terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 19 - Bia se rende a chantagem ®


“Quando a sociedade não tem um ideal impera o egoísmo.” ®

Arnaldo, o chefe da quadrilha de Maricá, não combinava nem com seu nome, nem com seu apelido, nem com sua profissão. Conhecido como bazuca teve sua fama de matador consolidada quando estava ainda no Rio e estourara, com uma bazuca, um camburão da Polícia Militar. 
Quem olhava aquele garoto de olhos claros que parecia ter menos de 20 anos, magricelo, baixinho, cabelo alourado (de um amarelo quase branco) de tanta oxigenada exposta ao sol da laje dos barracos onde ficava soltando pipa, não podia imaginar quantos já haviam morrido por suas mãos ou as suas ordens. Dele dizia-se que soltar pipas era a sua segunda paixão em alusão a sua fama de matador. Matava rindo e à toa.
O pequeno corpo lhe dava uma excelente velocidade e a vida lhe ensinara a ser astuto. Só por isso, acreditava, ele ainda estava vivo e rico. Quando a polícia fechou o cerco sobre ele conseguiu simular a própria morte e fugiu para Maricá com todo o dinheiro que a quadrilha acumulara na favela de Acari.
Sua quadrilha fora dizimada naquele dia e outro grupo assumiu o comando do local. Quem sobrou vivo, como ele, fugiu dispersando-se!
Escolheu a cidade de Maricá, no início da Região dos Lagos, bem próxima do Rio de Janeiro, onde sabia que seu amigo Alexandre Felipinho, filho de Nandinho Beira Rio, vinha atuando junto a Rosinha, seu antigo contato sexual e marginal. Ali, com capital e apoio, logo se estabeleceu. Aos poucos e com os amigos conquistou a favela Saco da Lama, no bairro Amizade, logo já comandava o Saco das Flores. Rosinha foi presa, logo depois Felipinho também foi. Sem os amigos e concorrentes, Arnaldo, o Bazuca, passou a comandar também a Cocadinha, Pedreiras, Risca Faca e Vale da Penha, ficando absoluto na região.
Quando os estrangeiros chegaram a Maricá foi seu braço direito, Lúcio, que os levou até ele. A história era estranha, muito dinheiro roubado no exterior e escondido em Maricá. Um mapa indicando onde estava escondido... Essas coisas. O melhor é que os caras queriam armas, documentos e apoio. Assim ficaram tão próximos que foi mais fácil vigiá-los. Bazuca nunca pretendeu deixar os estrangeiros saírem do Brasil com todo aquele dinheiro. Para ele os estrangeiros já estavam mortos. Só não sabiam.
Logo Bazuca ficava preocupado com a participação da Polícia Federal no caso. Com ela não se brinca nem dá para matar policial federal sem esperar ação contundente contra o grupo de autoria desta loucura. Mas quando soube que os agentes Roberto e Marisa estavam no enterro de Lúcio, por incrível que pareça, tranqüilizou. Ele dizia saber que todo o foco dos policiais estaria concentrado exclusivamente nos estrangeiros.
Só uma coisa vinha escapando de seu controle. A presença e participação desse tal de Ferreirinha que ele não conseguia localizar. Quem seria esse cara? Bandido? Policial disfarçado? O que ele estaria querendo no meio desta história? Será que foi ele e sua equipe que apoiara os moradores durante a tentativa de invasão da casa branca, naquela louca investida? Seria ele o Motoqueiro Negro?
Motoqueiro Negro já se tornara um justiceiro temido pelos bandidos. Vestido totalmente de preto, com capacete preto e usando uma potente moto preta surgia ocasionalmente pela cidade. Até onde ele sabia pelo menos três marginais foram mortos por esse motoqueiro misterioso. Os três não tinham nada em comum que se soubesse. Um era ex-detento e seu braço direito: o Lúcio. O outro era um informante da polícia federal e, ao mesmo tempo, um tipo faz tudo, que agia como testa de ferro coagindo e corrompendo cidadãos que estavam, por qualquer motivo, sendo investigados. Ainda tinha o Paulo, ligado ao Hans, que morreu tão logo o alemão foi preso.
Agora, com a notícia da futura vinda de Hans ao Brasil, ele via complicar-se ainda mais aquele emaranhado de interesses policiais e marginais girando em torno do que chamavam de fortuna estrangeira.
Como ele lamentava não poder andar pelas ruas como qualquer pessoa. Estava condenado a viver recluso em seu reino, seus domínios. Mesmo para se deslocar de uma para outra favela era necessário um grande aparato com carros e motoqueiros para evitar ser presa fácil das polícias civil ou militar. Embora extremamente rico ele também se via coagido e obrigado a enviar vultosas somas mensalmente para os que se auto-intitulavam autoridades.
