“Se suas mãos não alcançam o alto do muro, não pule. O outro lado pode ser ainda mais alto.” ®
Para surpresa do Motoqueiro Negro, assim que ele entrou atirando nos traficantes da favela percebeu que mais alguém também estava atacando o mesmo grupo.
Logo percebeu que outro motoqueiro, como ele em moto e vestes negras, juntava-se a ele e agora formavam uma dupla de justiceiros.
Conforme avançavam penetrando na favela da Cocadinha, apesar do confronto, os traficantes recuavam. Isso não era bom. Quando chegassem à fortaleza do Bazuca teriam que enfrentar uma concentração de inimigos.
Uma moto de forte ronco se aproxima. O Motoqueiro Negro vira-se para atirar, mas percebe, a tempo, que era mais um “motoqueiro negro” que se juntava ao grupo. Agora eles eram três.
O primeiro “motoqueiro negro” que se juntou a ele usava a roupa um pouco diferente e não escondia a face. Já o outro, sem que ele possa imaginar como, vestia-se de forma idêntica e só se diferenciava dele pelo grande ruído da moto. A moto, para o Motoqueiro Negro, devia ser o mais silenciosa possível para ajudar no elemento surpresa.
Foi por conta do elemento surpresa que ele parou e chamou para junto de si os outros dois. Sem dizer uma palavra apontou para o Tonico e para a ruela à direita. Ao outro motoqueiro ele indicou a rua inclinada que subia à esquerda. Aguardou os dois tomarem distância e seguiu vagarosa e cuidadosamente pela via principal olhando principalmente para as lajes.
Em pouquíssimos minutos estava tendo que recarregar as armas. Atrás de si, por conta da ação do trio, já tinham mais de uma dezena de mortos ou baleados. Na curva seguinte ele entraria na rua onde Bazuca morava. Parou, verificou as armas, cruzou a metralhadora semi-automática nas costas onde estava a AR15, ambas municiadas, pegou suas adoradas pistolas automáticas cromadas.
O Motoqueiro Negro utilizava duas pistolas FN Five Seven, calibre 5,7 x 28 mm, cada uma com 700 g e 20 tiros. A sua jaqueta de couro, comprada pela internet, fabricada na Itália, trazia em suas presilhas peitorais mais quatro carregadores, dois já usados. Enquanto ele se tranqüilizava por ainda possuir 80 cartuchos ficava tentando descobrir como seu clone conseguira uma jaqueta igual a sua.
Fez a curva. Travou o acelerador da moto passando a controlar a velocidade pela embreagem e freio. Soltou o guidão ficando com uma dirigibilidade mínima. Por sorte aquela era uma das melhores entre as poucas ruas asfaltadas na favela.
Parecia um muro de homens. Mesmo antes de dar seu primeiro tiro pode ouvir seus clones atirando e chegando por trás no mesmo ponto. Os traficantes estavam desnorteados com os três motoqueiros negros que se lançavam num ferrenho ataque contra eles.
O Motoqueiro pulou da moto deixando-a despencar no chão e foi se proteger no largo dente de um sobrado que avançava na calçada formando uma eficiente proteção com a sua coluna. Assim protegido deitou-se no chão reduzindo o risco de ser atingido. Pôs as armas ao seu lado e, sem descuidar da retaguarda optou por tiros certeiros.
A eficiência de seu ataque era impressionante. Oito em cada dez tiros jogava um dos traficantes no chão e a maioria deles ficava fora de ação. Ainda assim não foi fácil vencer a muralha que, atacada, refugiou-se na fortaleza do Bazuca.
Agora o risco vinha das armas de grosso calibre, da possibilidade de lançamento de granadas e a possível chegada de reforços ou mesmo da polícia que não deveria tardar. Eles eram apenas três e ao que tudo indicava o clone mascarado já estava ferido.
Reduziu-se a intensidade do tiroteio com ambos os lados abrigados e o embate prometia se prolongar além do desejado.
O Motoqueiro pega suas armas, levanta, usando a metralhadora pela primeira vez e disparando pequenas rajadas corre até sua moto. Tem dificuldade em levantá-la. Por sorte Tonico entendeu a iniciativa e passou a atirar intensamente dando tempo do Motoqueiro dar a partida e, para alegria dos marginais, bater em retirada.
Agora a artilharia estava voltada apenas para um lado da rua o que facilitava a ação dos bandidos que em maior número ameaçava matar os dois clones abandonados pelo Motoqueiro Negro. Eles estavam perdidos. Os homens de Bazuca já estavam nos muros uma vez que os clones não possuíam qualquer rifle ou arma mais pesada.
De repente os homens que estão no alto da laje são atingidos. Surpresos, os traficantes tentam localizar o atirador olhando as lajes das construções do entorno e se descuidam da própria laje.
O Motoqueiro Negro dera a volta. Vindo de trás, alcançou as lajes vizinhas na retaguarda do bando e foi fácil atingir os quatro bandidos que dominavam a laje da fortaleza.
Para alcançar a laje indefesa o Motoqueiro lançou mão de um cano de ferro como alavanca e saltou corajosamente de um prédio mais baixo para a mansão de Arnaldo. Quase caindo ainda conseguiu manter o cano em suas mãos. Ele sabia que precisaria de apoio na descida.
Com o ataque pelo alto da própria fortaleza os traficantes só podiam se defender de outros prédios ou se esconder no interior da casa. Com a situação dominada e com seus clones atacando os homens que estavam em outros prédios o Motoqueiro conseguiu localizar o alçapão que permitia ingressar no imóvel.
