“A escola ensina, mas não educa. A evolução só vem da soma dos dois.” ®
Paulo, nos tormentosos momentos de reflexão, passara a limpo tudo que sabia levantando diversas posições e hipóteses. Acreditava que já antecipara todos os próximos passos dos marginais estrangeiros. Recebe, por telefone, a notícia da futura chegada de Hans ao Brasil, pelo menos era isso que a Interpol acreditava estar por acontecer. O novo fato jogou por terra todo seu raciocínio e ele agora retomava tudo, que já sabia e concluíra, reavaliando todo o quadro.
Hans nem sempre fora marginal. Todo policial sabe que o homem é honesto apenas até deixar de sê-lo. Hans era a prova disso. Profissional dedicado trabalhara numa grande empresa de segurança. Casado e sem filhos tinha na esposa a grande incentivadora de seu sucesso profissional.
Com incentivo da esposa dedicara-se totalmente a empresa, fizera os mais diversos cursos e as promoções aconteciam dando-lhe, em poucos anos, um cargo de grande destaque. Era o Gerente de Logística Financeira.
A empresa funcionava em diversos países da Europa e vira sua atuação facilitada com a criação do euro. Além dos serviços de segurança para empresas e bancos vinha, nos últimos anos, desenvolvendo como principal produto o transporte de valores. A eficiência, com a participação de Hans chegara a tal ponto que os bancos que utilizavam seus serviços tinham reduzido significativamente seus custos com transferência e seguro de numerários.
A estratégia montada pela diretoria de transporte, onde Hans era o principal e fundamental assessor, mantinha cada unidade bancária com estoque mínimo estatisticamente calculado por Hans e ao final de cada dia eram eletronicamente calculados recebimentos e distribuição de numerários para que no dia seguinte as agências tivessem recuperados seus limites da moeda do país ou de euros em espécie.
O desafio da equipe era, agora, conseguir reduzir o volume de dinheiro transportado às sextas-feiras já que as agências, para reduzir os custos de seguros, reduziam ao máximo seus estoques de dinheiro nos fins de semana. Assim a empresa de transporte tinha que assimilar este custo de seguro e guarda de numerário. Tal prática ainda prejudicava os serviços nas manhãs de segunda-feira quando toda a estrutura instalada funcionava em capacidade máxima para reabastecer os bancos.
Dias antes do grande roubo a reunião na empresa prometia se estender até a madrugada e Hans até preveniu a esposa que iria chegar bem mais tarde. Foi surpreendido pelo diretor de transportes com sua imediata demissão e pagamento do que lhe cabia logo no início da reunião.
Acontece que naquela semana haviam conseguido descobrir um desvio de grande volume de notas de pequeno valor, impossíveis de serem rastreadas. Mesmo antes de se apurar onde os desvios aconteciam o diretor decidiu demiti-lo.
Foi um Hans arrasado, cabisbaixo, com orgulho extremamente ferido, que foi para casa buscar algum consolo, se é que isso fosse possível, nos braços da apaixonada esposa. A casa apagada, só seu quarto ainda acesso. Resolve não incomodar. Entra produzindo um mínimo de barulho, mas não resiste e sobe as escadas aos pulos, ansioso para jogar-se nos braços da mulher amada.
Ao abrir a porta do quarto sente-se atropelado por uma locomotiva em alta velocidade. Seu estômago revira-se como se um coice violento sobre ele se abatesse. Seus olhos se turvam e as cenas aparecem durante rápidos flashes. Desnorteado vai voltando ao normal e assimilando a grotesca e impossível cena.
Sua esposa, tão recatada e discreta durante suas relações sexuais, está nua na cama. Olhos arregalados, fixos nele. Outro homem, concentrado em seu próprio prazer, a possui sem perceber a presença de seu marido.
Nauseado, enojado, falecido apesar de ainda vivo, vira-se, dá as costas àquela cena, e a passos curtos vai saindo de seu quarto, cabeça baixa, ainda mais deprimido do que quando entrou. A velocidade de seus passos vai aumentando na proporção em que escuta vozes, burburinho e confusão atrás de si, mas segue silencioso e quieto seu caminho até a entrada onde deixa a porta escancarada e segue a passos largos e já ligeiros para o carro. Mecanicamente entra no carro, dá a partida e segue sem rumo até que o alarme eletrônico lhe avisa que o combustível está se acabando. Parece que só então volta à realidade.
Era o fim de uma quarta-feira. Na quinta-feira Hans descobre pelos jornais detalhes do rombo financeiro. Conhecedor da empresa deduz imediatamente do que se trata o desfalque e pelo volume e forma só poderia ter sido executado pelo seu diretor. O mesmo jornal lhe dá a notícia que um gerente já afastado da empresa está sendo procurado em três países como provável autor do golpe. É a corda estourando do lado mais fraco. Enfurna-se num motel e dorme por todo o dia.
Acorda e já é noite de quinta-feira. Hans já está consciente que fora traído pela mulher que tanto amava. Por sua apaixonada esposa. Está consciente que fora traído pelo diretor que ajudara a promover com o seu saber técnico. Está ciente de que mesmo sem qualquer indício concreto ou qualquer outra prova vai ser preso para acalmar o clamor público promovido pelos jornais em torno do caso. Sua foto já está publicada em todos os jornais.
Seu celular toca pela primeira vez desde a madrugada passada quando a esposa tentou ser atendida por diversas vezes. Desta vez é Lothar José inconformado com as notícias que vê circulando. Ele e alguns poucos amigos sabem que isso tudo é balela e que Hans jamais teria feito isso. Marcam um encontro. Hans, que precisa desabafar e beber suas mágoas, aceita e vai ao encontro dos amigos na casa de Lothar.
