terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 23 - Caçando a Seqüestradora ®


“O prazer sem amor, por maior que seja, nem realiza, nem satisfaz.” ®

Paulo se viu impedido de sair imediatamente em busca dos jovens desaparecidos e preocupado avaliou a hipótese de solicitar apoio a Roberto pelo rádio. Neste momento deu-se conta que nenhum contato fora feito via rádio. Nem mesmo sobre as denúncias de presença de Bazuca e do Motoqueiro Negro na Praça.
Preferiu manter o rádio sem uso e enquanto avaliava o súbito desaparecimento de Afonso, Marisa e André. Bia, totalmente descontrolada, saía do carro. Sua mente tentava, em vão, deduzir onde poderiam ter ido. Mas só com dons especiais seria possível adivinhar que os jovens estavam nas Grutas de Spar.
Acontece que Afonso, aflito com o desaparecimento de Luís, resolvera abrir mão do segredo em torno de Rita e pediu apoio a André e Marisa para chegar às Grutas de Spar.
Chegando lá procedera como combinado e não obteve qualquer resposta. Explicou ao casal amigo o que acontecera durante seu desaparecimento na visita anterior. Optaram por esperar.
Enquanto esperavam Afonso contou ao casal amigo a história resumida de Rita tentando deixar claro que ela, apesar da excentricidade, era uma pessoa normal, não possuía qualquer distúrbio mental. Ele preferiu não entrar em detalhes, pois achariam que ela era totalmente louca.
Rita devia ter ido fazer compras ou passear, defendia o aflito Afonso, e não tardaria. Mas o tempo foi passando e, sem abrir mão de suas esperanças, resolve abrir mão da companhia de André e Marisa. Eles precisavam voltar, pois na casa todos deviam estar muito preocupados. Ele só recomendou, quase implorando, que mantivesse em segredo a existência de Rita.
Pelo celular requisitaram um táxi e, deixando dinheiro com Afonso, que nem com isso se preocupara, seguiram para a casa branca na curva da praia.
A chegada do táxi causou verdadeiro alvoroço. A esta altura Roberto já havia alertado toda sua equipe, mas decidiram não divulgar o desaparecimento à Polícia Estadual.
Marisa e André foram recebidos com uma brutal chuva de reclamos e perguntas. Só quando Bia se aproximou correndo do grupo, abraçou e beijou André demonstrando sua felicidade por ele estar ali são e salvo é que o clima melhorou. Só então foi possível esclarecer que Afonso pedira para ser levado às Grutas para procuram por Luís, inconformado com a versão de seqüestro.
André e Marisa combinaram ainda no táxi esta versão e a estavam mantendo. Todavia, passados os primeiros instantes, Roberto pede a Marisa que o leve aos pontos onde Luís costumava surfar.
André, levantando do sofá, abraça Marisa seguindo com ela os passos de Roberto. Na porta de casa sofre uma decepção que, mesmo sem ele saber por que, o desnorteou. Marisa pediu para ir sozinha com Roberto até a praia sem nem tentar explicar.
André, é claro, não esquecia a condição de Marisa como investigadora da polícia federal, mas, ainda assim, sentiu-se machucado com a forma e o procedimento dela. Seria ciúme?
Na praia nem se lembraram de fingir procurar o local onde Luís surfava, sentam-se sob a sombra da amendoeira e ficam por poucos minutos simplesmente observando o mar.
Logo Marisa passa a ser atualizada dos fatos e dos riscos que todos corriam na casa. A narrativa de Roberto é detalhada. Entretidos nos diálogos nem percebem a aproximação de Paulo.
Na sua vez de se pronunciar, Marisa tinha novidades:
- Roberto, você sabia que a enteada do Hans ainda está viva e que está morando nas Grutas de Spar?
Ao ouvir estas palavras Paulo estanca. Mais cuidadoso aproxima-se e se encosta-se à amendoeira de forma a ficar quase invisível ao casal e, concentrando-se, passa a participar da conversa.
- Como? - Roberto acusara o golpe e a notícia não parecia ser boa.
- Como assim, viva? Era Rita o nome dela, não era? - completou Roberto estupefato.
- Afonso contou que a conhecera quando ele e Luís se perderam nas grutas e que foi ela quem "heroicamente" - falou ironicamente - os salvou da morte em um "precipício" 
- desdenhou mais uma vez.
- Ele sabe de mais alguma coisa?
- Eu puxei tudo que podia com tato para não levantar suspeita, mas Afonso está desesperado com o seqüestro de Luís. Está muito difícil manter qualquer tipo de conversa com ele. Ele sempre volta a falar do amigo e de seu desaparecimento repentino.
