“Quem almeja conquistar confiança normalmente não a merece.” ®
Paulo, naquele momento, estava estarrecido sem vislumbrar quais deveriam ser seus próximos passos. Todas as suas análises e conclusões anteriores estavam eivadas de erro e, portanto, comprometidas. Ao mesmo tempo percebia certa urgência em acompanhar mais de perto os fatos que se desenrolavam na Gruta de Spar. Realmente, em Roberto e Marisa, jamais confiou totalmente e, ainda assim, confiara mais do que eles mereciam. Algo de podre se desenhava ainda em cores tênues. Enquanto pensava sobre todos estes fatos se afastou um pouco mais e de certa distância, de onde não poderia ter ouvido nada, anunciou-se.
- Roberto, alguma novidade? – ligou, em seguida, novo tema para a conversa ficar ainda mais confortável – Já atualizou Marisa dos fatos e dos riscos?
- Paulo! Que bom que você veio se juntar a nós. – cortou Marisa transparecendo e controlando sua surpresa.
- Por enquanto, amigo, nenhuma que você não saiba. – Roberto falou e olhou firme para Marisa como quem transmite um sinal. Nunca a palavra “amigo” soara tão falsa.
- Só vim avisá-los que vou ter que levar Bia ao centro da cidade, mas não me demoro. Podem ficar por aqui, mas mantenham-se atentos, por favor.
Paulo segue com naturalidade para casa, incomodado por um sentimento de urgência que faz com que deseje correr, e já chega chamando Bia para sair.
A cumplicidade e convivência do casal é tal que, mesmo estremecidos e sem palavras, sentimentos são enviados e percebidos. Sem qualquer questionamento Bia troca de roupa em segundos e ouvindo Paulo comunicar que estavam indo à cidade se despede de todos só informando que não devem demorar.
Paulo não alimenta o hábito de partilhar seu trabalho com Bia. Tudo, porém, é diferente quando a família está em risco. Bia que já estava bastante atualizada recebe, com impacto em seu coração que se contraí como em uma premunição, as últimas notícias. Na visão de Paulo existe um complô em desenvolvimento acontecendo durante todo o tempo em que estão em Maricá.
Abalada Bia deixa escapar seu pensamento com palavras pronunciadas entre dentes. Assustada percebeu que era tarde demais. Paulo ouviu e registrou:
- Por isso Roberto vem tentando desarmonizar meu casamento e me seduzir.
Paulo esperava, há muito, esta oportunidade. Ele não queria tocar no assunto sem que Bia abrisse pelo menos a porta para um diálogo.
- Bia. Percebi Roberto se aproximar de você com as mais diversas intenções. Ele chegou, clara e intencionalmente, a mandar o número do celular dele para você, pela Marisa, na minha frente, apesar de você já ter anteriormente falado com ele pelo celular. Ficou claro que ele queria abalar minha confiança em você.
- Também não pude deixar de notar – continuou Paulo falando com velocidade de quem não quer ser interrompido – a mudança de tratamento dispensada por você a mim e a Marisa a partir de dado momento.
- Notei sua aflição e submissão aos pedidos de Roberto. – Paulo completou – Algo de errado estava acontecendo entre nós, com o nosso casamento e no centro das intrigas estavam Marisa, que se insinuava para mim na sua presença, e Roberto que, sem qualquer tentativa de disfarçar, tentava conquistá-la.
- Paulo, me perdoe, mas eu me deixei envolver.
- Não se preocupe. Somente esteja certa que Marisa sempre me desejou. A vulgaridade de seus trajes e de seus comportamentos serviu para reduzir ainda mais a falta de atrativos de seu corpo em cada detalhe e no conjunto. Para ser franco, embora eu admire a inteligência dela, tive a maior dificuldade em simular um romance durante nossa última missão e isso quase comprometeu uma grande operação. Parece que ela saiu do episódio bastante magoada e seu ego ficou bastante ferido.
- É justamente assim que me sinto, Paulo. Preciso confessar que Roberto praticamente me seduziu.
- Chegamos à delegacia de Maricá. – sentenciou Paulo.
A conversa conjugal foi brutalmente interrompida para desespero de Bia que parecia precisar desabafar.
