terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capítulo 32 - Novos rumos ®


“Oportunidades existem para todos nós. Só precisamos reconhecê-las e selecioná-las” ®

Paulo retornava para casa em companhia de Bia quando, pelo rádio, foi comunicado do intenso tiroteio instalado nas Grutas de Spar. Apesar da dificuldade de aproximação que o ambiente das grutas oferecia aos meliantes eles estavam fadados ao insucesso. A Polícia Civil estava convocando os especialistas em passeios pelas grutas e já de posse dos mapas traçava a estratégia de cerco aos estrangeiros e seus comparsas.
Se existia dificuldades para a polícia entrar, existia também dificuldade para os bandidos sairem. Uma diferença, todavia, era fundamental. Eles estavam do lado de dentro. Assim não tinham qualquer acesso a reabastecimento. Mesmo que a água não fosse um problema dentro das grutas com muitas fontes de água límpida e provavelmente potável, logo começaria a fazer falta alimentação e munição para fazer frente permanente às provocações policiais.
Em andamento estavam também outras estratégias. Através do barulho que a acústica das grutas tornava ensurdecedor, manter em nervosismo crescente o ânimo dos meliantes entrincheirados. Pelo cerco aos diversos acessos e sua iluminação intensa impossibilitar qualquer via de fuga.
Toda equipe policial envolvida estava certa da captura de todos os envolvidos. Todavia Hans, conhecedor das grutas, já havia alcançado uma saída tão logo se iniciou o tiroteio. Estava intrigado com o que podia estar acontecendo. Ele não desconhecia a presença de seus comparsas no país, mas eles não eram bandidos apesar de estarem dispostos a tudo para recuperar suas partes no resultado do grande assalto, sua intuição lhe dizia que eles eram os que provavelmente lhe seguiram gruta a dentro.
Quando saiu das grutas Hans levava consigo dinheiro suficiente para não ter que lá voltar por bom tempo. Parte do dinheiro que restara estava escondido por lá, mas só ele sabia onde. Agora sua preocupação voltava-se para a Rita, já que a esposa, como fora informado na época, tombara morta pouco depois de sua prisão. Ia pegar um taxi assim que chegasse à estrada, hospedar-se e tentar colher informações sobre a enteada.
Paulo, apesar de ser tecnicamente muito bem treinado e ser considerado um dos melhores policiais em serviço no Rio de Janeiro, não possuía qualquer queda para buscar espontaneamente a ação e a aventura. A adrenalina que era uma constante no início da carreira já não era facilmente ativada. A carreira repleta de ação tornara Paulo um homem mais frio e calculista. Não na expressão humana, na expressão técnica. Ele não agia com paixão enquanto policial. Ele agia totalmente com a razão sem se deixar envolver no conflito, nem se queimar no calor do momento. Por isso, e por tudo que ocorrera a sua família, tinha prioridade para chegar a casa, aninhar seus filhos e sua esposa e tentar minimizar os danos experimentados.
Mais uma vez lembrou o quadro infantil com moldura de palitos de sorvete. A imagem dele desmontado surgia em flash em sua mente treinada para ser policial. Ele mesmo não entendia este mecanismo. Só sabia que muitas de suas observações ficavam registradas subliminarmente em sua mente e que um alerta se acendia vez por outra chamando sua atenção para algum aspecto.
Telma chegara desesperada ao hospital e após conversar com Luís estava saindo de lá ainda mais desesperada. Luís em poucas palavras, que ela mal entendeu, tentou esclarecer os fatos:
- Me escute atentamente. - começou Luís - Eu estou bem. Saí ileso desta loucura... Deste seqüestro. Fui salvo por duas pessoas que amo muito. Uma delas foi meu pai. Meu pai é um ex-presidiário que vem tentando andar na linha sem sucesso, sem qualquer oportunidade. Ninguém o emprega nem mesmo para os trabalhos mais simples por sua condição de ex-presidiário. Ele vive de pequenos serviços como cortar grama, pequenos consertos domésticos... Bem, meu pai cometeu a loucura de se fazer passar pelo Motoqueiro Negro por não ter nenhuma condição de pagar o valor mínimo estabelecido para meu resgate. Eram trinta mil. Ele nunca iria conseguir tanto dinheiro.
- Não me interrompa, por favor. - Luís afastou Telma que tentara se aproximar para abraçá-lo - Meu pai perdeu muito sangue, mas não teve qualquer ferimento de maior risco, deve sair logo do hospital. Amanhã ou depois de amanhã.
- Que bom! Grande notícia! - entusiasmou-se Telma enquanto André e Afonso só ouviam atentamente.
- Por favor. Deixe-me concluir. - a irritação na voz de Luís amuou Telma sem surtir qualquer efeito em seu "amado" - A segunda pessoa que eu amo está gravemente ferida, passando agora por uma cirurgia para tentar conter uma hemorragia interna e retirar alguns possíveis projéteis. O nome dela é Rita. Ela era o Motoqueiro Negro e arriscou sua vida para salvar a minha. Por isso não há qualquer condição de existir mais nada entre nós. Esqueça-me, por favor. Eu não presto para você. Sou pobre, filho de ex-presidiário e apaixonado por uma mulher que praticou diversos crimes enquanto Motoqueiro Negro.
