“Sempre almejamos a paz até que o trânsito nos atinge.” ®
Cego de amor: quem acredita na expressão? Assim Luís em seu amor por Rita. Senão perceberia o grupo de rapazes que viera seqüestrá-lo. Abraço interrompido! Cabeças atingidas. Luís e Rita “apagados”.
Arnaldo Bazuca precisava saber mais e há muito planejara seqüestrar o filho de Ferreirinha que se mantinha indefinido para ele no meio de toda aquela história.
A insistente tocaia na casa abandonada pela família deu resultado. O vigia comunicou por celular a entrada e saída de Luís. Dando uma volta para não ser notado arriscou-se a pegar o mesmo ônibus. Saltara um ponto depois e ali uma van com seis homens o resgatara e seguiram para a entrada principal das Grutas de Spar chegando a tempo de ver Luís sendo engolido por suas entranhas.
Talvez Luís, crendo que mais ninguém conhecia aquelas grutas, tenha relaxado. O certo é que entre os homens que vieram seqüestrá-lo havia quem, como Rita, conhecesse muito bem os labirintos das grutas. Assim fizeram um cerco simples e antes do casal trocar qualquer palavra caíram sobre eles dominando-os e, com pancadas na cabeça, os fizeram desmaiar.
Luís já era um peso excessivo para ser transportado naqueles escuros corredores. Aquela mulher não tinha nenhum significado para eles e era tão frágil que eles nem se deram ao trabalho de amarrá-la ou amordaçá-la. Eles sabiam que ela denunciaria o seqüestro e isso facilitaria o aparecimento do escorregadio Ferreirinha.
Jogaram Luís na van e só então amarraram, vendaram os olhos e amordaçaram o seu corpo inerte. Nem verificaram, sabiam que ainda estava vivo. O sangramento na cabeça fora pequeno e já estancara.
Só quando já chegavam aos limites da favela se deram conta de que estavam sendo seguidos. Amedrontados comunicaram ao chefe que o Motoqueiro Negro os seguia.
Sem demonstrar qualquer preocupação ou temor Bazuca mandou que eles, antes de seguirem para o esconderijo, girassem nas ruas principais no entorno da favela que ele prepararia uma urgente tocaia com todos os homens disponíveis.
Minutos depois, com a moto se aproximando perigosamente da van, o chefe retorna a ligação os mandando voltarem para a estrada seguindo como se fosse voltar para as grutas.
Em menos de um quilômetro uma barricada com três carros e uns dez homens fechavam a estrada nos dois sentidos. A van tentou reduzir a velocidade reconhecendo seus comparsas.
O primeiro tiro se fez ouvir e a van, com a cabeça do motorista atingida e seu sangue manchando o pára-brisa furado, ganhou velocidade, atropelou dois comparsas, bateu contra o corsa atravessado a barreira e abrindo na beira da pista abrindo um largo caminho para a moto.
O Motoqueiro Negro, de pé sobre o banco, uma pistola em cada mão, troca tiros com os marginais. Foram mais 31 tiros por ele disparados para em seguida se deixar cair sobre o banco da moto e agachado seguir em frente em alta velocidade.
Da nuvem de tiros disparados contra ele só um o atingiu de raspão no alto da coxa esquerda. Em contrapartida, do grupo que fizera a barricada seis homens estavam mortos ou mortalmente feridos, dois atropelados pela van e um atingido também de raspão. Na van só o motorista morreu e nela não havia nenhuma outra marca de tiro a não ser o que, para matar o motorista, entrou pelo vidro traseiro e saiu pelo pára-brisa.
Arnaldo Bazuca distribuiu crack para comemorar sua grande vitória. O filho de Ferreirinha estava seqüestrado. A morte de comparsas incompetentes, que se deixaram matar por um único homem, para ele, pouco importava. E isso foi motivo para uma grande festa entre traficantes e viciados que por ali estavam.
Vitória de uns provoca irritação em outros.
Bia havia cedido. Entrou, vencida, no carro de Roberto. Estava resignada e disposta a ceder àquela nojenta chantagem. Ela só não sabia se iria ceder porque seu corpo assim exigia – estava excitada diante da possibilidade de ser possuída “contra a vontade” e ter seu corpo usado apenas para satisfazer o apetite sexual de um dominador – ou se cedia para salvar seu casamento e o imenso amor pelo marido. Puta, traidora e ninfomaníaca! Era assim que se sentia ao entrar naquele carro.
