terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 20 - Na névoa da paixão ®


“Quem nada vê quando se depara com a miséria ainda é um ser humano?” ®

A paixão não tem lógica nem agenda. A de Luís foi lenta como semente, lançando raízes profundas na alma e desabrochando em encantos como sonhos. Em pouco tempo, sem que ele percebesse, a falta de Rita transformara-se em agonia que só estancaria com ela conquistada e sorrindo entre beijos e abraços.
Naquela manhã, movido por esta paixão, acordara cedo, fora até sua casa, entrou com cuidado, aguardou por algum tempo próximo à janela dos fundos por onde poderia escapar rapidamente. Só depois que se sentiu seguro e tranqüilo foi que escolheu algumas roupas e pôs na mochila. Separou a melhor bermuda e sua mais nova camiseta e tomou um demorado banho, barbeou-se, vestiu-se, aprovou a figura que o espelho devolvia e, tão cuidadoso como entrara, aguardou a rua ficar sem qualquer movimento e saiu.
O caminho até as Grutas de Spar era longo e ele preferiu pegar um ônibus e saltar já na subida. Ainda caminhou por longo tempo sempre embalado por aquela inexplicável paixão.
Conforme a proximidade com a grande entrada acontecia ia crescendo uma dolorida insegurança. Lembrou-se que ele estar apaixonado não significava que Rita se interessaria por ele. Na verdade não percebeu na menina qualquer sinal que lhe permitisse crer que ele ao menos lhe atraia. Como deveria proceder.
O coração agora, diante da grande entrada da gruta, se acelerava a cada passo e isso não ajudava a vencer a insegurança, pelo contrário. A boca estava seca, faltavam palavras para traduzir o que sentia. Mas ele tinha que ir em frente, isso era mais forte que ele. Quem visse a decisão com que ele adentrou a gruta, lanterna já na mão e subindo pela pedra que ocultava uma fenda não imaginaria o quanto a ansiedade e a insegurança o dominavam.
Fez tudo conforme fora combinado. Rita não apareceu. Ele foi-se apagando e entristecido lembrou que não tinha como voltar por aonde viera. Era uma pedra muito lisa e escorregadia e ele jamais conseguiria subir por ela. Agora também o desespero começava a tomar conta dele. Lembrava da última vez que ali estivera, Afonso quase despencando na fenda e ele sem pensar dando um pulo suicida para salvá-lo. Fosse um pouco diferente o resultado e os dois teriam...
Como se saísse de dentro da pedra uma forte luz o alcançou provocando um imenso susto que logo se transformou numa estonteante alegria ao reconhecer, por trás da luz, Rita - a mulher amada!
Ficou mudo, imóvel, surpreso e surpreendido, mas a felicidade se estampava não apenas em seu rosto. Seu corpo inteiro parecia vibrar na freqüência daquela súbita alegria.
Rita, também alegre por revê-lo e contagiada por tanta alegria o abraça forte enquanto exprime sua saudade. Nenhum dos dois sabe por quanto tempo ali ficaram presos naquele abraço.
Enquanto isso, no centro da cidade, Bia ingressava no carro de Roberto. Assim que fechou a porta do carro filmado sentiu Roberto puxá-la para si desejando beijar-lhe a boca. Escapou.
Ajeitou-se na poltrona, prendeu o cinto de segurança e permaneceu calada. Os pensamentos que já lhe agitavam a alma desde a noite anterior tomavam, na presença daquele homem, novos relevos e dimensões. Seu coração batia forte e descompassado, ela sentia um leve tremor por todo o corpo, pensamentos anuviados e entorpecidos não deixavam de acusá-la, condená-la por estar ali. Ela precisava recuperar o autocontrole, reagir.
- Por que você quer acabar com meu casamento? - a voz saíra trêmula, ela precisava se controlar se não acabaria chorando.
- Eu? Acabar com seu casamento? Quem lhe pôs na cabeça essa idéia ridícula?
- Suas ameaças. Ou você se esquece que me forçou a estar aqui se não entregaria fotos comprometedoras ao Paulo? Fotos que nem sei se existem nem quais são.
- Nem se preocupe com isso. Eu quero apenas você. Sei que nosso relacionamento ainda nem existe e não poderia exigir que você abandonasse toda sua vida para viver intensamente comigo uma história de amor.
Ela olhava para ele incrédula e continuou calada o que deu a Roberto fôlego para se abrir ainda mais.
- Você é uma antiga paixão que fiz de tudo para abandonar, esquecer, repudiar. Afinal você nem me via, não me olhava, não me notava. Você sempre só teve olhos para o Paulo. Por isso as atitudes dele com Marisa e com tantas outras me repugnavam. Mas era a sua felicidade que estava em jogo e eu não poderia ser o agente de seus sofrimentos contando-lhe o canalha que seu marido era.
- Mas foi você quem contou. - arrematou Bia.
- Não, não contei. Confirmei suas dúvidas. Dúvidas que eu jamais vira em seu olhar, na sua alma. Era uma paixão cega, uma entrega total. Eu só fiz certas revelações porque você, de certa forma, já as conhecia. Isso foi mais forte que eu. Vi surgir na minha frente um caminho de acesso ao seu coração. Uma chance de viver minha paixão. E, por vezes, ainda me questiono se agi bem e até me arrependo de meus passos. Mas logo em seguida vibro com a possibilidade de ver retribuído, pelo menos em parte, este meu amor.
- De que amor você está falando. Do amor que ameaça e força a pessoa amada a ceder aos seus caprichos?
