terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 26 – Efetuando Prisões ®


“Quando contados, são os maiores problemas da adolescência dos avós que fazem os netos adolescentes rirem.” ®
O cativeiro está ficando insuportável para Luís: o isolamento total; a absoluta falta de noção de horário, dia ou noite; os estranhos ruídos que nunca resultam em nada. Além disso, seu carcereiro só comenta que ele está ficando muito caro, que seu pai resiste e não paga o resgate, que eles vão mandar a mão direita dele se o pai insistir em pedir prova de vida e que logo ele estará morto ou jogado no mato para morrer com tiros nos membros. Mas não responde a uma pergunta sequer. Ele nunca conversa. Ignora o que Luís fala e se satisfaz no prazer da verbal tortura psicológica.
O casal, Paulo e Bia, também esta, de certa forma, experimentando a tortura na insistente ligação que Roberto provoca a pequenos intervalos. Não querem desligar o celular por ser o único meio de comunicação disponível. Por isso Paulo resolve que é melhor Bia atender quando o telefone volta a tocar.
- Espero você na porta do Banco do Brasil em meia hora. Sozinha. Se eu perceber qualquer agente policial ou qualquer movimentação estranha às conseqüências serão sérias. – Roberto sabe que lhe resta apenas o blefe. Ele está lidando não com Bia. Sabe que Paulo está ouvindo tudo e que ele é quem decide. Assim continua:
- Paulo, não tente me reter ou seguir. Um simples telefonema pode fazer Luís morrer. Não esqueça que seus filhos são jovens e precisam de uma vida normal. Eles serão, depois de Luís, meus alvos preferidos. Por isso Bia, converse com seu marido e vá sozinha ao nosso encontro. – Roberto, sem esperar respostas, desliga.
Paulo não pode permitir a ida de Bia. Ele estaria fornecendo uma preciosa refém a Roberto. Mas existiam, no tabuleiro, outras peças. Luís seqüestrado e agora ameaçado de morte imediata. Teria Roberto ligação com os seqüestradores? Porque Luís fora o seqüestrado, poderia ter sido qualquer outro jovem. Talvez o melhor e mais fácil fosse André já que estava apaixonado por “sua namorada” Marisa, cúmplice de Roberto sem sombra de dúvidas.
Outras perguntas ficavam também sem respostas:
. De onde viera todo aquele dinheiro encontrado na casa de Roberto?
. Além dos Robertos e de Marisa, quem mais estaria envolvido nesta rede de crimes e corrupção?
. Onde Hans, o ladrão internacional, se encaixava neste enredo?
Paulo detestava ficar sem hipóteses consistentes como respostas a seus questionamentos. Desta vez não conseguia formular qualquer hipótese sustentável. Ele avaliava:
. Se o dinheiro de Roberto e seus comparsas vieram do roubo internacional porque Hans estaria voltando ao Brasil e se expondo a um novo julgamento nos tribunais brasileiros? Nem mesmo por vingança valeria a pena tal empreitada. Então deve ainda existir parte significativa do dinheiro em algum lugar.
. Partindo da premissa que ainda havia algum dinheiro escondido, a quantia não deveria ser significativa. O somatório de dinheiro em espécie encontrado nas três residências somava aproximadamente um milhão de reais. Se todo ele era exclusivamente o que sobrara do que arrancaram de Hans a quantia ainda desaparecida podia até ser significativa, mas não tão alta como a Interpol sustentava (dois milhões de euros).. Como e quem estaria dando cobertura a Roberto para que ele ficasse, até então, livre de quais quer suspeitas de iniqüidade profissional?
O certo é que se Bia fosse ao encontro seria uma importante refém. Todavia, se ela não fosse, a captura de Roberto e Marisa seria dificultada ou, como ambos conheciam o procedimento policial, quase impossível a curto prazo.
O olhar de Paulo estava perdido dentro de Bia. Sua visão penetrava os olhos de Bia e se perdiam dentro dela em seus devaneios profissionais na busca de desvendar os mistérios que se anunciavam. Bia, como quem toma uma decisão, levanta-se repentinamente e quebra a concentração de Paulo trazendo-o de volta à realidade.
Bia está decidida a ir ao encontro. Paulo sabe que será difícil dissuadi-la. Segue com ela até a base provisória da polícia federal em Maricá. Buscam as diversas soluções com o que há de disponível.
Neste exato momento a equipe da superintendência da capital chega à base. Tomam ciência dos fatos. Questionam Bia. Ela está decidida e para todos, apesar do grande risco, esta é a chance que resta para efetuar a prisão dos dois agentes em curto prazo.