Mas você deve estar se perguntando por que venho falando tanto de Arnaldo Bazuca? É simples. Esta noite um de seus capangas lhe falou a respeito de Luís afirmando ser ele o filho de Ferreirinha. Como Ferreira era um de seus alvos no meio daquela tosca história, seu filho seria um excelente troféu e eficiente moeda de troca.
Outra pessoa também vem ocupando parte das conversas com BBB (Big Brother do Bazuca que ocupou o lugar deixado pela morte de Lúcio). Bia. Desde que a viu o segundo na quadrilha vem sonhando com aquela mulher em seus braços tendo que satisfazer seus caprichos na marra.
Por falar em Bia... Naquela noite, sem qualquer resistência, ela destrancou a porta assim que Paulo bateu querendo entrar. O marido fingiu não estar percebendo nada, tomou um banho, deitou e fingiu dormir. Mas como dormir ouvindo sua eterna namorada chorando baixinho?
Paulo estava numa sinuca. A presença do filho de Ferreirinha entre os jovens que freqüentam a casa recomendava a manutenção de Marisa entre eles. Conviver com a agente feminina da polícia federal estava afetando toda sua família, mas ela era também mais uma arma na casa que ele sabia estar sob risco. Com André ele não se preocupava tanto. Naquela idade paixões vêm e vão como se fossem ondas do mar. Agora, estava impossível suportar ver abalada sua Bia, companheira, parceira e esposa. Ele não poderia intervir, não sem antes Bia dar um sinal, qualquer que fosse, que estava pronta para ouvir e acreditar. Falar antes do momento oportuno iria soar como justificativa ao injustificável. Ao que tudo indicava, ela estava envenenada contra ele e o protagonista desta revolta era seu colega Roberto.
Roberto? Por que estaria ele tentando desestabilizar sua estrutura familiar? Era no que Paulo estava pensando quando num fio de voz Bia resolve informá-lo:
- Paulo. Amanhã vou sair pela manhã e não tenho hora para voltar. Estou precisando ficar um pouco comigo mesma.
- Sem problemas. - retruca Paulo - Como somos “um”: estarei calado ao seu lado para caso você precise ouvir respostas às suas perguntas.
Paulo forçou um riso ao falar com Bia de forma que sua voz demonstrasse certa alegria.
- A sua companhia é a última coisa que eu quero. Preciso estar só!
Dali em diante, mesmo tendo Paulo questionado sobre seu pranto, sobre o que acontecera, e até mesmo insistindo; tudo que se ouvia de Bia eram os soluços que ela por mais que tentasse não conseguia disfarçar.
O sono não vinha para Bia. Sua mente estava sobre diversos focos de ataque simultâneos. Seus pensamentos se sobrepunham uns sobre os outros.
Por que Paulo conseguira enganá-la por tanto tempo?
Por que estava temendo tanto encontrar com Roberto?
Como não notara que Paulo tivera uma ou mais amantes?
Por que Roberto estava, agora, excitando-a?
Como Paulo permitia que sua amante ficasse sob o mesmo teto que ela e ainda fingindo namorar seu filho?
Como iria ceder a uma ameaça tão tola e vulgar?
Por que Paulo insistira em dormir com ela se já não a ama?
Será que Roberto realmente cumpriria alguma de suas ameaças?
Exausta e ainda chorando baixinho, Bia nem percebeu quando o sono venceu seu corpo. Paulo? Este não conseguiu conciliar o sono. Só depois de Bia levantar em torno das 08h00, tomar banho, se arrumar e sair sem lhe dirigir qualquer palavra é que ele se forçou a dormir. Dormiu para não pensar. Ele também esteve se torturando e misturando pensamentos por toda noite. Chegou a pensar em segui-la, mas isso romperia os elos de confiança que deviam permanecer intactos se ele quisesse realmente preservar sua relação.
Bia seguiu para a estrada. Não sabia como proceder. O louco do Roberto não marcara local ou hora para encontrá-la. Será que ele apareceria em sua casa e falaria realmente com Paulo. Melhor não pagar para ver. Enquanto seguia pela rua lateral para a estrada principal resolver ligar para Roberto.
Roberto acordou sobressaltado com o toque do telefone, olhou a tela e atendeu sorrindo. Confiante ordenou em poucas palavras que Bia fosse para o centro da cidade. Ele a pegaria em frente à agência do Banco do Brasil em menos de meia hora.
Roberto pulou da cama, deixou para tomar banho no Motel Fazendinha, isso já estava decidido para ele. Iria passar o dia com Bia num dos quartos do Motel Fazendinha. Lá teria muito tempo para bons banhos...

 

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