- Bia... Eu sei que dentro do seu coraçãozinho está havendo uma revolução entre uma história de longos anos, embora boa parte seja falsa, e o que o futuro lhe propõe. Não estou pedindo que abandone sua casa, seus filhos, nem mesmo seu marido. Por agora peço que se permita me conhecer. Se permita envolver-se comigo. Permita-me amá-la e conquistar seu amor. E usarei todas as armas que eu tiver disponível para isso.
- E as fotos? Que fotos são estas?
- Estão ai no porta-luvas, num envelope branco.
Ela abre o porta-luvas, levanta a arma de Roberto e libera o envelope. Dentro dele umas cinco fotos apenas. A seqüência é bastante comprometedora e sugere que as fotos que faltam ainda podem ser mais reveladoras.
Bia, enquanto avalia cada foto, uma delas até fora de foco, percebe que não sofreram qualquer retoque digital, fato que Paulo certamente repararia. Recorda-se de cada instante daquele dia e estanca alarmada.
- Quem tirou estas fotos Roberto? - sem dar tempo para ele responder ela complementa: - Certamente não foi você já que você está ao meu lado nas fotos. Nem é uma câmera automática já que as fotos estão em diversos ângulos. Você não sabia para onde eu ia e eu não lhe deixei só um instante que fosse. Havia uma terceira pessoa? Quem?
Bia estava desconcertada. Havia praticado certos atos com Roberto que foram presenciados por terceiros... Ela, enquanto ele não responde, num curtíssimo lapso de tempo pensa mil coisas diferentes até que percebe outro envelope no porta-luvas. Pega o outro envelope e tira dele quase uma dezena de fotos.
Roberto tenta, mas não consegue impedir. Esta dirigindo na estrada e não pode se distrair. Enquanto ela olha as fotos, ele explica sem convencer.
- Estamos sob risco constante e um colega resolveu me seguir para me dar proteção. Ficou afastado quando fui a sua casa e só soube que você estava no carro quando chegamos à praia. Curioso ele pegou sua câmera pensando que talvez tivesse que usar o zoom da máquina para nos acompanhar à distância e manteria assim a proteção que julgava necessária.
Enquanto ele falava Bia observava os closes em partes de seus corpos em fotos perfeitas onde os mínimos detalhes podiam ser percebidos. Mesmo a foto menos comprometedora, que focaram apenas seus olhos, transmitiam o intenso desejo que havia tomado conta dela naqueles momentos. Recordar o episódio só piorava a coisa para Bia que a cada instante se via mais excitada. Ela estava espantada consigo mesma. A existência de alguém observando suas intimidades com Roberto ainda mais a excitavam.
- Porém pode ficar tranqüila. - completou Roberto - Ele é muito discreto e apesar de apaixonado pelas fotos não ficou com nenhuma nem com a matriz digital. Se você visse o encantamento dele com cada uma destas fotos você se sentiria diante de um artista apaixonado por sua obra. A cada vez que ele reviu as fotos teve uma emoção perceptível.
- Deixe de ser vulgar. Precisava fazer esse comentário?
Num ato desesperado, com os dois envelopes de fotos na mão esquerda ela pega com a direita a arma de Roberto e manda-o parar o carro. Ele ri sem levá-la em consideração. Mostra a ela que estão entre o nada e lugar nenhum, que tudo está muito deserto. Ele está confiante. Não vai parar o carro. Bia olha para frente e para trás, certifica-se que não tem ninguém muito próximo e puxa o gatilho quase ensurdecendo com o estampido dentro do carro.
O carro se desgoverna e quando a direção é restabelecida ele para bruscamente. Roberto está indignado. Ainda olha incrédulo o vidro de sua janela quebrado pela bala. Volta-se para Bia. Parecia que ia revidar a ousadia com uma bofetada. Mas ela fora mais rápida e já estava saltando do carro com a arma sempre apontada para ele. Ela ainda pensou em jogar a arma dentro do carro quando ele arrancasse. Sua dúvida foi suficiente para o carro se afastar sem ela esboçar qualquer reação.
Ela estava agora em prantos, abaixada e abraçada aos seus joelhos. Pareceria um embrulho a quem a visse de longe. Só depois de alguns minutos é que se recompôs, guardou as fotos e a arma na bolsa e começou a caminhar de volta.
Pensava em seu marido, seus filhos, sua família, sua história de amor que sempre achou ser perfeita. Em meio a esses pensamentos vinha a atração temperada de vingança que Roberto exercia sobre ela. Estava experimentando novas e inexplicáveis sensações. Ela sabia não haver amor naquela relação. Era puramente sexual, mas com tal apelo, com tal sabor que vinha se tornando irresistível.
Aquele canalha, por ser canalha, cafajeste, a ponto de chantageá-la, talvez por isso ainda mais lhe atraísse. Ela temia ir até o fim com ele, embora quisesse muito. Ele não tinha escrúpulos e ficar à mercê dele poderia ser muito perigoso.
Seu marido era sexualmente maravilhoso, sempre soubera satisfazê-la, era carinhoso, terno, próximo, preocupado com seu prazer, com a sua satisfação. Enquanto Roberto, ela sabia, não respeitaria qualquer limite nem se preocuparia com ela e seus sentimentos.
Poucos metros adiante, para diante dela um carro prata com o vidro do motorista estilhaçado e, sorrindo para ela, o motorista oferece uma carona.

 

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