Paulo, todavia, ainda resistente a essa louca idéia, argumenta que ela não tem qualquer equipamento que dê a ela um mínimo de segurança. Um dos agentes de polícia vai até seu carro e traz de lá uma maleta, tipo 007, mas bem mais larga. Todos esperavam que ele tirasse de lá um grande equipamento e, para a frustração de todos e pega e liga apenas o seu celular.
- É melhor desistirmos desta aventura. Bia já não tem qualquer condição de chegar ao ponto de encontro no horário combinado nem de comparecer a ele com um mínimo de segurança. – Paulo está investindo na proteção de sua esposa.
- E se ela estivesse com uma escuta, um localizador e uma arma mesmo que de pequeno calibre? Você estaria mais seguro? – perguntou o agente.
- Ainda assim o risco seria grande. Mesmo porque estamos lidando com dois agentes federais que conhecem tudo sobre escutas, localizadores e armas e, sem dúvida, vão revistá-la. – será difícil convencer Paulo a liberar Bia e o tempo está passando.
- Não temos tempo para implantar tudo isso em Bia. – retruca o delegado.
- Me de seu chip Bia. – o agente falou estendendo a mão para Bia que mecanicamente abre a bolsa e lhe entrega um mimoso celular rosa.
O agente com habilidade retira o chip do aparelho rosa. Abre o seu aparelho e coloca, ao lado de outro chip, o chip de Bia. Com o aparelho fixo liga para o número de Bia e o telefone toca e Bia consegue atendê-lo e falar nele normalmente.
- Pronto. – disse o agente. Estamos prontos para o Roberto e sua parceira.
- Como assim, prontos? – Paulo falou ficando de pé em um pulo.
O agente pacientemente pegou o telefone, girou sua base inferior, abriu o aparelho no alto retirando toda a parte do visor e mostrou a todos as cinco balas calibres vinte e dois. Enquanto o aparelho rodava de mão em mão, todos desejando retê-lo um pouco mais, Pedro abre sua maleta e todos visualizam uma tela de LCD com nove polegadas apontando a base da polícia em um mapa colorido. Ele coloca um fone em Paulo que passa a ouvir, pelo equipamento, todas as falas e ruídos do ambiente.
Tratava-se de um celular com escuta de ambiente, dois chips – o que permitia emitir e receber ligações que seriam também monitoradas e ainda com possibilidade de, em segundos, localizar num mapa a outra pessoa se ela estivesse utilizando telefonia celular e aproximadamente dois minutos se fosse de um aparelho fixo. Em suma: um aparelho de espionagem infernal de origem chinesa apesar de acreditarem que era israelense. Reunindo em uma só peça telefone celular, arma camuflada, localizador e escuta de ambiente. O único defeito: não era pequeno, nem de flip, nem bonito.
Bia estava agora sob escuta e monitoramento por GPS. Atrasada chega sozinha no local combinado. Passados quinze minutos, quando já pensava em desistir, uma mulher lhe encosta uma arma nas costas e pega sua bolsa, um carro preto e filmado encosta no meio fio, Bia é jogada no banco da frente ao lado do motorista e a mulher senta no banco traseiro mantendo a arma apontada agora para sua cabeça. Toda ação poderia ser medida em segundos.
Seguem todos calados. O carro para num posto de combustível fechado. A bolsa foi liberada por Marisa. Ali não havia qualquer arma ou equipamento. Três mãos percorrem todo o corpo de Bia. Roberto aproveita para, ao final, acariciar-lhe os seios que desnuda com a desculpa de que ali pode estar oculto algum equipamento. Bia, superando sua própria tensão com os jorros de adrenalina, reage rindo enquanto fala:
- Você está ficando neurótico com ações policiais. Anda vendo muito filme americano. Acredita mesmo que Paulo tinha em casa equipamento de escuta e tempo para instalá-lo em meu corpo?
- Ele não deixaria de tentar. – retruca Roberto.
- Você confia muito pouco em você mesmo, na sua atração, no seu poder de conquista. Estou aqui por decisão própria. Paulo quis me convencer que você me queria apenas como refém. Nem passa pela cabeça dele que o que você mais deseja é possuir a mulher dele. – e dando um tapa na atrevida mão que insiste em passear por seus seios completa – e pare de me bolinar na frente da Marisa. Você sabe o quanto eu gosto dela. Onde você vai deixá-la?
- Ela vai conosco.
Bia volta a sorrir demonstrando ser a dona da situação.
- Mas não vai mesmo. Detesto suruba e com ela nada seria possível. O pior é que vocês estão sendo procurados e deve haver policiais à espreita na casa dos dois. Acho que até mesmo na casa do seu xará Roberto, apesar dele estar preso. Ainda assim você vai ter que escolher entre eu e ela. Com nós duas você não vai poder ficar, somos incompatíveis.
