terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 22 - Investigando um seqüestro ®


“Não se permita ser um eterno refém de suas mentiras.” ®

O feriado prolongado já se faz notar na sexta-feira. Fileiras de carros, casas se abrindo, burburinho na areia e uma revoada de jovens indo e voltando sem qualquer direção. Os veranistas mantinham seu ponto, na curva da praia pela ampla visibilidade, atraindo os turistas habituais. O grupo tomava a sobra da amendoeira logo pela manhã não deixando espaço para o pessoal dos piqueniques, das excursões e outros semelhantes. E o assunto predileto já era o seqüestro de Luís.
Enquanto isso Luís se verá obrigado a se adequar a uma nova rotina. A manhã de sexta-feira não terminara quando, encapuzado, foi levado a um quarto. Mandaram que ele tirasse toda a roupa mantendo-se apenas de short. Prenderam um metal em seu tornozelo, o colocaram sentado e orientaram a ele para ao ouvir três batidas na porta colocar o capuz e avisar que estava pronto e que o capuz só poderia ser retirado depois que ele ouvisse a porta ser trancada.
Porta trancada, capuz retirado, Luís tremeu. Percebeu imediatamente que grupo era profissional em seqüestros o que poderia significar muito tempo em cativeiro. Fez um rápido reconhecimento do local construído pelo que parecia em concreto armado, talvez até subterrâneo. Poeira e teias de aranhas não retiradas na limpeza feita para recebê-lo o levou a deduzir que o local estava há algum tempo sem uso.
Da direita para a esquerda, partindo da porta de ferro, no quadrado sem janelas ou frestas de 3x4m onde estava confinado, existia uma mesa na quina com duas cadeiras, uma em cada lado. Na parede em frente 3 camas, uma em cada quina e outra no meio. Tudo isso em concreto sendo os colchões de espuma. Na quina à direita da porta ficava um banheiro feito com divisórias com área de banho, vaso sanitário e pia.
No teto, com 3m de altura, ficava o chuveiro e um exaustor com sensor de presença na quina do banheiro; no centro, uma luminária embutida com 2 lâmpadas fluorescente de 40W, comandada por um dos interruptores próximo às camas. E na direção da porta a saída de teto de um ar condicionado split mantinha a temperatura sempre constante.
Tudo era claro, em um tom de “cinza cimento”, inclusive o feio porcelanato que cobria todo o piso e as paredes da parte molhada do banheiro. No centro do piso, surgiam 3 correntes finas e leves, uma delas presa ao tornozelo de Luís pelo anel de metal. O serralheiro havia sido caprichoso e detalhista e devia ter calculado a menor espessura de corrente capaz de resistir à força humana.
Quebrando o monocromático monótono existia, como distração, a tela de uma televisão incrustada na parede, logo acima da porta, onde passava exclusivamente filmes. A TV também poderia ser ligada e desligada por interruptor ao lado da cama, onde ainda havia um controle de volume e só. Luís se deu conta que não havia nada que lhe permitisse tomar conhecimento de fatos nem da passagem de dias, noites ou clima. O silêncio era total. Só seria quebrado ocasionalmente pela chegada da comida e roupas de cama e banho que eram postas no chão do quarto por uma portinhola na reforçada parte de baixo da porta.
O desespero começou a tomar conta de Luís que sabia que se não se precavesse possivelmente ficaria louco. Não havia qualquer possibilidade de fuga. Retiram tudo dele: roupas, celular, dinheiro – tudo! Planejou uma rotina: entre um filme e outro havia um intervalo, acreditava ele ser de 15 minutos. Resolveu contar o tempo. Quando começou o filme estabeleceu ser meio dia. Estipulou que cada filme duraria 01h45minh. Para não perder a contagem ao fim de cada filme marcaria com a unha a divisória em 3 grupos de 8 horas.
Nos intervalos faria exercícios até as 22h pela sua contagem. Apagaria a luz, tentaria dormir, mas deixaria a TV permanentemente ligada e tentaria acompanhar as noites permitindo-se dormir por 4 filmes, ou seja, oito horas.
Desta forma acordaria às 6hs, a manhã, para ele, seria das 6 às 14h, a noite seria das 14 às 22h, não haveria tarde, das 22 às 6h ele chamaria de madrugada fazendo 3 ciclos distintos.
