“Quem oferece a outra face pode vencer como Gandhi venceu os ingleses.” ®
A condição de simples olheiro não iria reter mesmo Reinaldo por muito tempo na delegacia. Assim que chegou fez um telefonema e simplesmente informou que estava preso e que precisava conversar pessoalmente. A escuta do telefone nada revelou. O número era de um orelhão comunitário instalado no interior da favela da Cocadinha, nenhum nome foi dito ou chamado. Nada restou daquele telefonema senão o fato que em menos de 30 minutos chegava à delegacia um advogado que, com simples protesto, levou Reinaldo consigo.
O delegado ficou olhando os dois se afastarem no Honda Civic novíssimo do advogado. Ele já decidira desistir de seguir Reinaldo. Era peixe pequeno e não daria tempo para montar uma grande operação e uma operação simples não se sustentaria além dos limites da favela onde os policiais ficariam evidenciados e expostos.
O delgado não poderia nem imaginar a conseqüência daquela prisão desnecessária. Reinaldo, interpelado por um comparsa do novo dono da favela, contou o seguinte:
- Tô querendo falar com o homem porque descobri que lá nas grutas estão escondidos tesouros de uma quadrilha internacional. Parece que é ouro, jóias, pedras preciosas e muito, muito dinheiro.
Reinaldo foi escoltado até uma casa e lá, sob olhares desconfiados de uns cinco homens falou com o braço direito do traficante:
- Eu soube por uns estrangeiros que as Grutas de Spar é usada por uma quadrilha internacional que esconde lá ouro, muitas jóias e dinheiro de todo tipo, dólar e até o tal de euro. Uma fortuna enorme.
Reinaldo foi levado a outra casa de olhos vendados e deixando por umas três horas num quartinho sem janelas. Só então conversou com o traficante. Ele chamou seu braço direito e mandou-o ir até as Grutas de Spar com uns cinco homens verificar aquela história. Saíram do quarto onde um arrependido Reinaldo permaneceu trancado.
Reinaldo não sabia que naquelas últimas três horas a favela toda fervilhava e muita gente estava abandonando a favela. Não estavam indo embora. Estavam com pás, picaretas, lanternas, lampiões e outros inusitados apetrechos a caminho das grutas a fim de "garimpar" a tal fortuna dos bandidos internacionais.
Surgiram nestas poucas horas tantas histórias diferentes. Todas elas temperada pela grande ação na favela com o caso dos Motoqueiros Negros. Um fato apoiava o outro e lastrava como praga favela adentro.
A notícia correu tão rápido que em muitas outras comunidades, não apenas nas favelas, o fenômeno se repetia. Agora era uma verdadeira multidão caminhando pela estrada que teve o trânsito praticamente interrompido e provocando um grande engarrafamento nos dois sentidos da pista.
Os telefones da polícia que já eram irritantes agora não paravam de tocar. Pessoas assustadas ligavam pedindo proteção. Motoristas pediam a desobstrução das vias e a grande maioria ligava para confirmar a existência da fortuna. Interessante é que quanto mais a polícia negava mais a notícia ganhava crédito.
Os policiais em serviço nas grutas foram alertados dos fatos pelo rádio quando pequenos grupos já chegavam e, sem se interromper ou perguntar nada entravam avidamente nas grutas afinal a presença ostensiva de tanto policial confirmava a existência da fortuna.
A princípio os policiais riram dos fatos, mas logo estavam assustados com o volume cada vez maior de pessoas chegando. Eram pessoas de todas as idades, sexos, religiões. Eram grávidas, deficientes, crianças de colo. Barracas eram montadas na periferia com uma velocidade impressionante.
Os policiais pediram reforços e foram informados que eles estavam retidos no engarrafamento que já chegava a mais de 5 km em ambos os sentidos da estrada.
Eles já não se impressionavam com cordas, escadas, pás e picaretas. Por vezes tentavam entender para que um maçarico, chave de grifo gigante, chifres, além de lanchas, material de mergulho, barcos, canoa e até um jet-ski estava sendo içado para o interior das minas.
Na entrada já se instalavam vendedores de cerveja, água e refrigerante. O churrasquinho de palito já cheirava forte. Ambulante vendia lanterna chinesa a R$ 5,00 já com pilhas. Tocadores de violão tocavam enquanto vendiam seus CDs.
Às três horas de isolamento de Reinaldo revolucionara Maricá inteiro. As coberturas em flashes na TV só faziam aumentar ainda mais o fluxo de pessoas, ainda mais quando filmaram um homem correndo com um saco já cortado nas costas e uma multidão correndo atrás dele tentando pegá-lo e recolhendo as notas de euro que escorria, se espalhava e voava pelos rasgos do saco. Estava confirmado. A fortuna existia.
A pior conseqüência de tudo isso para os policiais é que, misturados a pequena multidão que tomara conta das grutas e só fazia crescer, os "estrangeiros" conseguiram escapar ao cerco.
Enquanto isso, na casa de praia que Paulo alugara para passar com tranquilidade suas férias sempre tão adiada, depois de tantas ocorrências, aquietara-se. Mas sua cama estava lotada de gente e ele teria que arranjar outra cama para dormir.
Assim que deitou veio-lhe à mente o quadro infantil emoldurado com palitos de sorvete. A urgência tomou conta de sua mente e, sem outro remédio, levantou-se, pegou os restos do quadro e foi para a cozinha evitando que a claridade atrapalhasse o sono dos demais.
A frente do quadro imitava a um quadro infantil das grutas indicando o local de 3 malas mal desenhadas. No verso outro desenho imitava traços infantis com o desenho da casa. Ele passaria despercebido se não assinalasse sobre a laje 2 caixas d'água. De cada uma descia um cano até as bicas, se é que se podia chamar aquela cruzinha de bica. De uma das bicas saía algo que lembrava gotas e da outra eram retângulos.