Pelo rádio Roberto sinaliza para alguém que lhe retorna:
- Na escuta. Câmbio.
- Desculpe-me, é Roberto, chamei sem querer.
Era o Policial Civil, xará de Roberto, supôs Paulo. Este devia ser o código combinado entre eles para falarem com discrição. Os fones só chegariam na tarde seguinte e, até lá, todos os contatos eram em viva voz.
Roberto, diminuindo ao máximo o volume do alto-falante de seu rádio olha em direção a casa sem perceber a presença de Paulo oculto pelo troco da árvore.
- Na escuta xará? Pode falar? - Agora Paulo tinha certeza.
- Estou só no meu carro. Então, “Federal”, pode falar à vontade.
- Você não me disse que todos da casa, exceto o Hans, haviam morrido “Civil”?
- Como assim? Não estou entendendo nada “Federal”.
Estavam usando outro código. Assim se chamavam de federal e civil pela freqüência da polícia quando não pretendiam partilhar informações com suas origens.
- A mulher do Hans e sua filha não estavam mortas, “Civil”?
- Estavam não. Estão. A mãe foi morta na praça e a filha desapareceu. Ora, pequena como era, deve ter ficado trancada num barraco de uma favela qualquer. O certo é que nem seu tio sabe de seu paradeiro. Ele é seu único parente. Se viva estivesse teria procurado por ele pelo menos uma vez, concorda “Federal”?
- Concordo porra nenhuma! É tudo uma cambada de imbecil? Sem corpo não existe morte! E sabe por quê? Sabe por quê? - repetiu ele a pergunta enraivecido.
- Vai me dizer que ela apareceu na casa?
- Não, espertinho, ela está morando lá nas grutas! E... Quem sabe? Com todo nosso dinheiro!
- E tem mais?
- Cala essa boca “Civil”. Esse rádio pode até ser seguro, mas isso se discute pessoalmente. Hoje, 18h, no local de sempre.
Nisso Roberto tinha razão. E, neste caso, estava presente o experiente ouvido de Paulo. Paulo que agora desenhava toda a trama em seu cérebro de policial. Paulo que estava revoltado e buscava autocontrole para poder ir além. Ele só não sabia até onde Marisa estava com Roberto naquela trama.
Quase já desistindo, Afonso tenta ainda mais uma vez. Desta vez, para sua alegria, Rita vem ao seu encontro.
- Desculpe a demora, mas fiz uma distensão nas pernas enquanto me exercitava. Mancando demora-se mais um pouco para chegar até aqui.
- Onde você estava? Estou chamando há mais de duas horas. Luís foi seqüestrado. Estou desesperado.
- Eu sei. Estava com ele. Como ele eu também levei uma coronhada que me nocauteou. Ele foi seqüestrado pelo grupo do Bazuca. Espero que a coronhada não tenha feito muito estrago. - comentou Rita com um triste sorriso nos lábios.
- E você? Como está? - quis saber Afonso
- Assim que recobrei os sentidos desci o monte e liguei para Telma. Anonimamente contei tudo que sabia a ela. Depois, eu já estava aqui de volta, mas a cabeça doía demais e fui até o hospital. Na volta a polícia ainda me parou e ficou desconfiada da coronhada. Disse que foi uma tentativa de assalto quando eu estacionava e que os bandidos, ao me verem no chão, deviam ter pensado que eu morrera e fugiram. Colou.
- Eu não poderia contar a verdade sem me expor demais. - encerrou Rita que calada ficou olhando assustada para a entrada da gruta de onde vinham sirenes diversas.
No instante seguinte, recuperada da surpresa, pega Afonso pela mão e vai capengando e puxando o amigo para o interior da gruta. Por onde passava ia recolhendo lanternas e lampiões. Cada escada que usava era levada até um ponto afastado de sua área de uso. Por final desceu por uma corda dupla orientando a Afonso para se apoiar apenas em uma delas. Depois de descerem praticamente juntos mais de seis metros chegaram a uma grande laje de pedra.
Rita, sentindo-se segura, puxa a outra ponta da corda e se afasta para que a corda não caísse sobre ela.
- Agora - explicou ela - o único acesso que existia era por corda grande e de difícil fixação ou com uma escada muito alta no meio do escuro lago das grutas.
- E como eu faço para ir embora?
- Simples. Você não vai! Vamos passar a noite aqui. Mais tarde nos preocuparemos com a saída.
- E os morcegos. - resmungou apavorado Afonso.
- São pouquíssimos aqui e nada querem com você, eles só gostam de frutas.
Lá em cima policiais civis e militares promoviam uma grande busca. Caçavam a articuladora do seqüestro de Luís que fontes seguras informaram à polícia federal que se escondia ali.

 

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