Tentaria decorar a ordem dos filmes e se forçaria a prestar atenção a todos, mesmo os que não lhe agradassem. O que ele não podia era se deixar enlouquecer!
Foi fácil para Bazuca começar as negociações. O celular de Luís, como quase todos, facilitou a descoberta do telefone de Ferreirinha assinalado simplesmente como PAI.
Luís anotava assim, pela denominação, seus parentes e amigos permitindo a Arnaldo (Bazuca) descobrir quem eram seus primos, tias, namorada... Logo, com algumas poucas ligações ele descobriu que Ferreirinha era um ex-detento, sem dinheiro, e com informações sobre a grana roubada. Mas era pouco. Luís estava gerando um grande custo e era Ferreirinha quem tinha que dar um jeito de reembolsar com lucro estas despesas.
No fim da tarde de sexta já ficou claramente estabelecido que o resgate fosse a entrega do mapa e de R$ 30.000,00 até as 24h de domingo, acrescido de R$ 1.000,00 por dia de demora em liquidar a conta. Prazo máximo dado por Bazuca e improrrogável: 7 dias. A promessa era que no final do domingo seguinte Luís seria executado se não tivesse sido resgatado.
Quando Roberto chega ao escritório da Polícia Federal em Maricá encontra todo ambiente agitado por um volume aumentado de agentes e pela presença de policiais civis.
Sentando-se com os membros de sua equipe e ao lado de Paulo passa a ser informado de tudo que até aquele momento fora apurado:
- Vamos por partes Roberto. Acreditamos que Luís foi até a casa dele, o que evitava há alguns dias, e passou a ser seguido. Até o momento não se tem qualquer certeza destes fatos ou dos motivos. – Paulo falava com base em suas anotações que só ele mesmo seria capaz de entender pela caligrafia e pela disposição aleatória no papel cheio de desenhos.
- A partir desta etapa o que se tem está baseado nas informações passadas para Telma por uma mulher que não se identificou. – continuou Paulo.
- Estas informações são atualizadas pelos resultados de investigações.
- Já providenciamos a interceptação dos celulares de Luís, Ferreira, Telma e alguns outros. Inclusive estamos rastreando alguns telefones fixos, celulares e orelhões da favela. De um dos orelhões ligaram para parentes do Luís. – cortou Alfredo para informar sobre procedimentos técnicos.
- Telma foi informada – retomou Paulo – que Luís foi nocauteado nas Grutas de Spar por um grupo de homens que o levou para uma van.
- A van seguia para a favela da Cocadinha quando cruzou com o tal de Motoqueiro Negro que dizem ser um herói justiceiro. Claro que não é nenhum herói. Deve ser apenas mais um marginalzinho metido a esperto.
- Depois eu te falo mais sobre o Motoqueiro Negro. O fato é que a van tentou escapar do justiceiro e já na estrada encontrou uma barricada. Tínhamos dúvida quanto à origem da barricada se ligada a algum grupo marginal, se são da equipe do motoqueiro...
- O Motoqueiro Negro não tem equipe. Estamos investigando ele e a notícia que se tem é que ele é um justiceiro solitário que atua sozinho sem ajudas ou apoios. E já se sabe que é o bando do Bazuca que está por trás do seqüestro. – cortou inspetor da delegacia local, atrapalhando o relatório de Paulo.
- Ferreirinha descobriu bem cedo – retomou Paulo - que não tinha qualquer opção e assim que recebeu a primeira ligação seguiu direto para a delegacia. Ele está sendo acompanhado e orientado por equipe técnica mista. E, por enquanto, é só.
- Ainda tenho algumas perguntas: - posicionou-se Roberto demonstrando realmente querer mais informações sem qualquer pretensão de ser importante ou tomar para si o comando das operações.
1. Já temos equipes externas tentando localizar os seqüestradores, mandante e o cativeiro?
2. Qual vai ser o papel estratégico da Polícia Militar neste evento?
3. Já fizemos contato com toda nossa rede de informantes?
4. O valor do resgate já foi estabelecido?
Paulo respondeu deixando claro que estava saindo de cena:
- Eu não podia ir além de onde fui sem expor a mim, meu disfarce de bancário e a meus familiares. Vou tentar fazer contato com Bia e vou manter todo mundo pertinho de casa.
- Marisa já é um apoio – continuou Paulo – mas gostaria de contar com mais armas e pelo menos mais um homem, se possível você Roberto.