Paulo ficou tão intrigado com aquilo que saiu procurando um alçapão que desse acesso à laje. Sem sucesso, não existia nada semelhante. Olhou por fora da casa também sem qualquer porta de acesso. Desistiu, estava dando muita importância a um quadro sem valor. Foi dormir. Dormiu mal. Algo lhe incomodava e o cérebro estava remoendo todos os fatos prejudicando um sono profundo. Ele acordava ao menor ruído e este estado de alerta durou até o dia seguinte.
Os primeiros noticiários da manhã davam ampla cobertura à caça ao tesouro que dominara Maricá nas últimas horas e o resultado com o encontro de sacolas com euros e reais que foram se espalhando sendo recolhidos com uma multidão violenta e eufórica.
- Desde a madrugada nada mais fora encontrado - continuava o âncora do noticiário. A informação que se apurou é que alguns saíram de lá com uma verdadeira fortuna em euro. Mas havia um grande problema. O dinheiro em real não era possível rastrear. O euro, todavia, precisaria ser trocado por real e nesta hora poderiam exigir do possuidor que explicasse sua procedência. Afinal, embora a polícia ainda não tenha confirmado, parece que era isso que um grande aparato policial procurava no local, portanto deve ser dinheiro ilícito. Alguns afirmam que é dos banqueiros do jogo do bicho, outros garantem que pertenciam a traficantes e daí a existência de euros.
- Os desdobramentos do caso serão acompanhados por nossa equipe de repórteres - fechava o tema a jornalista que formava par com o âncora - e a cobertura completa você assiste na edição noturna do noticiário nacional.
Paulo na mesma hora percebeu que as únicas provas que poderiam ter já não existiam e que seria impossível prender, agora, os estrangeiros. Decepcionado saiu da sala e foi andar um pouco. Da varanda viu a bola de um grupo de crianças cair nos fundos do terreno. Animou-se. Correu até a bola, fez algumas embaixadas e chutou a bola de volta aos meninos que ansiosos olhavam para ele do muro temendo que a bola não fosse devolvida.
Foi com um coro de "desculpas" e grande alívio que pegaram a bola e se afastaram um pouco mais.
Paulo ainda estava intrigado com a ausência de acesso à laje. Olhou em direção ao telhado e percebeu algo diferente. Pegou a escada e subiu para verificar de perto o que era aquela "mancha". Era uma madeira salpicada de cimento completando a parede também salpicada. Um bom disfarce que passava quase despercebido. Ele olhou, testou, desceu, pegou um martelo e tornou a subir na escada. Bateu com o martelo bem no centro da parte superior da madeira fazendo uma grande casca de salpicos cair e a madeira ceder um bom trecho. Foi batendo a toda volta. O ruído atraiu o pessoal da casa e logo a madeira cedia.
Paulo pediu uma lanterna. André já saia da cozinha com uma na mão e jogou para o pai. Enquanto Paulo entrava no sótão ele também subia. André chegou ao sótão já com a lanterna vencendo a penumbra escura e viu Paulo dando socos na caixa d'água e dirigir-se para outra. Essa parecia não ter água e Paulo começou a remover sua tampa toda amarrada com arame e André chegou a tempo de ajudar. Havia algo dentro da caixa e quando a claridade se fez eles perceberam uma grande quantidade de dinheiro. Grande não, enorme. Tudo em reais. André imediatamente anunciou:
- Estamos ricos.
O ágil raciocínio de Paulo concordou com aquela expressão: "estamos ricos". Realmente ninguém sabia da existência daquele dinheiro. O país inteiro já sabia que a fortuna existente, mesmo sem saber sua origem, fora achada e recolhida por uma multidão de pessoas sendo impossível determinar quanto fora recuperado. André parecia estar dentro da mente do pai quando replicou:
- Pai, agora você já pode se aposentar.
Paulo não se recriminava, nem recriminava a seu filho, por aquele posicionamento imediatista. Ele era um ser humano como outro qualquer. Quem não pensaria em ficar para si com uma enorme quantidade de dinheiro que mais ninguém sabia existir? Jamais descobririam que ele se apossara daquilo. Sua moral gritava: "Isso está errado!". E ele se via contra argumentando consigo mesmo. Era sua ganância contra a sua formação, sua personalidade.
Paulo pensava consigo mesmo que havia dedicado sua vida a evitar que pessoas se desviassem da moral e leis humanas. Eram espertos, aproveitadores, ousados, gananciosos, violentos, dominadores, covardes. Será que ele não se enquadraria entre eles só porque ninguém sabia da existência do dinheiro. Ninguém não, só a família dele.
E depois, como tentar mostrar aos seus filhos que o crime não compensa? Como dizer a eles que devem seguir o caminho nem sempre fácil da moral, da honestidade, da verdade? Como negar a sua família todo o conforto e tranquilidade que todo aquele dinheiro representava? Como convencer sua família que ele deveria continuar colocando sua vida em risco num trabalho mal remunerado (como todos são) quando poderia simplesmente se demitir ou se aposentar proporcionalmente?
- Não se fala absolutamente nada disso com ninguém. Nem com sua mãe ou com sua irmã. Tenho muito em que pensar. Agora vamos descer e dizer que aqui só tem fedor de coco de passarinho e nada mais. Nem se fala em caixa d'água.
Enquanto Paulo falava, fechava, com ajuda de André, a tampa da caixa e amarrava como antes estivera amarrada. Logo estavam descendo. Ficaram calados, ou melhor, ambos ficaram mudos a partir daquele momento. Ambos perdidos em seus próprios sonhos e pensamentos.
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