Telma ainda tentou falar alguma coisa, mas o pranto embargava sua voz. Antes que se recuperasse ouviu as palavras finais de Luís que falou já se afastando.
- Vá viver sua vidinha problemática de filhinha do papai e me deixe aqui enfrentando minha realidade. Eu nunca te amei e era apenas mais um capricho para você. Uma forma de você enfrentar seus pais criando mais um conflito para ter seus grandes problemas de quem não tem nada a reclamar. Fui!
Eles, André e Afonso, entraram mudos e saíram calados. Não haviam nem ao menos cumprimentado Luís ou visto qualquer dos pacientes. Afonso estava calado e também ferido. Agora que descobrira que Rita era o Motoqueiro Negro decidira-se que era ela, e não Andréia, a quem amava. Estava emocionalmente decepcionado, mas já voltava a pensar em Andréia. Ela certamente iria consolá-lo e ai... Quem sabe?
Consolando Telma seguiram para casa chegando instantes antes de Paulo e Bia. Nem tiveram tempo de tomar pé de toda situação que atropelara a família e seus amigos naquele dia.
Quando Bia finalmente entrou em casa foi uma correria até ela. Todos se aproximaram enquanto André e Andréia se agarraram a ela com Andréia desabando num pranto contido à duras penas. Era o momento de o policial virar marido, pai, alicerce, força, proteção etc.
Por enquanto os deixemos a só para repassarem tudo que já conhecemos e ajustarem isso entre eles. Vamos voltar aos Robertos. Quando o policial civil soube que seu xará estava preso como ele, estremeceu. Ele era seu maior apoio. E daí prá frente foi desabando até que ouviu a notícia da morte de Marisa. O Delegado mandou chamá-lo para um interrogatório, ofereceu-lhe um advogado - ele era advogado e dispensou assistência.
O Delegado começou o interrogatório como quem está sentado conversando com um amigo.
- É melhor você pensar em tudo que está acontecendo hoje. Reflita. Roberto Federal está preso, Marisa está morta. Os estrangeiros estão cercados nas grutas e é só questão de tempo. Há esta hora Roberto Federal está pensando uma forma de se proteger. Ele sabe que as penas são proporcionais aos crimes de cada um. Ele vai tentar se livrar de todos os crimes para ficar com uma mínima participação. A maior culpada, nós sabemos, será Marisa que você já deve saber que está morta. Foi morta com um tiro a queima-roupa na cabeça enquanto mantinha a filha do Paulo como refém. O restante ele vai jogar para cima de você sem dó nem piedade. Sendo assim vamos dar início oficialmente ao seu depoimento.
Dito isso o delegado ligou um gravador e chamou o escrivão. Começaram pela identificação. Roberto (federal) estava na sala ao lado sendo interrogado pelo delegado adjunto. Naquele momento estava sozinho e pensava uma forma de escapar enquanto o delegado atendia uma ligação em outra sala. Talvez por descuido, talvez propositalmente, a voz de seu comparsa começou a ser ouvida pelo alto-falante da sala onde estava. Ele pode ouvir toda a qualificação e quase enlouqueceu quando seu xará começou a responder a primeira pergunta.
- Qual o seu envolvimento com o policial federal Roberto Aleixo e o que vocês andaram fazendo junto com a Marisa. - perguntou o delegado depois das perguntas de praxe.
- Inicialmente devo informar que tudo que sei e vou contar aqui faz parte de uma investigação sigilosa que eu vinha desenvolvendo com a minha equipe. - depois de uma longa pausa Roberto prosseguiu.
- Houve uma denúncia que o policial federal Roberto Aleixo estava extorquindo um criminoso aqui em Maricá. Inicialmente não acreditamos na denúncia uma vez que o policial é lotado em Macaé. Mas esbarrei umas três vezes em uma mesma semana com o policial nesta região e passei a dar crédito na informação recebida. Mas tratava-se de um policial federal e eu não podia manchar o nome de um colega com apenas uma denúncia sem qualquer apuração.
- Aproveitando a coincidência de nomes consegui me aproximar do suspeito e logo éramos companheiros, afinal ele é meu xará e, como eu, um policial. Combinei com meus homens e com a ajuda de dois de nossos informantes simulei uma extorsão e chamei Roberto para se divertir à custa do medo dos bandidinhos. Disse que eram dois viciados e que eu estava precisando de mil pratas e eles é que iam me financiar.
- O plano funcionou e ele foi tanto na abordagem como no recebimento da grana. Ofereci uma parte das mil pratas a ele que recusou dizendo saber que eu estava precisando daquele dinheiro. Disse a ele que aquilo era só uma parte de minha dívida que estava enorme junto ao banco e aos meus cartões de crédito. Ele prometeu me colocar numa jogada especial.
O delegado adjunto voltou para a sala. Espantou-se com o alto-falante ligado e repreendendo Roberto Aleixo por estar indo além de suas prerrogativas desligou o aparelho voltando a reinar o necessário silêncio para que se iniciasse o interrogatório dele.

 

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