Roberto já colocara o carro em movimento e se perguntava se Bia era uma excelente atriz ou se estava mesmo apaixonada por ele estando ali voluntariamente.
Bia e Marisa agora discutiam e ele nem conseguia escutar concentrando-se no caminho alternativo por onde trafegava. Em poucos minutos anunciou que estavam chegando e mandou Marisa vendar Bia e se esconder bem no chão do carro para não levantar qualquer suspeita.
Marisa lembrou a Bia que estava no comando da situação e com uma pistola apontada para os quadris dela onde qualquer tiro provocava dores insuportáveis sem matar de imediato. Se fosse provocada Marisa certamente faria Bia ter uma morte lenta e dolorida. Elas se “amavam”!
Bia logo percebeu que estavam entrando num motel. Roberto pediu o melhor quarto, informou que era seu aniversário de casamento e que gostaria de já encontrar nos aposentos uma garrafa de champanhe francesa de qualidade num balde com gelo e duas taças. Ele prometeu ao porteiro que todo o resto seria só surpresas para a esposa e mostrou a ele que ela já estava, inclusive, vendada.
Em resposta recebeu um forte e desajeitado tapa.
- Pare de me exibir como a um troféu Roberto. Não posso evitar, mas posso reagir.
Ela sabia que aquilo chamaria a atenção do porteiro e que, quando a equipe policial chegasse, ele se lembraria do nome de Roberto e da leve resistência dela.
Agora, enquanto o carro seguia para o quarto de motel, estava temendo por sua vida. Não conhecia Maricá muito bem para afirmar certamente, mas naquela região o motel que ela conhecia era o Fazendinha. Resolveu arriscar.
- Você quer me surpreender? Então devia pegar dois quartos. Aqui no Fazendinha tem uns quartos meia boca que para essa “mocréia” vai ser “uma brastemp”.
Bia, já sem a venda, seguiu falando, sempre apontando objetos que ia qualificando enquanto saia do carro e entrava no quarto, como forma de permitir, de alguma forma, a localização do grupo facilitando o trabalho dos policiais que se mantinham na escuta.
- Bia, você está me apoquentando! Fica calada! – Roberto fala e para menosprezá-la puxa Marisa para si e beija-lhe ardentemente a boca.
- Fica com essa “mocréia”. É tudo que você merece. – desdenha Bia. – a voz de Bia perdera brilho. Na verdade ela, ao ver a cena do beijo, sentiu uma mistura perturbadora de sentimentos.
Ela buscava entender se foi ciúme de Roberto, mas tinha algo mais naquele sentimento.
Roberto se afasta de Marisa e com uma bofetada faz Bia cair sentada na poltrona.
Bia descobre que a dominação que Roberto agora exerce sobre ela está afetando sua libido. Ser humilhada e dominada estava sendo um afrodisíaco que se misturava a ansiedade, ao medo, a adrenalina e acendia seu corpo para o sexo. Isso era perversão. Ela não podia permitir que seu corpo reagisse assim.
- Fica aí. Quieta e calada. Observa para ver se aprende como se faz sexo. Você só deve saber fazer amor. Hoje você vai ver o que o prazer, o orgasmo, podem fazer por uma mulher!
Larga Bia sentada na poltrona e parte com volúpia em direção à Marisa de quem vai arrancando a roupa, enquanto acaricia e beija cada parte do corpo desnudada. É uma inebriante cena de ferocidade sexual. Algo instintivo, animal e belo.
Ainda assim, o momento crítico se aproximava e Bia estava tentando planejar sua ação no momento oportuno. As cenas roubavam-lhe a concentração. Impossível ficar impassível diante de um casal fazendo sexo para ser assistido. Eles estimulavam a participação de Bia. Chamavam a sua atenção para cada detalhe, para cada reação corporal...
O telefone de Roberto toca e o casal estanca. Parecendo aflito Roberto atende.
- Roberto.
- Quem? Motoqueiro Negro? Fôda-se. Mata ele, porra.
- Sei. Isso. O quê?
- Arnaldo eu já te proibi de ligar para esse número. É? Eu sei que não atendi o outro e se não atendi é porque não pude.
- A casa está caindo. Estou. Quando a fervura baixar vou ao teu encontro. Não vou falar sobre isso por este telefone.
- Isso é tiro? Então desliga e vai tomar conta do que é seu. Vou levar a esposa do Paulo para fazer companhia ao teu menino. Ela vale muito mais do que os trinta mil que você pediu por ele.
- Porra Bazuca, a casa caiu, não vou poder mandar a polícia para ai. O Motoqueiro é apenas um homem, sozinho.
- Não existe essa merda de corpo fechado. Acerta a cabeça dele que ele morre na hora.

 

0 comentários: