“Não lute contra o imutável, busque modificar suas causas ou conseqüências.” ®
Quem via a desenvoltura de Rita e o prazer que seu rosto estampava enquanto se deixava levar pela música na balada que estava acontecendo na quadra da favela da Cocadinha ficava com apenas uma dúvida: ela bebera demais ou ela havia abusado de pelo menos uma das drogas à venda no entorno.
Ainda assim ela fora acolhida por uma rodinha de jovens da favela o que lhe garantiu segurança em relação aos ambiciosos olhares masculinos.
O sol já se anunciava clareando o lindo céu de Maricá apresentando suas enormes nuvens matizadas que garantiam mais um lindo dia de verão. Rita, de repente, mostrou-se espantada. Como ir embora àquela hora? O que fazer? Para onde ir? Sua moto havia ficado estacionada na primeira viela da favela e ali, ela sabia, a moto estava segura. Mas ela, aflita, afligia as meninas que, como ela, passaram a noite na balada.
Enquanto Rita se divertia esquecendo o seqüestro do amigo a polícia descobria grande quantidade de dinheiro, armas clandestinas, boinas ninjas, arquivos de fotos pornográficas no computador de Roberto, já detido na Polícia Civil. Na casa de Marisa a única coisa suspeita foi grande quantidade de euros – quase 50 mil guardados no meio do colchão de uma cama embutida no fundo de um sofá-cama. Já na casa do policial federal Roberto tinha mais de 200 mil em euro, quase 100 mil em dólar americano, 50 mil em real, arquivos com fichas confidenciais das polícias militar, civil e federal, pastas com anotações de chantagens em dinheiro, em sexo, em perversão sexual. No computador uma pasta com umas cem fotos de crianças nuas ou em atos libidinosos que pareciam ter sido copiadas da internet, planilhas detalhadas correspondentes as pastas físicas encontradas. Tudo isso num minúsculo quarto acessível por uma porta oculta dentro do armário do quarto do policial.
É certo que ele quase saiu ileso. O grupo, desanimado, já estava desistindo quando um detetive foi ao banheiro. Ele estranhou o fato do banheiro ser em “L” quando o quarto ao lado era totalmente reto. Bateu com a coronha da arma na parede e em toda extensão do lado que formava o “L” o som era oco. Já no restante era tudo sólido. Já estavam cogitando quebrar os azulejos quando alguém gritou: “Achei!“.
O dia amanhecia quando a ordem de prisão dos policiais federais que estavam nos aeroportos do Rio foi expedida. Bem antes de qualquer iniciativa Roberto soubera da operação pela reportagem da televisão do aeroporto, alertou Marisa, se encontraram e estavam voltando para Maricá planejando como proceder.
Casa de pobre é sempre hospitaleira e logo ela foi acolhida pela mãe das “irmãs metralhas” apelido que os colegas usavam quando se referiam as três meninas mais bonitas da balada, se não da favela inteira. A mãe, de sorriso aberto enquanto passava um café fresquinho, mostrava de onde a beleza das filhas viera. Isso ficou patente quando o pai das belas, João Carlos, acordou para ir trabalhar. Às seis horas da manhã, com o rosto amassado pela noite de sono, cabelo em pé, grande barriga fugindo do short, ele era quase assustador. Mas, sem dúvida, muito trabalhador. Nelma comentava durante o café, vendo o marido descer a rua, que mesmo depois que passou a ser escriturário no banco onde trabalhava e estudando à noite, João Carlos não perdia um bico nas obras de fim de semana.
- Também para sustentar e vestir estas três bezerras famintas e vaidosas o coitado tem mesmo é que trabalhar de sol a sol. – foi a deixa para começar um grande alvoroço em torno da mesa de café da manhã.
As brincadeiras e trocas de acusações entre as meninas, respingando em Rita que estava lá só para filar o café e a cama foi deixando o ambiente familiar para a menina que dormiu o sono dos justos naquela acolhedora casa.
Acordaram depois do meio dia. Almoço quase pronto e casa de perna para o ar. Roupas, sapatos, papéis, cadernos, tudo espalhado em todas as direções. Num regime de mutirão, que contou com o apoio de Rita, em menos de meia hora a praça de guerra virou uma residência com tudo nos seus devidos lugares. João Carlos chegou e o almoço foi servido. O clima de brincadeira e cumplicidade entre as quatro meninas era cada vez maior.
Alguém chamou no portão e logo estavam seis meninas, contando com Rita, passeando pelas vielas e chamando atenção quando não pela presença de Rita – carne nova na comunidade – pela beleza e simpatia das irmãs metralhas que cumprimentavam aos mais velhos com respeito e brincavam com os mais jovens.
Quando viraram uma viela estreita que se alargava logo à frente Rita levou um grande susto. Eram três garotos de uns quinze anos, se tanto, com pistolas e armas grandes. Mas o susto foi tão notório que até os meninos riram dela. Dali pra frente ela foi mais atenta e não foi mais pega de surpresa. Quando passavam por uma casa grande de dois andares, raridade naquela favela, saiu um rapaz bem vestido, olhos claros, sorriso marcante e as meninas se apressaram a apresentar Rita a ele.
- Arnaldo, esta é a Rita, uma colega nossa. – o olhar de Arnaldo estava fixo na menina e demonstrava total aprovação a sua beleza e ao seu corpo que com os olhos esquadrinhava.
