“Dizer “sim” é muito fácil. Difícil é dizer “não”! Ainda mais se for a nós mesmos." ®
O olheiro, com a foto na mão, não teve dúvida. Ligou para Lothar comunicando que Hans finalmente chegara. Ele estava ali há quase dezoito horas, estava cansado, com sono e com fome, finalmente, tarefa executada, poderia ir para casa.
- O quê? Agora?
Lothar estava no comando e suas ordens eram para que seguisse a presa e comunicasse onde ela se hospedaria.
Reinaldo, revoltado, pegou sua moto no estacionamento e saiu em disparada. Tinha que alcançar o táxi. No sexto táxi... Lá estava Hans. Passou a segui-lo discretamente tentando não chamar a atenção do motorista. Era tarde. Os agentes que seguiam no outro táxi perceberam a presença de Reinaldo.
Quando o táxi de Hans saiu da estrada principal todos já sabiam para onde ele estava indo. Ainda assim o motoqueiro continuou seguindo o táxi à distância obrigando o táxi com agentes a se manter ainda mais distante. Eles, para não serem percebidos, pararam na primeira entrada das Grutas de Spar e ficaram esperando por alguns minutos.
Reinaldo ligou para Lothar, informou o paradeiro de Hans e, mesmo sendo solicitada sua permanência conseguiu se safar:
- Você é louco. Há esta hora um motoqueiro sozinho próximo à Gruta vai chamar atenção demais. Ele pode perceber e fugir. Vai ser mais difícil descobri-lo se ele se sentir seguido. – argumentou Reinaldo.
Lothar concordou e dispensou Reinaldo. Ele e Bayer, acompanhados de dois comparsas contratados, seguiram, armados, para as Grutas de Spar. Chegariam em, no máximo, quinze minutos.
Reinaldo, totalmente despreocupado, desceu pelo caminho ansioso para chegar em casa. Ia tomar um banho, almoçar e dormir finalmente. Na curva seguinte ele dá de cara com três homens armados no meio do caminho. Eles estavam bem vestidos e Reinaldo adivinhou que eram policiais. Avaliando suas chances preferiu parar e erguer as mãos sem esboçar qualquer reação. Não tinha o que temer. Não estava fazendo nem portando nada de errado.
Eram policiais federais. Ele foi imediatamente algemado. Preferiu responder as perguntas, certo de que nada do que fizera consistia em crime. Entregou a foto recebida de Lothar, seu celular e contou o pouco que sabia:
- Moro na Cocadinha e me perguntaram se eu queria ganhar um troco. Aceitei assim que me disseram que não era nada de errado. Eu apenas iria aguardar alguém chegar ao aeroporto e ligar para os amigos do cara que estava chegando.
- Esperei com a foto na mão e assim que vi o homem liguei para seus amigos. Pediram que eu não falasse nada – queriam fazer uma surpresa – e me pediram para segui-lo discretamente e informar o hotel que ele se hospedaria.
- Quando comuniquei que ele estava a caminho das Grutas de Spar, na segunda entrada, fui dispensado e estava indo para casa.
Ainda assim Reinaldo, protestando muito, foi preso. Entraram todos no táxi. Dois agentes ficaram bem próximos da segunda entrada das Grutas. Reinaldo foi conduzido pelo táxi, escoltado por um dos agentes para o núcleo das operações em Maricá.
Os policiais, que ficaram vigiando os passos de Hans, pediram reforços e Paulo foi um dos agentes que se deslocou imediatamente para o local.
O táxi foi dispensado por Hans, mas deu defeito. O motor não pegava. Hans não entendia nada de carros. Sensibilizado, todavia, deu uma gratificação significativa ao motorista, pegou sua mochila – única bagagem que trouxera – dela tirou uma lanterna grande e seguiu em direção a entrada da gruta.
Assim que ele entrou na gruta os dois agentes juntaram-se a Alfredo e comunicaram os últimos fatos. O carro na realidade estava com o segredo desligado e por isso não pegava.
Preferiram deixar o carro bem visível como estava, tampa do motor e da mala abertas – ele ao mesmo tempo em que chamaria a atenção também a desviaria. Com lanternas apagadas nas mãos seguiram para a entrada da gruta e, sem entrar, esconderam-se atrás da grande pedra lateral.
Quatro homens de calças jeans e blusões largos saem de uma van que estacionou praticamente ao lado do táxi e depois de conferir que o carro estava vazio, passaram a procurar seus ocupantes no entorno. Um crescente apito de sirene provoca neles um sentido de urgência e, também com lanternas em punho, seguem para dentro da gruta.
Na gruta, ao ver a luminosidade da lanterna de Hans, Marisa usa a pouca luminosidade do celular para guiar ela e Andréia para o salão do lago. A resistência da menina fez com que ela rasgasse com dificuldade uma barra de seu vestido já curto para amordaçar a menina que se debatia. Assim que ela estava amordaçada foi despida sob uma chuva de tapas em sua cabeça. Marisa não queria fazer barulho e nem deixar a possibilidade de fuga para Andréia. Ela sabia que naquela idade ela iria preferir se esconder a fugir e ficar com seu corpo exposto a estranhos.
A claridade promovida pela luz da lanterna foi se reduzindo e logo estavam na escuridão total. O frio e a umidade do local fizeram Marisa se abraçar a uma Andréia que chorava copiosamente. Esta, pensando que aquilo fosse um carinho, tentou desvencilhar-se. Mais tapas e cascudos na cabeça para doer sem fazer barulho. Ela aquietou-se chorando ainda mais, mas quase em silêncio para não continuar apanhando.