Roberto foi pego desprevenido e não teve tempo de raciocinar em relação à cartada que Paulo lançara sobre a mesa. Logo o assessor do delegado assumiu a palavra e determinando que Roberto ficasse na casa de Paulo durante todo episódio esclareceu:
- João está coordenando todas as consultas à rede de informantes de forma que não se deixe vazar qualquer informação desnecessária para as ruas.
- A Polícia Militar já começou uma operação asfixia nas demais áreas sob o comando do Bazuca de forma a atrair a atenção dele e criar um clima de stress. Isso, inclusive, vai aumentar o fluxo de compradores na favela da Cocadinha facilitando a infiltração de agentes.
- O valor do resgate, segundo Ferreirinha, é de R$ 30.000,00. Mas tem uma exigência que já existia e até o momento não conseguimos identificar – um mapa do tesouro. – antes de ser interrompido concluiu – E temos duas novidades: multa diária de R$ 1.000,00 como faz o mais eficiente dos credores. E prazo máximo de uma semana.
- E quanto a minha primeira pergunta: Já temos equipes nas ruas? – reforçou Roberto.
- Isso já estava acontecendo. Muitos agentes estaduais e federais nas ruas sem qualquer coordenação ou controle. Isso acabava por abrir possibilidades e informações para Bazuca e seu bando. Todos foram recolhidos e estão reunidos com o nosso delegado lá na prefeitura disfarçado de reunião de urgência da defesa civil de Maricá. Como você pode ver Roberto, nada prende você aqui. Vocês vão levar este rádio israelense para podermos trocar informações sem ouvintes ou rastreamentos. Devem seguir em carros e momentos diferentes.
- Roberto! – Paulo retomou a palavra dando ênfase a seu pedido de apoio – Vá à frente e já conversa com Marisa. Ela vai ser fundamental na formação de um intercâmbio com os jovens da praia.
- E você? – quis saber Roberto.
- Chego em uma hora. – respondeu Paulo sem satisfazer as curiosidades de Roberto.
Paulo levantou-se, entrou em uma das salas e utilizou um dos computadores vagos. Saiu para a rua com alguns papéis impressos na mão. Colocou sua insígnia de policial federal no cinto, colocou a arma no estilo caubói deixando-a também bem visível e com este traje tão diferente de seu cotidiano entrou numa loja e com documentos totalmente falsos adquiriu um celular pré-pago.
O vendedor estava impressionado com o policial que rudemente lhe abordara. Quando solicitou os originais uma simples pergunta o fez calar.
- Você está duvidando de mim? – voz firme, cenho fechado, olhos nos olhos e Paulo percebeu o tremor e temor que provocara. Ele detestava isso...
        Como se isso valesse alguma coisa, o vendedor anotou no verso dos papeis que recebeu: “Policial Federal”. Passou o número do aparelho para Rafael (nome que Paulo adotara para fazer aquela compra) e pegou de volta o celular para colocar o crédito de R$ 200,00 solicitado. Estava visivelmente ávido para dar fim àquele atendimento.
Paulo, telefone no bolso do paletó, enquanto se recompõe segue para a praça e escolhe um banco com bastante sombra sentando de forma a ocupá-lo totalmente.
Olhou em volta. Nada chamou sua atenção. Pegou seu telefone normal e ligou para casa de Telma.
- Por gentileza, a Telma. É o pai da Andréia.
Quando Telma atendeu foi imediatamente interrompida:
- Alô...
- Sou eu. Não diga meu nome. Fique longe de qualquer pessoa e atenda a próxima ligação de seu celular e me chame de Rafael. Não posso explicar agora, obedeça-me, por favor. – sem dar tempo para qualquer resposta desligou.
Telma, preocupada com o olhar da mãe sobre ela continuou falando sozinha:
- Ela não está aqui. Disse que ia a Maricá comprar um esmalte especial e voltava logo...
- Isso...
- Peço sim!...
- Um abraço!
Só então desligou comentando com a mãe: - Andréia nem pode namorar. Dá uma saidinha e já está todo mundo procurando por ela.
- E isso lá são horas de namorar?
- “Mãe”, desde quando para namorar tem hora? No fim de tarde vocês redobram a vigilância, tá!
Ela falou e foi saindo de casa.
- Vou procurar a Andréia! – respondeu antes de a mãe conseguir lhe perguntar aonde ia.
O celular tocou. O número era desconhecido. Pela segunda vez naquele dia atendia um número que não conhecia.