Lá estão, além de Lothar, Franz Becker e Jürgen Bayer. Como o grupo só voltaria a trabalhar na sexta-feira à noite todos bebem muito e no auge da bebedeira começam a planejar o que fariam se resolvessem assaltar a empresa, o que roubar, onde roubar e como roubar para terem os melhores resultados. É desta bebedeira, destes planos mirabolantes, que nasce uma visão concreta de possibilidade de realizar-se um roubo volumoso e só detectável na manhã de segunda-feira quando os relatórios das agências fossem consolidados. Bêbados, logo estão dormindo. Mas o assunto volta ainda na manhã de sexta-feira.
Quanto mais brincam com a possibilidade de um roubo na empresa mais a idéia vai se consolidando. Na verdade o que seria praticamente impossível é razoavelmente viável uma vez que os três estavam escalados para a sexta-feira à noite. O grande problema seria sair com o dinheiro do país. Concluíram que tinha que ser de avião. Concluíram que o melhor destino deveria ser o Brasil por ter grandes florestas, índios e onde poderiam facilmente se esconder.
Franz Becker, apaixonado por aviões e pelo mundo aeronáutico, viciado em simuladores de vôo, chegou a comentar sobre um táxi aéreo da OceanAir, um tal de Global 5000, que em outubro tinha feito a viagem de Berlin a Washington em um pouco mais de 8 horas com uma velocidade superior a 900 km/h.
Na brincadeira Lothar ligou para a empresa e aventou a possibilidade de fretar um vôo para o Brasil na madrugada seguinte para 4 homens e suas bagagens. Que cidade? Na hora alguém sugeriu: Rio de Janeiro. Lothar repetiu e repetiu também, assustado, o preço da brincadeira. Uma pequena fortuna. Por acaso, com o que havia recebido por anos e anos de serviços, Hans podia pagar. Deixaram a “ligação cair” (desligaram) rindo muito.
Não se sabe em que momento aquilo foi ficando mais sério e cada passo foi sendo estudado e estabelecido e seria tão simples que não tinha porque não fazê-lo. Estava em jogo milhões de euros. Era dinheiro para sustentar até a quarta geração de todo o grupo. As notícias que tinham davam conta de que milionário no Brasil era rei e jamais seria preso.
O planejamento foi colocado em prática. Franz, com o dinheiro de Hans foi reservar o vôo. Hans escondido no banco de trás do carro seguiu com Jürgen e Lothar para a empresa. Logo Franz juntava-se ao grupo.
Os carros fortes chegavam. Os malotes eram descarregados para um carrinho. Um apontador anotava o número de cada lacre, conferia com a ordem de serviço entregue pelo motorista e liberava a guarda. Lothar ou Jürgen levavam o carrinho para o interior da empresa e no ponto cego da câmera trocavam o malote cheio de dinheiro por um cheio de bolas de jornal preparado por Franz. Enquanto eles colocavam o falso malote no cofre, Franz levava o malote para entrada lateral e jogava o malote para Hans que ia arrumando os volumes nas malas dos dois carros.
O turno terminava às 7hs da manhã. Mas todo sábado, terminado o trabalho, os homens eram liberados e naquele dia não foi diferente. Ainda não eram 5hs e todos estavam dispensados. No cofre um monte de malotes cheio de bolas de jornais.
Seguiram para o aeroporto, mas na “hora H” só Hans, que sempre estava viajando pela empresa, tinha passaporte e só ele embarcou. Os outros seguiriam por vôo de carreira assim que a poeira baixasse.
Hans, já na aeronave, conversou com a tripulação e informando-se melhor sobre o Brasil. Pediu então uma pequena mudança no plano de vôo decidindo-se pelo mais recente aeroporto internacional inaugurado. O de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Ainda era dia quando o táxi aéreo deixou Hans às voltas com suas bagagens e documentos. Tudo foi mais simples do que imaginara. Pediu ao taxista um Hotel barato na região – não podia chamar a atenção. O esperto motorista ofereceu um em Maricá. Ficava distante, mas era excelente e baratinho. Hans, que nada conhecia, aceitou. Mais um turista enganado foi se hospedar em Maricá pagando uma fortuna de táxi. Quando chegou ao hotel já era noite e tudo parecia normal ao turista alemão que só arranhava o inglês.
Em pouco tempo Hans estava “em casa”. Já conhecia toda a região. Comprara uma casinha pequena de frente para a praia que colocara em nome de sua amante brasileira. Seus colegas de “quadrilha” estavam ainda na Europa, escondidos da polícia sem poder entrar em qualquer aeroporto, pois que procurados. O roubo ganhara as primeiras páginas nos jornais europeus e tal fora a repercussão que até alguns jornais brasileiros noticiaram o evento nas páginas internacionais, mas tudo já era passado.
Hans, todavia, logo estava as voltas com a polícia federal. Conseguira escapar por duas vezes, mas na última acabou preso. Acreditava-se que antes de ser preso escondera parte do dinheiro já convertido em real e todos os euros, assinalando em um mapa o local onde estava a fortuna escondida.
Preso no Brasil, logo foi deportado. Agora, por absoluta falta de provas de sua participação no roubo, como provara que o fretamento do táxi aéreo fora pago por ele antes da ocorrência do roubo na empresa e com o dinheiro de sua demissão. E uma vez que sua esposa lhe dera suficiente justificativa para ter saído repentinamente do país, fora absolvido no julgamento e a notícia de seu provável retorno ao Brasil chegara a Paulo pela Interpol.
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