Agora o número de lanternas aumentara e Marisa temeu ser descoberta. Na total escuridão foi tateando até achar uma reentrância que as ocultasse melhor. O espaço reduzido fez com que ela colocasse Andréia sentada no canto sentando-se ao lado dela abraçou-a para reduzir a possibilidade de serem vistas e as tentativas de fuga.
As primeiras das muitas viaturas que chegariam ao local foram as três da polícia federal. Paulo dirigia a primeira delas com uma velocidade que só sua ansiedade justificava. Optara por não desligar a sirene. O ruído fazia parte de estratégia de enervar os bandidos. Ele nem por um momento poderia imaginar que sua filha estava ali como refém de uma assustada Marisa.
Aos poucos foram chegando policiais civis, militares e até agentes da Interpol. Agora eram quase trinta homens numa caçada e a maioria deles nem sabia o que nem porque caçavam.
A gruta tem uma acústica especial que, em virtude do eco, amplia qualquer burburinho. Parecia que uma multidão estava adentrando e percorrendo toda a área. Aflita, Marisa resolve ligar para Paulo.
- Paulo? Tudo bem, você me encontrou. Eu estou na gruta.
- Onde da gruta você está, é melhor facilitar as coisas, você sabe. – Paulo sorria. Marisa se entregara precipitadamente, não era a ela que buscavam e uma mulher sozinha certamente teria muitos lugares para se ocultar. Foi um golpe de sorte.
- Quero negociar com a promotoria uma delação premiada. – cortou Marisa.
- Tudo pode se arranjar, mas acho que você não tem muito que negociar já temos tudo levantado e as provas estão se... – mas Paulo é interrompido por um sussurro decido.
- Estou com sua filha. Andréia é minha refém!
- Como isso é possível Marisa, Andréia está em casa. – ele ouve as recomendações.
- Fale baixo. Você não vai gostar se formos encontradas por essa multidão. Não esqueça que você está peladinha, tá? – Marisa, após as recomendações, solta cautelosamente a mordaça de Andréia.
- Pai, sou eu! – Andréia só teve tempo de dizer isso. Marisa já estava afastando o celular, mas no impulso reagiu falando, agora, mais alto para ser ouvida por seu pai.
- Estamos no lago!
Paulo ouviu o tapa surdo que a filha recebeu e seu protesto.
- Pára, eu vou gritar. – Andréia, sentindo-se mais segura adivinhando a presença de seu pai na gruta, soltou-se de Marisa e ficou de pé afastando-se, mas permanecendo colada nas paredes. Não se enxergava nada naquele ambiente.
Paulo, discretamente, chamou uma colega e em dupla e sem chamar qualquer atenção foi seguindo em direção ao lago. Na primeira passagem da lanterna localizou Andréia que se encolheu devido a sua nudez. Ele ia se dirigindo para ela quando Marisa, aproveitando a iluminação, pula sobre ela e encosta o celular em sua cabeça simulando estar armada.
A dupla de agentes foi se aproximando e as ameaças aumentavam de intensidade. Marisa estava certa de que Paulo, mesmo temendo ferir a filha, não ficaria impassível vendo a filha ameaçada. Ficou cautelosa evitando que ele percebesse que ela portava um simples celular e mantendo-o afastado.
Andréia estava desesperada. Chorava baixo, tremia todo o corpo, o medo nem lhe permitira lembrar que Marisa não estava armada. O olhar de pavor que dirigia ao seu pai calava fundo dentro dele.
Quando o tiro ecoou por todo o salão do lago da gruta o coração de Paulo contraiu-se e sentiu-se fisgado por uma dor aguda. Andréia tropeçara e desequilibradas ambas caiam. Andréia pelo tropeço e sua algoz pelo tiro certeiro que a agente, negligenciada, tivera oportunidade de alvejar na cabeça de Marisa provocando morte instantânea.
Mesmo agoniado pela dor da incerteza Paulo conseguiu interromper a queda da filha puxando-a de encontro ao seu corpo. A agente por sua vez, certa de que cumprira sua missão, não se abalou com a morte provocada. Buscava com a lanterna as roupas de Andréia que estavam bem perto deles.
Quando o grande grupo chegou ao salão Andréia já estava com sua blusa larga e colocava a calça apressadamente. Mesmo estando desequilibrada emocionalmente ainda relatou ao pai:
- Primeiro pai, foi uma só lanterna e Marisa me levou para o salão, me amordaçou e me fez tirar a roupa. A pessoa se afastou por um dos caminhos e já não percebíamos qualquer claridade de sua lanterna.
- Entrou um grupo: calados, evitando qualquer ruído, eram três ou quatro pessoas. As sirenes já estavam ficando fortes e eles pareciam apressados para saírem da vista, foram seguidos por outro grupo, que não usaram lanternas, parecia querer juntar-se ao grupo anterior.
- Só depois é que veio um grande grupo que acredito serem policiais, pois era um burburinho intenso. – Andréia terminou seu relatório já na porta de uma das viaturas e Paulo preferiu abandonar as buscas e passar a cuidar da família. Ele mesmo, sem qualquer preocupação com o seu disfarce, dirigiu o carro da polícia federal até a casa da praia.
Deixou Andréia e dois agentes ostensivamente no quintal da casa e, com seu próprio carro seguiu para a delegacia onde Bia prestava depoimento para trazê-la para casa.
Paulo, sem saber por que, estava, agora, preocupado em recuperar o desenho infantil com moldura de palitos de picolé. Por que se lembrara dele com um sentido de urgência?
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