- Alô seu... – ela quase estragou tudo, mas Paulo já esperava por isso e foi atravessando a conversa interrompendo as palavras de Telma.
- Telminha, sou eu, Rafa. Ficamos sábado passado no lual, lembra? Deu saudade. – ele deu um riso bobo e aguardou o retorno que não veio.
- Já “esqueceu de mim”, menina? Você disse que eu devia ser seu gato e se esqueceu de mim?
- Rafael? – do outro lado da linha, sem entender nada e acanhada com aquela conversa, quase resmungou Telma.
- Sou eu mesmo, menina! Soube que teu carinha desapareceu. Queria consolar esse coração, esse peito dolorido. Me encontra na amendoeira em meia hora. Não se atrase senão eu morro. Leva tua colega, a Andréia. Vou levar um carinha que tá vesgo por ela. Fiquem tranqüilas, vocês vão achar que ele é um gatinho manso. – Paulo fez questão de frisar o “morro” tentando passar sua urgência para a amiga de sua filha.
- Eu também tô com saudade. Vou me produzir um pouco prá você e chego lá com a Andréia. – responde Telma entendendo o recado.
Para ter certeza Paulo avisa:
- Só não deixa ninguém saber que eu detesto urubu por perto. – desliga em seguida.
Nova ligação do seu celular.
- Oi Bia. Dei teu telefone para o decorador e ele vai te ligar em seguida. Beijo. – desligou imediatamente não permitindo qualquer pergunta.
Depois de uns três minutos Paulo estava certo de que Bia já entendera seu recado e ligou do pré-pago para ela assumindo uma voz arrastada e quase afeminada, apesar disso ser quase impossível para ele. De qualquer forma se o telefonema fosse interceptado daria a impressão de que ela falava com um decorador que era ou fingia profissionalmente ser afetado ou afeminado, isso pouco importava. Não podia ser reconhecido.
- Alô!
- Oi Biazinha querida. É Rafa! Estou com uma tremenda saudadinha de você. Queria te mostrar meus traços pessoalmente e os orçamentos que já estão prontos. Você pode ir à Maricá.
- Estou em Maricá, Rafa. Bem no centro. Onde podemos conversar. – a voz de Bia soou preocupada e Paulo tentou dissimular.
- Queridinha, já sei que o maridão andou puxando orelhas. Se preocupe não. Vamos falar com ele “juntas”. A missa está terminando. Te espero na porta da igreja. Vou esperar sentada que o salto está me matando. Beijinhos.
Nova ligação. Agora para a delegacia de Maricá. Paulo aproveitou a afetação da ligação anterior.
- Oi garotão, é Rafinha falando. Queria denunciar que o Motoqueiro Negro está vindo matar um bandido junto à igreja de Maricá.
Do outro lado pediram um momento, mas foi a mesma pessoa que novamente falou ao telefone.
- Pode repetir.
- O Motoqueiro Negro tá vindo matar um bandido, um tal de Bazuca, aqui junto à igreja de Maricá e eu tenho que desligar. Eu não posso estar aqui quando ele chegar. Fui garotão.
Nova ligação, agora para o batalhão da polícia militar.
- Por favor, seu guarda. É urgente! O comandante pode me atender. É Rafinha falando. – a ligação é passada para outro ramal e do gabinete do comandante atendem:
- Sargento da Silva falando. Quem deseja falar com o comandante?
- Sargento! Da Silva! É Rafinha, mas não vai dar tempo. Diga a ele que um tal de Bazuca está a caminho da igreja de Maricá para matar o Motoqueiro Negro. Alguém tem que salvar o Motoqueiro Negro. Aquele homem é tudo. Não pode morrer da Silvinha. Beijos... – Paulo desligou a ligação.
Para não ser triangulado e encontrado Paulo desmontou o celular retirando sua bateria. Mas o seu celular oficial permaneceu ligado e ele aproveitou sua câmera e o poderoso zoom e passou a tirar foto de tudo que ele considerava ”fora do lugar” a partir daquele instante.
Em menos de cinco minutos a praça começou a receber visitantes ilustres. Cada um deles era fotografado com data e hora por Paulo. Bia chegou e ele se abraçou a ela.
- Preciso de cobertura. Somos um casal de namorados. Ajude-me a esconder nossos rostos o quanto for possível. Estou tirando fotos maravilhosas.
