfredo: Andréia. Mas ao falar de Andréia o grupo não conseguiu escapar de questionar o comportamento de Marisa em relação à menina.
Agora mesmo, no sofá da sala, onde Andréia sentara-se num canto para ver o filme daquela noite na televisão, Marisa se aproximara enquanto André comia alguma coisa na cozinha, deitara em suas pernas, de costas para a TV, dividira o cabelo de Andréia em duas metades e o trouxera para frente por sobre os ombros. Deitada sobre o braço esquerdo passou então a acariciá-los com a mão direita desde o alto, onde introduzia as pontas dos dedos e ia descendo, como que os desembaraçando, até as pontas, que terminavam logo abaixo dos seios.
Estava patente, na expressão de Andréia, que aquelas carícias lhe eram prazerosas. Ciumento, Alfredo se aproximou bastante e se posicionou melhor sem que nenhuma das duas percebesse, já que Andréia parecia cochilar e a outra estava de costa para ele. André chega e pega Alfredo bisbilhotando e sem dar tempo a qualquer reação volta-se contra o amigo:
- O que você está olhando aí, seu Alfredo? - Alfredo estanca mantendo-se na mesma posição que lhe denunciava - Pode me explicar? - continuou André agora já obtendo a atenção de todos para a cena.
Marcelo e Lúcia estavam namorando na varanda, mas o volume e o timbre daquelas palavras também atraíram o casal. Estavam todos olhando diretamente para a dupla Alfredo e André esperando as conseqüências daquele diálogo e ninguém notou a vermelhidão no rosto de Andréia que se condenava pelo rubor.
- Estava vendo se a Marisa já estava dormindo. Porque a Andréia já cochilava. Eu só acenderia as luzes para poder encarnar nas duas. Só isso! - nem Alfredo sabia de onde tirara tão esfarrapada desculpa, mas interessava a todos acreditar nela e André foi o primeiro a rir, logo acompanhado pelos outros e o ambiente desanuviou-se.
Paulo, que também acabara de comer, passou pelos jovens sem lhes prestar atenção e seguiu diretamente para a praia sentando "à sombra" da amendoeira, mesmo sendo noite. E ali se deixaria ficar por longas horas. Eram nestes momentos que a cabeça do policial tentava organizar fatos, idéias, indícios e informações à luz de sua experiência, para tentar antecipar-se a seus opositores. Bia tentava ocupar parte de seus pensamentos, mas ele preferia sempre expurgar tudo que se referia a ela naquele momento. Só uma coisa estava muito clara para ele, Roberto passara o celular para Bia, mas Bia já o possuía uma vez que ele havia ligado para ela em outra ocasião. Perturbava-lhe o fato de Roberto tentar deixar isso tão evidente para ele. Ele tornava a expurgar aqueles pensamentos e tentava se concentrar mais uma vez no perigo que lhes cercava.
Marisa continuou deitada no colo de Andréia e pôs seus pés no colo de André que sentara na outra ponta da poltrona para, também, assistir o filme. Para surpresa de Alfredo, Luís e Telma, tudo continuou como antes sendo que André foi compensado com carícias proporcionadas pelos pés de Marisa. Os dois irmãos estavam sob o feitiço daquela mulher e já nem ligavam se alguém notava.
Andréia, na realidade, vivia um conflito interior. A simples idéia de estar com outra mulher a repugnava. A sua experiência sexual se limitava aos pouquíssimos filmes pornôs que assistira e embora estes não lhe agradassem – faltava a eles romantismo e enredo – quando muito acabavam por lhe provocar mais uma masturbação, sempre rápida e cercada de culpas.
Agora, lá estava ela, envolvida nos carinhos da amiga e aqueles carinhos lhe “acendiam” e ela, acanhada e sem coragem para desvencilhar-se, havia sucumbido ao prazer que isso lhe proporcionava. Aos poucos foi sentindo o prazer lhe invadir todo o corpo e passara, mesmo sem perceber, a facilitar o envolvimento com esse prazer.
Ela nem tentara interromper aquele ciclo prazeroso apesar de sua consciência lhe acusar de pecadora – como confessaria ao padre o que sentia naquele momento? Foi castigo. Justo quando pensava em sua confissão Alfredo promovera aquela gracinha que lhe fizera desejar ser uma avestruz e esconder a cabeça dentro da terra para não ver nem ser vista por ninguém. Mesmo sabendo que essa história sobre o avestruz é apenas mito foi esta a vontade que teve: esconder a cabeça.