- Como é seu nome? Rita? Estou encantado, mas tão encantado que vou virar poeta. Rita, você é mesmo linda, apaixonante e bonita! Viu só? Fiz um versinho! – o riso fácil mostrou uma boca com dentes bem tratados.
- Obrigado pelo versinho, Arnaldo. – arrematou Rita espantada com as discrepâncias que, no conjunto, Arnaldo apresentava. Bem vestido, simpático, olhos lindos... Pena que era baixinho, magricela e os cabelos...
Os cabelos pintados de água oxigenada eram horripilantes e mal tratados. Aquele poço de contrastes tinha um olhar forte e tudo nele transmitia um misto de maldade e covardia. Rita decidiu ficar atenta a cada detalhe daquele local e daquele homem. Ela não queria esquecer nada daquele instante.
Para sorte da incomodada Rita o grupo de homens armados que rodeava agora o grupo se movimentou seguindo Arnaldo que claramente era o líder maior de todos.
No burburinho chegavam notícias de cercos policiais, pagamentos de propinas, armas e drogas perdidas em grandes ações policiais no entorno.
Rita ainda pode perceber que o apelido do Arnaldo era Bazuca e que somente aquela favela estava dando lucro e livre de confrontos, mas eles não sabiam por que e esperavam a presença policial a qualquer instante.
Com elas seguiram apenas dois rapazes, armados apenas de pistolas, que eram primos de uma das colegas das metralhas.
Joana, a mais velha das metralhas, quis saber por que estavam tão alvoroçados. Um dos meninos explicou que todas as favelas estavam sendo atacadas pelos policiais. Eles estavam buscando um carinha que fora seqüestrado. O pessoal está preocupado porque a polícia só não veio ainda aqui.
- E qual o problema dela não vir aqui? – continuou Joana.
- Ora, a polícia sabe das coisas. Estão cercando tudo e aqui, onde fica o cativeiro do rapaz, eles não vieram uma única vez.
- Mas você acha que a polícia sabe onde fica o cativeiro? – perguntou Rita desdenhando das conclusões do rapaz.
- Ela não sabe que o cativeiro é um porão cavado no chão da casa do Bazuca, mas sabe que é aqui na Cocada, isso sabe!
- Sabe nada rapaz. Se soubessem estariam vigiando tudo por aqui e sufocando a todos até que um contasse tudo. – retrucou Rita.
- Você acha mesmo que alguém tem coragem de denunciar o Bazuca? Você é que está de brincadeira.
Nisso passaram por outro grupo e, como a conversa estava chata, Rita preferiu deixar o assunto morrer.
As meninas foram com ela até a entrada da favela. Rita se despediu e já na moto quase bateu numa moto quando quis aparecer provocando riso de todos ao redor, inclusive das amigas. Ela foi apresentada ao motoqueiro. Era o Tonico.
- Esse é o Tonico, famoso irmão do motoqueiro negro. Ele como o irmão está sempre assim, todo vestido de preto. Mas o que o irmão tem de coragem ele tem de gaiatice. Vive fazendo a galera toda rir. – explicou a faladeira Joana.
- Ola Tonico! Esse motoqueiro negro existe mesmo? – Rita perguntou sem rodeios.
- Claro que existe, pessoa. Eu sou o Motoqueiro Negro. Elas é que não querem acreditar.
- Se você é o Motoqueiro Negro como consegue continuar vivo aqui dentro da favela? Dizem que ele é um justiceiro que vive de caçar bandidos e traficantes. – retrucou ela.
- Isso mesmo Tonico. Se você fosse o Motoqueiro Negro, ou mesmo irmão dele, o Bazuca já tinha levado você para o forno. – disse Joana sem se conter.
- Forno? – Rita não entendera e foi o próprio Tonico que explicou.
- Na favela nós temos um forno de microondas. Os meninos usam para assar inimigo e tira. Põe gasolina dentro de pneus, coloca o cara no meio e taca fogo deixando queimar até o dia seguinte. Só sobram ossos queimados.
Estava marcado um reencontro para aquela noite, pois a música iria rolar até meia noite pelo menos. Rita se despediu e, ainda com náuseas e com os outros rindo da reação dela, saiu da favela às pressas.
Paulo passou a madrugada com a família reunindo na casa os amigos dos filhos sem deixar transparecer qualquer preocupação, apenas com brincadeiras alimentadas por sua esposa.
Na área externa dez homens montavam uma discreta e espalhada guarda dando segurança a todos.
Apostavam que se algo desse errado era para ali que convergiria a represália dos marginais fardados ou não.
Em plena madrugada o telefone de Bia toca alertando ao casal. Ela reconhece o número de Roberto. O casal se olha e Paulo decide com um simples balançar de cabeça que o telefonema não seria atendido. Do celular de André comunica ao delegado que algo estava acontecendo.
A equipe designada para escoltar Roberto já estava tentando em vão localizá-lo no aeroporto – Roberto escapara ao cerco.
O delegado checa, apenas para seu alívio, como estava o cerco à Marisa para, preocupado, descobrir que ela também furara o cerco escapando.
Policiais federais foram enviados para as estradas de acesso à Região dos Lagos, logo cópias dos mandados de prisão seriam distribuídas oferecendo maior legalidade à prisão dos dois policiais federais.
0 comentários:
Postar um comentário