terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 30 – Andréia Vira Escudo ®


“A natureza nunca se cala, nós é que ficamos convenientemente surdos." ®

Marisa segue dirigindo nua e em alta velocidade. Tenta se acalmar, coordenar seus pensamentos. Verifica o porta-luvas. Encontra um dos celulares de Roberto. Liga para a casa de Paulo, tem um plano.
Andréia atende, enfadada, mais uma ligação e seu coração dispara com o desespero percebido na voz de Marisa.
- Pega um vestido e uma sandália para mim e me encontre na esquina agora, por favor.
- E minha mãe?
- Ela está com Roberto. Parece que eles estão tendo um caso. – Marisa não resiste ao sorriso sarcástico que brota em seus lábios.
- Caso? Como...
- Rápido, por favor, Andréia. Já estou chegando.
Andréia se alarma. Desliga. Avisa a Lúcia que vai sair por um instante. Pega entre os vestidos o curtinho que fica mais sensual em Marisa e a sandália. Corre para a esquina. Conta os segundos angustiada. Sabia que Marisa estava em risco. E sua mãe. Seu pensamento divagava sem encontrar repouso pensando na mãe e nas palavras inacreditáveis de Marisa.
- Entra! – Marisa grita comandando Andréia que sai de sua letargia pulando para dentro do carro e fechando a porta atrás de si.
O carro arranca em alta velocidade. Marisa agora está mais tranqüila. Tem uma roupa e uma refém valiosa. Dá-se conta que se esquecera de mandar Andréia trazer algum dinheiro. Sua bolsa está no Motel, está sem dinheiro, sem cartões, sem cheques, sem armas...
As estradas vão estar monitoradas e ela precisa de um esconderijo pelo menos para as próximas vinte e quatro horas. Lembra, então, das Grutas de Spar. Quem pensaria procurar por elas ali?
Andréia tentava, em vão, falar com Marisa. Só agora, mais tranqüila e com um roteiro mental estabelecido ela se predispõe a conversar com a menina.
- Eu estava junto com o Roberto quando ele pegou sua mãe. Eu estranhei que ele pedisse para que eu cedesse o banco da frente para ela, mas não contestei. – vai desenhando a trama Marisa para uma Andréia cética.
- Assim que sua mãe entrou no carro eles trocaram um beijo na boca. Não vou nem qualificá-lo para você não ficar estarrecida como fiquei. – Marisa continua tecendo sua teia.
- Dali, sem qualquer comentário ou planejamento, Roberto seguiu para um motel. Estávamos chegando de viagem, achei um desperdício de dinheiro, mas entendi que ele queria ficar a sós com Bia.
- Só que Roberto pediu um só quarto. Enquanto entrava no motel eu questionei, ele se desculpou pelo lapso. Disse que assim que chegasse ao quarto resolveria esta questão.
- Cheguei ao quarto e corri para o banheiro. A viagem sem intervalos me deixara necessitada. Roberto havia parado no meio da estrada e se aliviara.
- Fiquei no banheiro por meia hora. – Marisa precisava justificar sua nudez, a emergência e a fuga para as grutas. – Quando saí os dois estavam se engalfinhando na cama em pleno sexo.
- Ai começou meu martírio. Roberto é louco. Parou tudo. Pulou da cama. Prendeu-me pelos braços. Mandou Bia arrancar minhas roupas. Enquanto ela obedecia humilde e calada, como se fora uma escrava dominada, ele beijava todo meu corpo e em especial cada parte desnudada.
- Bia era estimulada, praticamente forçada, a me acariciar. Sem alternativas fingi estar gostando. Observei e planejei cada detalhe. Quando o casal esqueceu um pouco de mim, atacando-se mutuamente em busca de prazer, pulei da cama, peguei a chave do carro na mesinha de cabeceira e fugi dali arrebentando a porta da garagem do motel.
- Roberto deve estar me caçando. Deve ter dito que roubei seu carro. Ele está furioso e eu sei que vai querer me matar. Por trás daquele policial só existe violência.
Não sei para onde ir – Marisa já estava chorando copiosamente, parecia acreditar em cada uma de suas palavras – decidi ir para onde ninguém vai nos encontrar. Vou para as Grutas de Spar e você não vai me deixar lá sozinha, vai?