Sua primeira reação foi levantar dali. Os fortes braços de Marisa, o esquerdo lhe abraçando o corpo por baixo e o direito contendo-lhe pelo ombro, mantiveram-na sentada. Ela estava decidida a levantar e fugir daquele carinhoso e delicioso assédio assim que isso não chamasse a atenção de ninguém, mas foi-se, mais uma vez, deixando-se ficar presa no seu próprio prazer.
Marcelo já havia voltado com Lúcia para a varanda e ali trocavam beijos apaixonados que lhes enchiam de um puro e delicioso prazer. Ele tinha o poder de envolver Lúcia em devaneios românticos e estava sempre olhando profundamente em seus olhos ou para seu rosto com expressão de desejo. Seus lábios tocavam de leve a pele do rosto de Lúcia e seguia distribuindo carícias em sua testa, seu nariz e quando ela já esperava colar seus lábios aos dele ele fugia com a boca para seu pescoço, suas orelhas e isso lhe arrepiava toda a pele.
Encantado com os arrepios que arrancava de sua amada ele sucumbia e se permitia ser beijado por ela, mas mantinha a boca fechada, roçando na dela, sugando-lhe os lábios, até que ela conseguisse conquistar sua boca com uma língua ávida por carícias. Só então ele a arrebatava, conseguindo abraçar apenas com seus dois braços todo o corpo de Lúcia que se sentia totalmente envolvida e segura. Colada ao corpo dele ela se sentia dominada por seus beijos. Os corpos grudados permitiam que ela tivesse a certeza de que ele pulsava no prazer proporcionado por ela e nada era mais importante para ela naquele momento do que saber que excitava e satisfazia seu amado.
Ela, então, via seu príncipe encantado surgir no sorriso que ele dava ao afastar seu rosto para olhar profundamente em seus olhos tentando conhecer-lhe a alma. Nesta hora, os seios amassados contra o peito dele, permitiam perceber que os dois agitados corações ainda assim batiam juntos e compassados num mesmo ritmo intenso.
A harmonia dos pequenos grupos foi totalmente quebrada com a saída de Bia de seu quarto. Ela havia tomado banho e estava com uma toalha enrolada sobre seu biquíni azul. Arrastou todos para a praia sem deixar ninguém sossegado em casa. Foi por terra a teoria da briga do casal. Quando encontrou com Paulo sob a amendoeira, ela se abaixou e beijou-lhe a boca para em seguida, jogando para o alto o pano que cobria seu biquíni, correr e se atirar na água que estava bastante morna naquela noite típica de verão.
Logo foi uma correria. As meninas foram colocar seus biquínis e os rapazes se livravam das bermudas que estavam sobre seus calções de banho. Só Marcelo teve que ir colocar seu calção sendo mais uma vez alvo das gozações que em coro repetiam o jargão improvisado por André: "Tá sem cueca! Tá sem cueca! Tá sem cueca!"
Lúcia foi a primeira a seguir Bia até a água. Estava muito acanhada para esperar por Marcelo. Depois que todos, menos Paulo, já estão na água, sai da casa, desfilando com em uma passarela, Marisa com seu fio dental cinza e sem a parte de cima. O topless, acompanhado do fio dental, dava a nítida impressão ao grupo que já estava na água, na penumbra do anoitecer, de estar ela totalmente nua. Os rapazes fizeram a algazarra com aplausos, assovios e gritos de elogio.
Paulo nem se volta para trás para saber o que provocava tal reação dos rapazes, mas Marisa, ao passar por ele, faz questão de dar uma voltinha e depois dela seguir dançando até a água. Ela provocava fazendo seus seios balançarem ainda mais quando de frente e sua bunda rebolar mais intensamente quando de costas para Paulo. Desta vez não foi só Bia que anotou a provocação. Só quem não viu nada demais foi justamente o André que já estava sonhando com o que lhe estava reservado durante aquele banho de mar noturno.
Quem observasse Bia com atenção perceberia que por trás de seus sorrisos e de sua alegria durante aquele banho de mar existia um manto de tristeza profunda. Ela estava deprimida no quarto se permitindo chorar a cada pensamento que, como masoquista, fazia questão de ter. Ela já fantasiara a relação de Paulo com Marisa. Marisa já virara diversas outras mulheres. Ela se sentia traída, não na sua relação conjugal, isso ela talvez até aceitasse, ninguém é perfeito, mas em sua confiança naquele homem com quem trilhara até agora uma história de felicidade.
Nas longas horas que esteve consigo mesmo perguntara-se diversas vezes como não notara nada, sentia-se uma verdadeira idiota. Mas também se sentia suja. Suja ao permitir, por vingança, ser tocada por outro homem. Suja por ter tido prazer com seus beijos. Suja por ter permitido que um amigo de Paulo se transformasse em homem para ela. Suja por ter traído a si mesma deixando-se envolver numa aventura. Ela se igualara a seu marido. Fora promíscua. Já não se sentia no direito de olhar para seu marido com a superioridade e dignidade que devia ter mantido.
Pensou também em seus filhos, nas férias tão esperadas, nas descobertas que aquele verão prometia para eles. A mesma mulher que lhe jogara no fundo de um poço escuro e lamacento estava introduzindo seu filho nos prazeres da vida adolescente. Logo também a filha estaria namorando. Ela ficou feliz que não tivesse sido com Luís, provável filho de um marginal, apesar de educado, respeitoso e encantador.
Procurou Marisa com olhos e encontrou André abraçando-a pelas costas com um olhar safado no rosto enquanto ela, com grande naturalidade, conversava com Andréia a curta distância. Hipócrita. Roberto, também, era outro hipócrita. Hipócrita em sua relação de amizade com Paulo. Hipócrita na forma de contar os segredos do amigo para esposa. Hipócrita em sua relação com ela mesma. E nesta fora também um canalha. O pior que bastava ela lembrar-se dele para se sentir excitada, com vontade de... Melhor nem pensar. Tinha sido assim por toda tarde e mesmo ali, frente a frente com seu marido, a excitação permanece sem que ela consiga entendê-la ou afastá-la. Deve ser efeito da presença de Marisa torturando-a.
Até aquele dia fora fiel por opção, por não ter tido jamais atração por outro homem. Já conhecia Roberto socialmente, já estivera em ambientes onde ele também estava e ele nunca chamara sua atenção em nenhum aspecto. Agora surge ele como este homem desprezível, canalha, hipócrita e a enche de desejos. Loucura.
Paulo entra na água, beija-lhe mecanicamente a boca com um estalinho, nada um pouco e, como sempre gostou de fazer, se põe a boiar como quem vai dormir no mar impressionantemente calmo aquele dia.
Bia chegou a pensar em evitar-lhe o beijo, mas cedeu à praxe. Olhando para Paulo só lembrava-se de Roberto e sem qualquer remorso. Pelo contrário. Paulo boiando em sua frente e ela recordando como as mãos de Roberto espalharam o prazer pelo seu corpo. Como fora arrebatada por aquelas experientes mãos e lábios. Como ela cedeu, seduzida pelos beijos de Roberto que queriam arrancar-lhe a alma e fazer estourar seu descompassado coração.
Mergulha para conter o grito de desespero que lhe brota no fundo da garganta. Afasta-se do marido. Corpo excitado e sua mente, seus pensamentos, seu ego em frangalhos. Ela nada chorando usando a água do mar para esconder-lhe as lágrimas. Está louca, perdida e sem o apoio de seu maior, ou melhor, seu único verdadeiro amigo. Paulo.
Ela para um pouco mais distante do grupo, fica de costa para eles e respira fundo buscando encontrar-se consigo própria, encontrar seu eixo, recuperar sua dignidade. Ela se perde em seus pensamentos e reflexões que lhe condenam e não percebe a aproximação de Paulo que lhe abraça por trás dizendo-lhe ao ouvido.
- Te amo tanto! Você é meu refúgio e meu abrigo. Estou com saudades de você.
O pranto se apresenta forte e inevitável. Soluçando ela se desvencilha das mãos do marido e corre para casa. Entra no quarto, bate a porta, vai trancá-la... Desiste no último instante. Eles precisam conversar. Ela deita e fica aguardando seu marido.
O celular toca. Ela atende mesmo percebendo que é Roberto. Está decidida a acabar com tudo aquilo. Ele quer saber por que ela não ligou. Ela desdenha, esnoba aquele homem que lhe excita até por telefone. Ele diz que quer um encontro com ela no dia seguinte. Que vai fazê-la explodir de prazer. Ela informa com convicção que está tudo já acabado, mesmo antes de começar. Ele diz que se ela não for ele vai buscá-la em casa e que se Paulo estiver em casa e tentar impedir ele vai contar, com detalhes, tudo que aconteceu entre os dois. Inclusive provando tudo o que disser com fotos.
É uma Bia apática, impassível e insensível que desliga o celular. Levanta-se. Tranca a porta do quarto. Letárgica, com olhar perdido no teto e mente vazia, Bia deixa-se ficar deitada até que Paulo bate à porta.

 

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