“Confesse suas mágoas ao vento, aos outros só confie suas alegrias.” ®
Em toda história de vida de Ferreirinha jamais se pode aplicar a ele o adjetivo de herói. Em nada jamais se destacara, nem mesmo na vida bandida que levou. Simpático, alegre, divertido eram suas principais qualidades sempre completadas com o “arremate”: irresponsável.
Talvez por isso, na delegacia, ninguém estranhou as longas ausências de Ferreirinha. Aliás, ninguém nem contava com ele para nada. O que ele possuía era pouco e já havia dado: informações.
Rosa, no entanto, estava feliz por tê-lo conhecido. Ela certamente vivia a melhor fase de sua vida. Nunca tivera um companheiro tão dedicado, carinhoso e presente. Por isso, neste momento de desespero – que só ela via – pelo seqüestro do filho, ela foi sua parceira.
Ele sempre fora vaidoso e trouxera o desenho de uma roupa pedindo que ela fizesse para ele. Tinha muitos detalhes. Para sorte de Rosa ela achou a complicada camisa no brechó da igreja, perfeita, a diferença era apenas a existência de pequenos cintos no lugar dos pespontos.
Quando ela terminava a calça e os detalhes do protetor de capacete ele chegou com mais uma novidade e, eufórico, a fez colocar aquele capacete de nazista e ir com ele dançar por toda noite no centro da cidade.
Conseguiu, no banco, um pequeno empréstimo e com a entrada na mão convencera a um amigo a pegar a moto usada para pagar em vinte e quatro parcelas muito baratas.
Rosa acordou realizada e encontrou junto à mesa já posta para o café um pequeno ramo de flores silvestres – colhidas nas imediações – e um bilhete agradecendo pela roupa e pedindo que ela orasse muito para que ele voltasse logo.
Preocupada e, como toda mulher, levando muito a sério o que é divino ajoelhou-se ali mesmo agradecendo a Deus pelo tardio companheiro. Rezou por mais de meia hora e quanto mais rezava mais angústia sentia. A reza foi fervorosa. Ela mesma estranhou seu fervor e a paz que nela se instalou ao final. Certa de que era mais uma das bobagens que o amor provoca passou um pouco de café e usufruiu da deliciosa mesa que lhe fora oferecida por Ferreirinha assistindo a um programa de culinária na tv.
As ambulâncias eram poucas para tantos feridos, mas em meio ao socorro a tantas vítimas um grande burburinho.
- O Motoqueiro Negro está gravemente ferido, acudam! – gritou um dos bombeiros.
Os que ali estavam desde o início dos trabalhos foram os primeiros a chegar junto ao Motoqueiro. Entre eles Luís que já não entendia mais nada.
Rita contara a ele sobre o Tonico durante seu atendimento. Era morador da favela que se dizia irmão do Motoqueiro Negro e que não enfrentava os “meninos” para não morrer no micro-ondas feito de pneus queimando. Já delirando ela dissera que o outro ela não sabia quem era. Mesmo ali, uniformizada, ela tentava proteger sua identidade secreta. Era mais forte que ela.
Quando Luís chegou não acreditou no que viu. Outro Motoqueiro Negro, ensangüentado, estava caído na pequena varanda de uma das casas. Os profissionais, com tesouras, arrancavam as vestes para tentar estancar a hemorragia. Na cabeça, acima da orelha, a máscara fora rompida por um tiro que sangrava não permitindo vislumbrar a profundidade do ferimento.
Os bombeiros se tranqüilizaram quando, com a máscara cortada e um simples algodão molhado em alguma substância perceberam ser superficial o ferimento.
Luís gritou e perdeu as pernas. Bambeou e foi caindo sendo logo apoiado pelos homens ao seu redor. Nesta hora ele só repetia:
- Papai, papai, querido papai! – era um pranto de agonia, mas que ainda assim deixava transparecer um misto de orgulho, prazer, felicidade e muita aflição.
Seguiram os dois de mãos dadas na mesma ambulância onde Ferreirinha justificava:
- Luís, ele pediram trinta mil. Trinta mil!
- Onde eu ia arranjar tanto dinheiro?
- Eles iam te matar, meu filho!
- Esse foi meu único recurso.
- O respeito conquistado pelo Motoqueiro Negro gerava, nos bandidos, um grande pavor. Apavorados eles atiram mal.
- As chances eram muito pequenas, mas aumentavam como Motoqueiro Negro. Ao Ferreirinha ninguém iria respeitar.
- Inexplicavelmente, por milagre, Deus me deu mais dois loucos companheiros, que como eu se fantasiei de Motoqueiro Negro e, por coincidência, resolveram atacar no mesmo horário.
- Foi a minha sorte, mas acho que eles não tiveram tanta sorte assim.
A voz de Ferreirinha saia fraca e cada vez mais baixa. Ao acabar de pronunciar estas últimas palavras desmaiou. Luís tinha certeza que seu pai morria e agarrado na mão dele irrompeu, mais uma vez, em pranto.
A notícia já chegava na TV e Rosa estava descobrindo o sabor de sua angústia. No local, em meio a mortos e feridos, o repórter comentava:
- Hoje se descobriu talvez o maior segredo do Motoqueiro Negro. Suas identidades ainda estão preservadas, mas eles eram dois, na realidade um casal. Tiveram ajuda de um fã, o morador da favela Tonico que fantasiado participou da ação, mas ele não teve a mesma sorte e está morto. Ainda não se sabe o estado do casal Motoqueiro Negro.
Nesta hora uma foto trabalhada de Tonico com a fantasia é colocada na tela e Rosa entende tudo. Ferreirinha também estava fantasiado de Motoqueiro Negro. Talvez o próprio Motoqueiro tenha atirado nele.
- Agora vamos direto para o hospital onde nossa reportagem aguarda um boletim a qualquer momento.
Uma repórter falou resumidamente:
“Estamos aqui, na porta do hospital, tentando contato com alguém da secretaria de segurança ou com um responsável pelo hospital. Ainda não se conhece o número de vítimas do confronto. Não se tem o número de mortos ou feridos. Não se conhece o papel de cada um nesta trama. A única informação que nos chega, ainda não confirmada, é que durante o conflito a polícia conseguiu libertar um refém de seqüestro, um jovem chamado Luís, provavelmente seqüestrado por engano de vez que é de família humilde sem posses ou propriedades.”
Rosa já trocara de roupa e, na porta de casa, ouviu as últimas palavras, trancou a porta e seguiu para o hospital.
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