Andréia chegou a ficar cética diante de tanta história, com tantos detalhes, parecia uma mentira mal elaborada, mas as lágrimas de Marisa aqueceram o carinho que já tinha por ela e Andréia acabou sucumbindo e até tentou consolar a amiga. Mas uma coisa lhe intrigava. Sua mãe...
Andréia, pelo que conhecia de sua mãe, não aceitava que ela tivesse “um caso” com ninguém. Mesmo que ela se apaixonasse por outro homem, o que também Andréia duvidava, ela primeiro romperia com Paulo. Ela era assim. Por isso aguardou um pouco mais observando o corpo nu da amiga e esperando que ela serenasse.
- Marisa, minha mãe jamais teria um caso com qualquer homem sem antes deixar meu pai. – atacou de repente Andréia.
Marisa, mesmo pega de surpresa com aquela afirmação avaliou que mãe é mãe e que, apesar de detestar Bia, tinha que contemporizar.
- A submissão com que sua mãe se entrega aquele homem inescrupuloso me faz crer que ela está sendo dominada por ameaça ou chantagem.
Os olhos de Andréia brilharam, se umedeceram e logo lágrimas silenciosas desciam sobre um rosto contraído repleto de ódio. Ela acreditava, agora, em cada palavra. Lembrou dos últimos dias e percebeu que Marisa deveria estar com a verdade dos fatos. Só para proteger sua família Bia desceria tão baixo.
Marisa, a esta altura, já estava na estrada que levava a entrada das grutas. Parou o carro. Desceu, mesmo nua. Foi até o lado do carona. Pediu ajuda de Andréia para se vestir como se precisasse. Começou, por mais estranho que pareça oferecendo seus pés para que Andréia lhe calçasse.
Mesmo com lágrimas nos olhos e ódio no coração, Andréia não deixou de observar como era belo aquele corpo feminino.
Depois de calçar a amiga levantou-se e cobriu aquele lindo corpo com seu mais sensual vestido.
Marisa, uma vez vestida cobriu o rosto de Andréia, que retinha entre suas mãos, com beijos que sugavam cada lágrima. Com beijos em cada olho. E, finalmente, com um beijo suave, um selinho correspondido nos lábios da menina.
Acabado o beijo, acanhada, estarrecida e confusa, Andréia deixou-se cair em seu assento e escondendo o rosto nas mãos voltou a chorar. Mas o pranto agora era diferente e refletia a confusão de sentimentos que seu corpo experimentava.
Marisa pegou cada uma das mãos da menina, afastou-as do rosto, e puxou-as para si olhando intensamente nos olhos de Andréia que se viu levantando e trocando mais um beijo, este quente, profundo, delicioso e intenso com Marisa.
Mudas, seguiram para as grutas onde Marisa pretendia ficar nas próximas vinte e quatro horas, pelo menos.
Andréia, sentindo um desespero crescer dentro de si já dentro da escura gruta – não tinham qualquer fonte de luz – grita com Marisa que precisa ligar para seu pai. Recebe uma bofetada forte que lhe faz cair.
Só então começa a descobrir quem é Marisa. Nas próximas horas ela ainda vai levar muitos tapas, em todas as partes de seu corpo, mas principalmente na cabeça. Será despida para não tentar fugir e terá que se submeter àquela mulher ficando quieta nua e calada na escuridão que tanto teme.
No aeroporto de Cabo Frio, depois de muitas horas e baldeações, chega Hans ao seu destino. Agora, experiente, ninguém conseguirá enganá-lo. Sai com uma mochila, faz sinal para um táxi.
Toda a turma da polícia federal de plantão ali, a espera de sua chegada, se mobiliza. Um táxi arranca do outro lado da pista e encosta junto a Hans. No outro táxi repentinamente entra um homem e Hans decide ficar com aquele carro que lutou por ele. O agente Alfredo é seu motorista. No outro táxi o agente se identifica e pegando mais dois agentes passa a seguir o táxi de Hans.
O pedido de Hans é inusitado:
- Grutas de Spar, segunda entrada, por favor.

 

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