Ficaram abraçados e calados. Ambos estavam com o pensamento distante dali. Paulo tinha que se manter alerta e concentrado, mas isso era quase impossível.
Quase dez minutos depois sirenes eram ouvidas de todos os lados e convergiam para a praça. Surpreso Paulo fotografou Roberto e o detetive da polícia civil que ajudara no confronto com os estrangeiros. Paulo era péssimo disso... Como era o nome dele? Por que Roberto, que deveria estar a caminho da casa na praia estava ali? O que os dois podem ter em comum?
Foi um atropelo. Um choque entre as forças civis e militares, cada uma com um pedaço de informação semelhante e distinto. Os ânimos estavam começando a se exaltar. Só quando o delegado da polícia federal chega é que a cooperação se estabelece e as três equipes passam a tentar trabalhar juntas. Mas falta um verdadeiro líder aglutinando-as.
A última foto de Paulo registrou a chegada de Ferreirinha. Ele veio no carro da polícia civil, algemado, e só foi liberto com a intervenção do delgado federal. Paulo ainda se questionava: Quem e por que teria comunicado ao delegado federal? Por que Ferrerinha foi trazido, algemado ainda por cima? Ele estava preso ou era uma vítima?
Algumas peças até se encaixavam. A intuição de Paulo aceitava a presença e até a proximidade entre alguns personagens. Mas por mais que insistisse Paulo não conseguia formular qualquer história, qualquer laço lógico, qualquer ilação mais elaborada que justificasse a aceitação intuitiva que experimentava. Na praça o que mais lhe chamava a atenção era a presença de toda equipe de Roberto, de quem ele tentava se aproximar eficientemente.
Em poucos minutos acontecia a debandada e com a praça praticamente vazia Paulo simulou um encontro “ocasional” com Roberto e o detetive (como era o nome dele?) da polícia civil. O clima ficou mais estranho do que poderia supor Paulo.
Roberto não entendia o que Paulo fazia ali e a proximidade, o carinho e os beijos do casal, que Paulo forçava e Bia não se atrevia a evitar, estavam lhe incomodando mais do que devia.
Ainda tinha a presença do seu xará. Para ele foi constrangedor Roberto estar ali naquele momento, diante daquele trio.
O detetive Roberto fitava Bia com um sorriso maroto no olhar sem se incomodar com o duro olhar que ela lhe devolvia. Ele estava se divertindo vendo ela entre Roberto e Paulo, para ele, seus dois homens, seus machos.
Paulo ora olhava desconfiado para o detetive, ainda sem lembrar seu nome e sem atinar seu comportamento em relação à Bia. Mas distribuía sarcasmo de todas as formas para seu companheiro Roberto.
Bia sentia o clima tão inexplicável se transformar em urgente quebra de silêncio, mas se arrependeu de suas inesperadas palavras:
- Soube que é um excelente fotógrafo, quase profissional, daqueles que registram o cotidiano alheio sem pedir licença. Deve ser um trabalho muito interessante e deve gerar fotos conflitantes. Gostaria de conhecer de perto sua obra. – ela terminou seu texto olhando desafiadoramente para o outro Roberto. Esquecera que não se deve provocar manifestação quando não se sabe o que pode surgir.
- Agradeço seus elogios. Não esperava que Roberto fosse divulgar tão rápido e tão bem o meu trabalho. Mas, normalmente, guardo as melhores e mais detalhadas fotos para mim, para minha coleção e terei prazer em compartilhar consigo minha obra.
- Roberto, gostaria de saber por que você ainda está aqui? Contávamos, eu e toda nossa equipe, com você oferecendo proteção a todos que ficaram na casa. E que história é essa de fotos, de trabalho de arte que você está divulgando para minha esposa, gostaria de saber detalhadamente o que está acontecendo a minha revelia.
Justo nesta hora, aliviando as tensões de Bia, em alta velocidade cruza a praça um motoqueiro com roupas de couro preto, moto preta e capacete preto. O restante da força policial que estava na praça partiu, sirenes abertas, ao seu encalço. Neste momento Paulo arrematou:
- Conversaremos melhor em casa. Meus pressentimentos são os piores.
Antes de estacionar em frente à casa branca rostos chorosos e desesperados cercam o carro de Paulo e Bia. André, Marisa e Afonso haviam sumido. Ninguém sabia de nada e não havia qualquer notícia.


 

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