Seu corpo inteiro estremeceu quando a mão que estava por tocar sua intimidade se afasta para atender a insistente chamada do celular que pela terceira vez tocava. Pensou consigo mesma, frustrada em sua ânsia sexual de sentir-se sujamente tocada, que ela e seu corpo nada valiam para aquele homem safado – fora trocada por um simples telefonema. Pode ler no visor: “Paulo da Bia”. E outro tipo de estremecimento tomou conta dela e as lágrimas já desciam pela face enquanto Roberto, indignado, retornava com seu carro mantendo o seguinte diálogo com Paulo.
- Mas Paulo; como a notícia chegou até você?
- Que amiga?
- E o fato já pode ser verificado, Paulo?
- Tiroteio?
- Cinco mortos a tiro, dois mortos por atropelamento e dois em estado gravíssimo por PAF?
- Onde você está?
- Modesto Leal?
- Paulo, estou indo ao seu encontro.
Ao desligar o telefone resolveu atender a urgência por informação que o olhar de Bia, encharcado de lágrimas, exigia:
- Parece que o Luís, namorado da Telma, foi seqüestrado. Uma mulher ligou dizendo que apesar de intenso tiroteio ele nem ficou ferido. Só foi seqüestrado e passa bem. Pediu que ela comunicasse à polícia. A Telma buscou apoio em sua casa e o Paulo tomou a frente, você sabe como ele é.
- Ele já levantou que, ao que tudo indica, o Luís estava numa van que passou por um “arrastão” onde homens armados fechavam a estrada. Houve intensa troca de tiros. O motorista da van foi atingido e morreu. Ele foi atirado na pista e os passageiros da van foram seqüestrados e levados para uma favela. Mas a polícia só confirma o tiroteio e ainda não tem maiores informações sobre o fato.
- E essa história de feridos e quem é esse tal de Modesto Leal? – perguntou aflita Bia.
- O tiroteio resultou em alguns mortos por PAF e por atropelamento e alguns feridos. Os feridos foram levados para o Hospital Municipal Conde Modesto Leal, lá no centro de Maricá. – arrematou Roberto.
- PAF? – quis saber Bia.
- PAF, no vocabulário policial significa projétil de arma de fogo, tiro.
- E como eu vou explicar ao Paulo estarmos juntos? – a voz dela apresentava certo desespero.
- Vou deixá-la no Centro de Maricá, você compra um biquíni bem pequeno e transparente e liga para o Paulo ir te buscar. Assim ele te dá as notícias em primeira mão e depois eu curto seu corpo num lindo e delicioso biquíni. – ele falou passando a mão na coxa ainda exposta.
Bia respondeu à insinuação com um forte tapa naquela incomoda mão enquanto pensava: - Como pode ele ainda pensar, falar e tentar me excitar sexualmente diante de tantas notícias perturbadoras? É mesmo um louco, um maníaco... – e dando vazão a seu choro – Como eu...! – perdendo-se, a partir dali, sempre calada, em seus pensamentos e conflitos de personalidade e pessoais.
Quando o olhar de Bia não estava distante e perdido na estrada a sua frente ele estava fitando e examinando aquele homem pensativo ao seu lado. As lágrimas já não lhe abandonavam e Roberto demonstrava claramente não se importar. Quando percebia o olhar de Bia sorria confiante.
Bia divagava e, mesmo chorando, sentia que aquele homem exercia sobre ela uma forte atração, um sentimento de insatisfação que urgia em ser sanado. Ela se forçava a pensar em Paulo, seu maravilhoso marido. Pensava nas suas relações sexuais percebendo-as deliciosas, plenas e satisfatórias. Percebia, entretanto que Paulo jamais poderia dar a ela o que Roberto prometia: sexo descomprometido, pelo próprio sexo, animalesco, instintivo. Seu amor por Paulo impedia esta possibilidade. Como podia seu amor estar trazendo-lhe uma insatisfação que acabaria por comprometer seu próprio amor?
Chegaram a Maricá e ela perdida, enxugando os olhos, saiu do carro displicente seguindo em frente perdida em seus pensamentos e sem ao menos olhar para Roberto. Quando deu por si estava olhando na vitrine os diversos modelos de biquínis e eliminava os que estavam fora das especificações dadas por Roberto. Mais uma vez se viu menosprezada por si própria: depravada! Esta palavra era gritada seguida vezes em sua mente enquanto, olhando os biquínis, seu sexo se umedecia a sua revelia. Depravada!
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