Levantou sua tampa apenas o suficiente para colocar o cano da metralhadora e dar rajadas para todo lado. Só então levantou jogando no lado oposto a tampa do alçapão e, verificando não haver nenhum homem por perto, lançou-se, de frente, escada abaixo caindo no corredor onde foi atacado por um grupo que subia a escada e dois homens que estavam dentro de um cômodo em frente.
Rolou para o canto do corredor protegendo-se das balas que vinham de baixo e, enquanto rolava, tirou de ação os dois homens entrincheirados.
Surge ao seu lado uma granada. Com presença de espírito e grande coragem pega a granada e arremessa para a escada onde ela, descendo vai ricocheteando até que explode. Os gritos de dor podiam ser ouvidos a grande distância. Aos pouco apenas três homens iam drenando a primazia e número de homens e armas dos traficantes.
O Motoqueiro lamentava não ter como comunicar-se com seus clones. Estava aflito pela situação deles. Optou, ao invés de descer, deixar-se ficar num quarto quase em frente ao alto da escada. Dali ele ficou indo até a janela onde localizava e atirava em um dos homens de Bazuca escondido nos prédios do entorno e voltava apressado até a porta mantendo os homens da casa impossibilitados de subir até ele.
Nova granada. Ele fechou a porta e se abaixou no canto oposto. Tão logo ela explodiu, com a metralhadora na mão, já praticamente sem munição, avança até o alto da escada e com sua última rajada tirou mais três homens de seu caminho.
A cada homem tombado, ele sabia, aumentava o temor de subirem para abatê-lo. Assim ele tinha oportunidade de acabar coma resistência externa.
Assim que não mais se ouvia tiros lá fora o Motoqueiro pegou suas pistolas, AR15 e metralhadora cruzada nas costas verificando que ainda possuía nas pistolas alguns projéteis; trocou os carregadores. Agora tinha quarenta tiros e ainda podia municiar com mais alguns tiros as duas armas.
Lançou-se, sem qualquer hesitação, escada abaixo. Pensou, antes de se lançar no corredor do segundo andar, em verificar se havia alguém nos cômodos. Desistiu da idéia. Ao abrir cada porta ficaria vulnerável.
Jogou-se no chão do corredor no segundo andar e atingiu o único homem que pode ver. Foi, arrastando-se, até a lateral da escada. Na subida havia ainda cinco homens e por trás das portas ele não sabia o que poderia haver.
Aguardou alguns instantes. Percebeu que não existia coragem entre os marginais para subirem além de onde estavam e que ficariam ali o esperando. Teria que se expor.
Quando ele se lança na escada descendo os degraus percebe uma claridade de porta se abrindo no primeiro andar e tiros. Tonico fica gravemente ferido, mas salva a vida do Motoqueiro dando a ele o tempo necessário para abater os homens que restavam na escada diante da surpresa de seu ataque.
O Motoqueiro sem trocar qualquer palavra com Tonico o coloca sentado no fim do corredor. Assim ele teria alguma chance de defesa se surgisse alguém.
Agora ele desce para o subsolo. Ali não encontra qualquer resistência. Existe ao final da escada apenas uma porta. Ele se prepara, sabe que por trás desta porta deve haver muitos homens e que, sem corredor, ele vai ficar totalmente exposto. Mas aquilo tinha que acabar.
O Motoqueiro Negro olha para a porta. A tensão aumenta. Ele estuda uma forma de, abrindo a porta, manter a possibilidade de atirar com as duas mãos. O tempo passa e ele decidido abaixa-se quase deitando no chão. A posição escolhida fará com que ele caia deitado no chão, metade do corpo dentro do quarto, assim que a porta se abrir. Deitado de barriga no chão ele reduz a área de ataque de seus inimigos e mantém ao máximo a potencialidade de atirar.
Abre a porta, lança-se ao chão e vê apenas Luís abaixado e assustado num canto do quarto. Corre até ele que ainda assustado se encolhe. Estende-lhe a mão. Puxa seu corpo ajudando-o a erguer-se. Abraça-se a ele e beija-lhe seguidas vezes.
Luís não consegue entender nada. O Motoqueiro se apresenta.
- Sou eu, o Motoqueiro Negro.
- Sou eu, a Rita das Grutas de Spar.
Ela fala e arranca a máscara permitindo que seus cabelos se espalhem pelo ombro e que seu sorriso ilumine os olhos de Luís.
Ouvem, então, o grito de Tonico junto com uma rajada de metralhadora.
Rita, o Motoqueiro Negro, avalia: a metralhadora sem munição, Luís sem experiência em atirar e ela com apenas duas pistolas e um AR15.
Entrega uma pistola na mão de Luís, segue na frente subindo cautelosamente a escada. Luís a segue de perto. Rita tem na mão direita o AR15, na esquerda uma das pistolas. Quando vão alcançando o alto da escada Rita atira com o AR15, mas apenas fere um dos homens que lhes aguardam no primeiro piso.
Uma granada desce quicando a escada e Rita em um pulo puxa a mão de Luís fazendo-o subir na sua frente e jogando-o para o lado onde estava o corpo de Tonico. Joga-se para o mesmo lado de costas e atirando com a pistola no automático permitindo a saída de quase todos os tiros sem se preocupar com a pontaria.
Um tiro arranca-lhe da mão o AR15, seguidos de mais dois no abdômen. O homem que a fere morre com um tiro no meio da testa. Luís está atirando. A porta se abre e a polícia entra no corredor. Rita está desfalecida. Luís largou a pistola para acudi-la e Bazuca ainda dispara contra o rapaz errando seu alvo e sendo dominado pelos policiais.
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