Paulo não pode contemporizar. Havia muita coisa em jogo em sua carreira e com a segurança física de sua família.
O Delegado não entendeu alguns dos questionamentos de Paulo. Afinal fora a própria polícia federal que pedira seu apoio na captura da seqüestradora de Luís. Paulo, por sua vez, insistia para que o delegado fizesse uma simples ligação para a delegacia da polícia federal em Macaé.
Paulo transmitia uma aflição tão gritante que impressionou o delgado fazendo com que ele se dispusesse a fazer aquela despropositada ligação.
Terminada a ligação estavam todos alarmados. A conclusão a que chegaram é que apesar de tudo teriam que manter as ordens dadas e evitar que os policiais encontrassem a jovem.
Foi Bia quem sugeriu, vendo pela janela o fim de tarde anunciar uma noite enluarada, que se mantivesse apenas vigilância noturna fazendo as buscas retornar apenas no dia seguinte. Isso atendia as necessidades momentâneas e dava o tempo necessário para novas decisões e procedimentos sem alertar a Roberto e seus aliados que seus planos estavam começando a ruir como um grande castelo de cartas.
Nas grutas, em local seguro, os jovens tentavam entender o que estava acontecendo. Para usufruir de claridade havia se confinado em uma reentrância curva escavada na pedra. Estava estreito, seus corpos estavam colados, mas podiam manter os morcegos afastados pela presença da luz e ouvir alguns movimentos e vozes que o eco traziam até eles.
Assim colados acabaram se abraçando para comemorar a anunciada interrupção das buscas até a manhã seguinte acompanhada da ordem de manter vigilância nos dois principais acessos das grutas. Abraçaram-se e mantiveram-se abraçados. Logo poderiam sair daquele cubículo, mas a acanhada troca de carícias sugeriria a quem os visse que nenhum dos dois estava disposto a interromper aquele momento.
Quando só restava o silêncio nas grutas, eles, que durante todo o tempo conversaram apenas através de olhares, deixaram-se envolver, corações palpitando, secura na boca, respiração entrecortada. Pelo que liam, um no olhar do outro, existia a promessa de um beijo. Acanhados, apesar de carinhosos um com o outro, a cada instante sentiam-se mais apaixonados, mais atraídos, mais envolvidos.
Tudo seguia seu caminho natural, os lábios prometiam e desejavam se encontrar, até que sirenes de viaturas abandonando o local, onde só permaneceria a vigilância, assustou ao casal e os trouxe de volta à realidade e à grande laje, conversando em voz baixa sobre as possibilidades de fuga, ambos lamentando o beijo não concretizado. Mas um não sabia se o outro também queria. Ou melhor, sabiam, mas não acreditavam na reciprocidade de seus sentimentos. Temiam ser rechaçados, temiam magoar ou serem magoados. Nenhum dos dois ousou ir além da atração e magnetismo do momento. Agora os descompassados corações sentiam-se doloridos, queriam uma nova chance. Todavia, a realidade que os cercavam não permitiria isso, pelo menos por agora estavam adiados os planos de conquistar e ser conquistado. Se quaisquer deles pudessem ler o pensamento do outro esqueceriam a realidade e se entregariam ao amor!
Rita foi a primeira a se deixar cair, rigidamente reta e de pé, da laje para o lago da gruta pela grande fenda. Logo foi seguida por Alfredo. Orientado a segurar firme seu tornozelo, Alfredo segue a Rita mergulhando nas águas mornas iluminada pelas lanternas que traziam presas ao pescoço.
Lá fora, bem na entrada principal das grutas de Spar, os dois policiais escutaram um ruído indecifrável ecoar e novamente se repetir com novo eco. Um olhar de cumplicidade entre os dois deixava claro que não valia à pena verificar a origem do estranho ruído e, sem palavras, esqueceram dele.
Alfredo já estava sem fôlego quando o casal voltou à tona. Iluminando sua volta viu uma só pedra que subia afinando em curvas que não permitiam adivinhar seu final.
Rita tomava novo fôlego ele também guardou o ar e mergulhou para se agarrar mais uma vez ao tornozelo dela. Desta vez ao chegarem à tona estavam num lago que tinha em um dos lados uma praia com areia e tudo. Foram a nado até a praia, seguiram por caminhos tortuosos da gruta quase que correndo. Alfredo percebeu roupas penduradas numa lateral, mas Rita não permitiu que parassem e puxando por ele foram acabar de frente a uma rampa que subia até um grande buraco. Na parte baixa da rampa uma moto de 1200 cilindradas estava estacionada.
Alfredo ajudou a empurrar a moto rampa acima. Do alto viu uma pequena trilha num declive acentuado. Rita subiu na moto, ligou a chave, esperou que ele se acomodasse na garupa e deixou a moto descer ganhando velocidade por quase toda trilha. Pouco antes de uma grande curva ela provocou a ignição do motor e logo estavam saindo por uma picada diretamente na estrada principal.
Sem nada terem combinado Rita deixa Alfredo no centro da cidade. Já é noite, mas ainda é cedo. Bares e restaurantes estão lotados. Ela se despede dele. Um Alfredo desolado repete o cumprimento recebido cabisbaixo. O brilho retorna ao seu rosto, ao seu olhar, quando surpreso se sente agarrado pela camiseta e puxado contra os lábios de Rita que se aproximam dos dele.
Alfredo fecha os olhos. Estava certo que aquele seria o mais delicioso e surpreendente beijo de sua vida. Ela beija-lhe o rosto despedindo-se e se afasta em sua silenciosa moto Honda, preta, sem frisos, com faróis azuis e lanternas de led. A linda moto combina muito bem com a bela e loira dona.
Com a roupa ainda molhada Alfredo pára um táxi e combina um preço para, mesmo molhado, ir para a casa branca na curva da praia onde todos deviam estar preocupados com ele. Chega praticamente junto com Paulo e Bia. O casal corre até ele e o acolhe com grande carinho e preocupação. A primeira providência de Paulo foi evitar que Roberto ou Marisa tivessem qualquer acesso ao rapaz levando-o para o quarto do casal e, de lá, já acompanhado de seu irmão, foram para casa de carona com Bia enquanto Paulo convocava os policiais para uma reunião. Na pauta: A chegada confirmada de Hans no Brasil, já no dia seguinte, em São Paulo. Certamente dali ele viria de ou ponte aérea ou em qualquer vôo com escala em São Paulo para o Rio.
Roberto foi escalado para fazer plantão no aeroporto internacional – o Tom Jobim – enquanto Marisa, com uma foto de Hans, ia para o aeroporto Santos Dumont.
Nenhum dos dois reclamou de sua nova tarefa. Ficou claro que cada um deles pretendia ser o primeiro a manterem contato com Hans. Seguiram juntos, no mesmo carro, para a capital do estado. Roberto deixou Marisa no centro da cidade, na pista do Aterro do Flamengo de onde alcançaria o aeroporto em menos de cinco minutos de caminhada. Seguiu então para a Ilha do Governador estacionando o carro no estacionamento exclusivo do aeroporto Tom Jobim.
Estavam ainda em plena estrada quando o juiz de uma das varas do Tribunal do Estado do Rio de Janeiro, de plantão na comarca de Maricá, emitiu o mandado de busca e apreensão contra os dois policiais federais e um policial civil – Roberto – que já estava incomunicável e sob detenção na delegacia. Imediatamente uma diligência conjunta, da polícia federal e da civil, seguiu para os três imóveis. Existia urgência nos procedimentos, já que não podiam, por lei, manter o preso sem qualquer comunicação.
Outro grupo foi cercar o pequeno aeródromo administrado pela prefeitura de Maricá. Apesar de não receber vôos regulares com passageiros nada impede que uma pequena aeronave, em especial de treinamento, mesmo proveniente de São Paulo, pouse em suas dependências. A Interpol garantia que esta seria a rota escolhida por Hans.
O delegado federal enviou equipe também para o aeroporto de Cabo Frio já que os outros eram bastante inviáveis.
Como última providência fez contato com a superintendência da polícia federal no Rio de Janeiro solicitando que a corregedoria interna mantivesse sob vigilância os agentes enviados aos aeroportos da capital se comprometendo, após sucinto relatório verbal, enviar logo pela manhã todas as informações em um relatório interno reservado.
Rita, por sua vez, tendo escapado do cerco policial, divertia-se no baile comunitário da favela da Cocadinha.
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